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A calamidade pública não começou com a pandemia

Esse estado de “calamidade” é uma medida puramente burocrática, ou contábil. Apenas permite o governo gastar mais. E por isso o Congresso aprovou tão rapidamente

esplanada dos ministérios
DF - ESPLANADA/MINISTÉRIOS - GERAL - Fachada de prédio do Congresso Nacional em Brasília na manhã desta segunda-feira (16). Novas medidas de auxílio no combate à crise do Corona Vírus são esperadas. 16/03/2020 - Foto: BRUNO ROCHA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

 

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BRUNO ROCHA / FOTOARENA / FOTOARENA / ESTADÃO CONTEÚDO

A Câmara e o Senado aprovaram hoje o decreto do governo pelo qual fica combinado, oficialmente, que existe um “estado de calamidade” pública no Brasil. Que surpresa, não? Quem jamais poderia imaginar uma coisa dessas? Mais aí está: em vez de ser a gente que diz isso, são o Poder Executivo, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal que estão dizendo, na frente de todo mundo. “Vivemos uma calamidade”, decidiram eles.

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A culpa, pelo que ficou combinado, é desse coronavírus – embora qualquer criança com dez anos de idade saiba perfeitamente que a coisa está preta, por aqui, muito antes de o primeiro chinês ouvir falar em coronavírus. Na cabeça de todo mundo, a verdadeira calamidade é o Congresso Nacional, e a maioria dos sujeitos que estão lá dentro. Não vamos jogar o problema, agora, nas costas do bicho.

Esse estado de “calamidade”, para falar português claro, não tem nada a ver com uma descrição de como está o nosso país. É uma medida puramente burocrática, ou contábil, para permitir que o governo, legalmente, gaste mais do que está escrito no Orçamento da União de 2020. É claro, também, que foi aprovada na hora, sem um único pio de toda essa gente que vive criando as maiores dificuldades para aprovar as menores providências pedidas pelo governo – afinal, é uma autorização para gastar mais, e os parlamentares brasileiros, por uma questão de condicionamento genético, aprovam tudo, absolutamente tudo, que signifique torrar mais dinheiro arrecadado com os impostos que o cidadão paga.

Não é “dinheiro do governo” – isso não existe. Só existe dinheiro seu, e é desse mesmo que eles estão falando. Os números são um horror. O orçamento federal de 2020, devidamente aprovado em lei, estabelece que o governo vai arrecadar e gastar 3,6 trilhões de reais até o fim do ano. Não erramos o número, como vive acontecendo – desta vez está certo, pode acreditar: são trilhões mesmo. O lindo, na história, é que esse dinheiro, tirado até o último tostão do seu bolso, não dá para pagar as despesas públicas; é pouco, e por isso o governo foi autorizado a gastar 124 bilhões de reais a mais que isso, para não ir à vara de falências. Entra, então, o coronavírus – e o Congresso decide que o governo pode gastar mais ainda, talvez até 200 bilhões de reais.

O Tesouro Nacional já não tinha os 124 bilhões. Não tem os 200, é claro. Mas será que ninguém pensou, tanto para uma como para outra cifra, se não seria o caso, talvez, sem ofender ninguém, de cortar despesas em algum lugar para o mês caber dentro do salário? Ou seja: para ficar só dentro daqueles 3,6 trilhõezinhos? Não, ninguém perguntou nada. E se alguém tivesse perguntado seria encaminhado diretamente ao Ministério das Perguntas Cretinas.

Essa é a nossa calamidade pública.

 

14 comentários
  1. Ademilson Rodrigues Ribeiro
    Ademilson Rodrigues Ribeiro

    Guzzo, essa gente não presta. E, com a ajuda de parte da imprensa que os incensa diariamente, parece que perderam completamente qualquer senso.

  2. Rodrigo Dias da Fonseca
    Rodrigo Dias da Fonseca

    Em primeiro lugar, finalmente uma revista digital confiável. Obrigado.
    Depois, é uma benção poder ler os textos do Guzzo regularmente, me fazia tremenda falta. Pra mim, o jornalista de maior descortino do país, com um texto sempre ágil, contundente, simples e objetivo.

  3. Manoel Faria Siqueira
    Manoel Faria Siqueira

    Como você disse “torrar mais dinheiro arrecadado com os impostos que o cidadão paga” é o lema dos nossos políticos em todos os níveis da administração pública. Legislam em causa própria com o apoio do funcionalismo público federal/estaduais aumentando cada vez mais o tamanho do Estado. Acredito que jamais abrirão mão desses privilégios e reverter isso torna-se quase impossível. A prova disso é a significativa renovação dos membros do Senado e da Câmara Federal na eleição de 2018. Os novos parlamentares – quando o povo acreditou que haveria uma mudança, se engajaram rapidinho na gastança do nosso dinheiro. É o efeito da boiada que segue o boi mestre.

  4. Baltazar Cereto
    Baltazar Cereto

    O Congresso Nacional e seus membros saio os verdadeiros vetores da desgraça que o país vem vivendo. Ainda bem que contamos com o GUZZO para escrever o que a imensa maioria da imprensa esconde. A ” grande mídia” só se preocupa com a grana dos anúncios do governo.

  5. MIguel Costa
    MIguel Costa

    Já gostava de seus textos e entrevistas antes da Oeste.
    Vou torcer para que esta nova fonte de informações seja integra e independente de viés político. Jornalismo sempre foi um serviço a se desconfiar de quem escreve e porquê sobre determinado assunto. Quem leu Honoré de Balzac, Ilusões Perdidas sabe disso.
    Forte abraço Guzzo, sucesso à revista.

  6. Marta suarez
    Marta suarez

    Enquanto não reduzirmos o tamanho do Estado brasileiro, reduzirmos os privilégios com dinheiro público e reduzirmos a corrupção a calamidade continuará…

  7. Guilherme da Silva Gomes
    Guilherme da Silva Gomes

    Leitura diária obrigatória. Obrigado J.R. Guzzo e equipe.

  8. Maria Elena Ribeiro Mendes
    Maria Elena Ribeiro Mendes

    Os deputados e senadores estão felizes agora, pois só sabem conjugar o verbo gastar “o dinheiro dos outros”.
    Não vão precisar “doar” seu precioso fundo eleitoral, como o povo está exigindo nas redes sociais, porque o governo vai entrar no saldo devedor ainda mais. Pobre Brasil, um paciente com muitas comorbidades e atacado pelo vírus mortal da safadeza política.

  9. VALMIR FRANÇA VIANA
    VALMIR FRANÇA VIANA

    Infelizmente vivemos em estado de calamidade permanente, pois o virus da CORRUPÇÃO vive entre nós desde que Cabral aqui chegou. O VÍRUS é transmutado de privilégios e mais privilégios, onde os parasitas sempre aproveita uma oportunidade para continuar corrompendo. BRASIL. NAÇÃO RICA e POVO POBRE, pois uma casta de privilegiados administram o Patrimônio Nacional em benefício próprio.

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