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Uma placa representando o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, é exibida enquanto pessoas protestam contra a PEC 3/2021, conhecida como 'PEC da Blindagem', na Avenida Paulista, em São Paulo, em 21 de setembro de 2025 | Foto: Reuters/Tuane Fernandes
Edição 292

Congresso de baixo nível

Basta olhar para os ministros, para os que comandam as estatais, para questionar: com que moral esse sujeito reclama do nível dos parlamentares?

Lula não consegue esconder seu desprezo pelo Congresso. Em seu primeiro mandato, usou o Mensalão para comprar apoio dos congressistas. Agora, numa fala direcionada ao presidente da Câmara dos Deputados, disse que nunca viu um Congresso de tão “baixo nível” como agora, referindo-se à “extrema direita”.

Foi demais até para a militância da GloboNews. Octavio Guedes criticou a postura de Lula: “O presidente do Poder não pode constranger outro presidente do Poder numa cerimônia pública, falando da qualidade da representação.”

Em recente manifestação da esquerda, havia uma faixa alegando que o Congresso é “inimigo do povo”. O sonho da esquerda é ter no poder somente o líder “eleito” com a ajuda das urnas e do TSE, e de um STF camarada. Aqueles que foram eleitos pelo povo para representá-lo, esses são “300 picaretas”.

Com todos os defeitos que o Congresso possa ter, ele é fundamental para a democracia. Justamente porque ali estão representadas diferentes camadas da população, em que pese o excessivo controle dos caciques partidários.

Podemos — e devemos — falar de reformas, como o voto distrital, para aproximar o representante do eleitor. Mas não é isso que deseja o PT. O partido de Lula sempre bajulou tiranias como a cubana e a venezuelana, onde o Congresso virou apenas um prédio de fachada para dar verniz a regimes que dispensaram a participação do povo.

Todo líder autoritário acha que incorpora o anseio popular, o qual é a própria “vontade geral” rousseauniana feita de carne e osso. Ora, se o líder “sabe” o que é melhor para o povo, então ele pode abrir mão do povo na equação. É a tal “democracia de gabinete”, feita em nome do povo, mas não pelo povo.

Claro que esse tipo de demagogia perigosa prospera muitas vezes porque boa parcela da população também nutre certo desprezo pelo Congresso. Ele é fisiológico demais, corrupto muitas vezes, coloca interesses mesquinhos dos parlamentares acima daqueles do povo etc. Mas é o caminho que temos que permite correções não violentas de rumos, alternância de poder, contemporização e tudo mais.

Se o Congresso é ruim, a coisa fica ainda pior sem ele. E claro, o que Lula chama de baixo nível não é a presença de notórios corruptos que criaram verdadeiros feudos em seus Estados, mas sim os conservadores que não compactuam com a agenda socialista. Lula acha feio o que não é espelho: se ao menos todos fossem socialistas como ele…

O que Lula chama de baixo nível não é a presença de notórios corruptos que criaram verdadeiros feudos em seus Estados | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O que segura a revolução socialista em nosso país é justamente a presença de uns poucos, mas aguerridos combatentes do esquerdismo no Congresso. Fazem um trabalho de bastidores importante, costuram acordos para conter o avanço esquerdista e usam a tribuna com maestria para se comunicar com a população. É isso que Lula não suporta.

Churchill dizia que o melhor argumento contra a democracia era conversar cinco minutos com um eleitor médio. É verdade que muitos são alienados, não compreendem a visão macro, o que está em jogo em muitas votações etc. Mas seguem um “senso comum” que se mostra contrarrevolucionário. É por isso que Marilena Chauí, a filósofa do PT, repete que “odeia a classe média”.

O mesmo Churchill afirmou que a democracia é o pior modelo, exceto todos os outros que já foram testados. Não devemos esperar perfeição da democracia: ela lida com material imperfeito demais, que é a natureza humana. Mas a solução não é rechaçar o povo e criar uma casa de “ungidos”, o que só agrava a situação e costuma criar monstros autoritários sem qualquer apreço pelas liberdades básicas.

Basta olhar para o governo Lula, para seus ministérios, para os que comandam as estatais que voltaram a dar enormes prejuízos, para questionar: com que moral esse sujeito reclama do nível do Congresso? Se o Congresso está longe do ideal, o que dizer do governo federal, novamente envolto em escândalos e com gente do pior nível possível?

Retrato do Sir Winston Churchill | Foto: Yousuf Karsh/Bibliothèque et Archives/Wikimedia Commnons
Churchill dizia que o melhor argumento contra a democracia era conversar cinco minutos com um eleitor médio. | Foto: Yousuf Karsh/Bibliothèque et Archives/Wikimedia Commnons

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4 comentários
  1. James Cesar M A Souto
    James Cesar M A Souto

    E esse, não por acaso, é o governo mais “baixo nível” da história desse país!

  2. Antonio Saggese Netto
    Antonio Saggese Netto

    Como disse o Rodrigo, “esse sujeito”, antes de falar qualquer coisa sobre baixo nível, seria preciso que ele frequentasse uma boa escola, durante uns 10 anos, para se alfabetizar efetivamente e estudar algumas matérias; principalmente, geopolitica e história, das quais ele não sabe absolutamente nada.
    Se quisesse, apenas por alguns momentos, ser honesto, deveria se indicar como um bom exemplo de pessoa baixo nível.

  3. Maria Silvia Camacho de Castro Silva
    Maria Silvia Camacho de Castro Silva

    Como sempre perfeito.Coloca com sabedoria o dedo na ferida.
    Ah ,o Congresso……ainda bem que o temos……Até quando…..

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