publicidade
Política

Democracia para quem? Os flatus vocis de Cármen Lúcia

A ministra do STF emprestou à arquitetura do Estado Excepcionalíssimo do Brasil não apenas o seu voto, mas a sua retórica

tagliaferro
A ministra do STF Cármen Lúcia, durante sessão na Primeira Turma da Corte - 18/06/2024 | Foto: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo

“Guardai-vos dos falsos profetas, que se apresentam a vós com roupas de ovelha, mas por dentro são lobos devoradores” (Mateus 7,15)

Na quarta-feira 22, a ministra Cármen Lúcia ministrou uma aula magna na Universidade de Brasília com o ar solene de quem deposita flores sobre o túmulo de um inimigo que ela mesma ajudou a enterrar. A democracia, disse ela, é “frágil como a vida” e pertence à “cesta básica dos direitos fundamentais”. É necessário — advertiu com aquele timbre compungido que confunde gravidade com profundidade — vigiar constantemente os fenômenos contemporâneos para evitar “o ponto de não retorno das liberdades democráticas”. O STF, acrescentou, enfrenta “situações sem precedentes”, exigindo que se “invente a melhor forma de responder”.

Receba nossas atualizações

Palavras belas. Palavras, aliás, de quem sabe muito bem o que significa inventar respostas — pois foi precisamente o que fez, em outubro de 2022, quando acompanhou a maioria do TSE para censurar o documentário do Brasil Paralelo sobre a facada em Bolsonaro, proclamando, com semblante grave, que “não se pode permitir a volta da censura sob qualquer argumento no Brasil” — e, ato contínuo, permitindo-a.

Como tenho dito, ali nasceu o Estado Excepcionalíssimo de Direito: aquele no qual a Constituição é uma bela encadernação que se abre apenas para os aliados, e as liberdades fundamentais valem exatamente até o momento em que seu exercício possa prejudicar o candidato preferido das autoridades eleitorais. Desde então, a exceção tornou-se regra, e a regra, letra morta: censuraram-se jornalistas, bloquearam-se contas bancárias, cassaram-se passaportes, prenderam-se influenciadores digitais, aposentaram-se compulsoriamente magistrados incômodos — tudo isso, é claro, em nome da democracia, da higidez institucional e da “garantia das liberdades democráticas”.

Carmen Lúcia não é, nesse drama, uma personagem secundária. É uma de suas protagonistas. Foi ela quem, ao longo de anos, emprestou à arquitetura do Estado Excepcionalíssimo não apenas o seu voto, mas a sua retórica — essa retórica florida e circular que fala em dignidade humana enquanto assina a sentença, e proclama liberdade enquanto aperta o nó. A ministra que hoje adverte contra os “chips na imaginação” colocados pelos algoritmos é a mesma que votou para que o Estado determinasse quais conteúdos os eleitores podiam ver às vésperas de uma eleição. A guardiã das liberdades é a mesma que participou da construção de um sistema judicial no qual a direita tem as mãos amarradas e a esquerda — orientação política declarada da própria ministra — circula livremente.

O escolástico medieval cunhou para falas como as de Carmem Lúcia uma expressão que o tempo não tornou obsoleta: flatus vocis — literalmente, “sopro de voz”, “baforada de palavras”. Era o termo com que descreviam os sons articulados, dotados de forma gramatical e aparência de sentido, mas desprovidos de qualquer referência no mundo real – em suma, puras emissões de ar.

No português, dá-se que essas puras emissões de ar também podem ter o sentido nauseabundo inerente à palavra “flato” (cuja raiz, por óbvio, é o mesmo flatus latino). Curiosamente, em seu maravilhoso Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, Francisco dos Santos Ferreira Azevedo inclui “flato” no campo semântico de “vaidade” – afeição por ele descrita como uma “ânsia incontida de despertar a admiração, inanidade, amor-próprio, flato, jactância”.

De todo modo, quer se as considerem malcheirosas ou perfumadas, palavras como “democracia”, “liberdade” e “dignidade” não passam de flatus vocis na boca de Carmem Lúcia. São conceitos esvaziados de conteúdo pelo uso sistemático e invertido que deles se faz, termos que soam bonito no auditório da UnB e não significam absolutamente nada no plenário do STF, onde a mesma ministra vota para calar quem pensa diferente. Ao cunhar a expressão, a escolástica referia-se a um debate filosófico sobre a natureza dos conceitos. No Brasil de 2026, o debate é político — mas a substância é a mesma: palavras que não correspondem a nenhuma realidade, e pior ainda: proferidas por quem construiu, tijolo a tijolo, a realidade oposta.

George Orwell chamou classicamente de duplipensar (doublethink) a capacidade da persona ideológica de sustentar simultaneamente duas crenças contraditórias, aceitando ambas com igual convicção. No Brasil de 2026, não é apenas um conceito literário — é o idioma oficial das togas esvoaçantes. E Cármen Lúcia fala esse idioma com a fluência serena de quem nunca precisou enfrentar a pergunta que ele torna impronunciável: democracia para quem?

Leia também: “O que aconteceu com Cármen Lúcia?”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 214 da Revista Oeste

Confira ainda

Leia mais sobre:

9 comentários
  1. Jorge Augusto Santos
    Jorge Augusto Santos

    Essa senhora só me lembra um personagem de Walter Disney : A maga patológica!,

  2. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Fantástico. Essa carmen lúcia está muito bem colocada junta com dilma, maria do rosário, gleisei, tábata, erika, samia, simone, talita, e tantas outras que se ocultam sob o manto de serem mulheres para praticar toda a sorte de indignidades que o ser humano pode conceber.

  3. Helder Rodrigues de Oliveira
    Helder Rodrigues de Oliveira

    Infelizmente uma Ministra que eu admirava, colocou todo o seu conhecimento, toda sua dignidade no lixo.

  4. Luciano Espinheira Fonseca Junior
    Luciano Espinheira Fonseca Junior

    Tadinha. Uma pobre alma associada a uma alma pobre; exemplo perfeito.

  5. Paulo Sérgio Gusson
    Paulo Sérgio Gusson

    Família dessa mulher, favor pede para ela sair .

  6. Urias Roberto da Silva
    Urias Roberto da Silva

    Artigo muito bom. Sob a crença de Bolsonaro e golpe, adotada como real por muitos, alguns aproveitadores e outros, a maioria, aceitando como fé, permitiu justificar violar a Consttuição. Creio que essa senhora está no segundo grupo.

  7. ELIAS
    ELIAS

    Sensacional o resgate da expressão medieval “flatus vocis”. No caso em tela, amolda-se como luva no outro sentido do flato porque é um discurso nauseabundo mesmo.
    E é de uma abundância atroz as manifestações de políticos e juízes que fariam mais sentido se expelidos pelo orifício oposto do tubo digestivo.

  8. PCC
    PCC

    Essa bruxa deveria estar presa por apoiar a censura prévia. Criminosa, em qualquer país minimamente sério já estaria atrás das grades, sem direito a vassoura.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.