publicidade
Senador Carlos Vianna, presidente da CPMI do INSS | Foto: Lula Marques/Agência Brasil
Edição 292

Presidente da CPMI do INSS: “Governo Lula tenta blindar nomes de sua base”

Senador Carlos Viana diz que o colegiado apura ainda o envolvimento de Frei Chico, irmão do presidente

Presidente de uma das principais CPMIs dos últimos anos, o senador Carlos Viana (Podemos-MG) tem como função identificar e elucidar o esquema bilionário de fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em entrevista exclusiva a Oeste, o parlamentar afirma que as investigações do colegiado já revelaram um esquema de desvio de recursos da Previdência sustentado por acordos de cooperação técnica e sistemas paralelos de dados e biometria.

Segundo Viana, parte do dinheiro foi lavada por meio de empresas de fachada e offshores, em um modelo “muito bem articulado”, que teria contado com ajuda de servidores públicos e apoio de associações e sindicatos. O presidente da CPMI do INSS afirma que o caso ultrapassa falhas administrativas e aponta para interferência política direta.

Na entrevista, o senador denuncia a tentativa de blindagem de sindicatos e associações ligadas a partidos políticos de esquerda, critica a atuação da Advocacia-Geral da União (AGU) e promete avançar nas quebras de sigilo e novas convocações: “O mérito da CPMI será mostrar à população as entranhas dessa corrupção.”

“Boa parte do dinheiro ficou em empresas familiares.”

Senador Carlos Viana denuncia lavagem de dinheiro com apoio de sindicatos e promete expor corrupção no INSS na CPMI | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A CPMI já conseguiu identificar para onde foram as propinas e se há comprovação de que esses valores chegaram a servidores ou gestores dentro do INSS?

Boa parte do dinheiro ficou em empresas familiares, e outra parte foi enviada para o exterior, em offshores. Esses valores saíram por meio de empresas fantasmas e prestadoras de serviço. A partir daí, o dinheiro tomou rumos que estamos rastreando nas quebras de sigilo. São muitas empresas envolvidas. Quem montou o organograma de desvio trabalhou muito bem — criou vários núcleos de prestação de serviços, não apenas um. Tudo aponta para Antônio Carlos Antunes Camilo, o “Careca do INSS”, que estruturou o esquema, ofereceu-o às associações e, orientado por advogados, criou novas empresas.

O senhor acredita que o cruzamento de dados previdenciários foi deliberadamente terceirizado por esses grupos para a realização das fraudes?

Tenho certeza disso. Os Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) foram usados com pareceres jurídicos favoráveis e com corrupção de servidores públicos para facilitar o desvio e o pagamento de propinas. É um esquema que vem desde o governo Temer. No governo Lula, o esquema se “bilionizou”, porque sindicatos e associações ligados à esquerda ganharam mais poder. Sob Bolsonaro, houve afrouxamento dos controles, mas agora o esquema se ampliou de forma alarmante.

Segundo o governo paulista, Lula usa tragédia para oportunismo político | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Carlos Viana acusa governos de Temer e Lula de fortalecerem esquema de corrupção nos ACTs, com favorecimento de sindicatos ligados à esquerda | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O senhor já falou em “omissão grave” na fraude do INSS. Houve negligência ou conivência dentro da alta cúpula do instituto?

Todos os mecanismos de controle e fiscalização falharam. A questão é saber se foi por burocracia jurídica ou interferência política. Essa dúvida ajuda a explicar, inclusive, a postura da AGU ao defender os descontos. Se forem considerados legais, toda a cadeia de fiscalização — AGU, DPU, TCU e CGU — fica isenta de responsabilidade.

Qual possibilidade o senhor considera mais provável: falha técnica ou influência política para manter os descontos ilegais?

Interferência política. A CGU tinha relatórios detalhados com milhares de queixas de aposentados. Houve pressão de sindicatos e associações de esquerda, e o governo permitiu isso por causa do envolvimento desses grupos. Agora tenta blindá-los.

O ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, nega responsabilidade. A partir disso, a investigação pode recair sobre o ex-ministro Carlos Lupi?

Pode. Lupi chamou para si as nomeações do INSS. Se o fez, pode ter vindo dele a ordem. Mas o Stefanutto tinha autoridade para impedir e não o fez. Hoje é evidente: os mecanismos de controle falharam. Não se sabe se por burocracia ou por interferência política — precisamos de respostas. O mais grave é essa ação da AGU no Supremo, defendendo a legalidade dos descontos. Isso cria uma narrativa jurídica para isentar o governo. Se o STF aceitar, o ônus da prova será invertido: o aposentado terá de provar que não pediu o desconto. Estamos diante de um esquema de blindagem para proteger sindicatos e associações ligadas a partidos políticos.

Os ministros do STF, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, Luiz Inácio Lula da Silva e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, durante a solenidade comemorativa ao Dia do Soldado, em 2024, Brasília | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Carlos Viana denuncia falha nos mecanismos de controle e critica a ação da AGU no STF para blindar sindicatos e associações ligadas à política | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Há chances de que o STF aceite o pedido da AGU?

Espero que não. Mas, se minhas suspeitas estiverem certas — de que há um esquema de blindagem para defender a base sindical da esquerda —, é bem provável que o Supremo dê uma decisão favorável.

O depoimento de Frei Chico pode ajudar a esclarecer se houve interferência política do entorno do governo Lula na atuação do Sindnapi e nas irregularidades apontadas pela CPMI?

Ainda é cedo para afirmar que o senhor José Ferreira da Silva tem ligação política — não há provas. Mas houve, sim, interferência. Alguém atuou politicamente para que o Sindnapi mantivesse vantagens, mesmo diante do relatório da CGU. Desde 2023, havia milhares de reclamações, e a CGU investigou várias associações — menos a Contag e o Sindnapi.

Frei Chico, irmão de Lula | Foto: Reprodução redes sociais
Carlos Viana aponta interferência política em favorecimento do Sindnapi, apesar de investigações da CGU não atingirem as principais associações | Foto: Reprodução

Por que o governo teme essa oitiva?

Porque o tema ganhou força neste governo e atinge diretamente a base da esquerda — sindicatos e associações ligadas a partidos. É um assunto explosivo, que envolve milhões de aposentados. Essa indignação pode chegar às urnas, e o governo tenta blindar nomes próximos da base.

Como o senhor avalia as liberações de habeas corpus para depoentes e a interferência do Judiciário?

Vejo, no mínimo, com estranheza. O próprio Supremo reconheceu a independência da CPMI, mas concede habeas corpus que impedem nosso trabalho. Vivemos um limbo jurídico: somos independentes, mas não temos ligação direta com a Polícia Federal. Para nós, as pessoas são testemunhas; para o Judiciário, investigadas.

“Quero mostrar as entranhas dessa corrupção.”

Qual legado o senhor quer deixar como presidente da CPMI do INSS?

Quero que a população saiba o que aconteceu. Não posso condenar ninguém, mas quero mostrar as entranhas dessa corrupção. O mérito da CPMI será resgatar a confiança de que uma investigação pode dar resultado e esclarecer o País. Que as próximas gerações não passem pelo escândalo que nos envergonha hoje.

Carlos Viana promete expor a corrupção no INSS e restaurar a confiança nas investigações, para que futuras gerações não enfrentem o mesmo escândalo | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Leia também “Roubo permitido”

Leia mais sobre:

4 comentários
  1. Paulo César da Conceição
    Paulo César da Conceição

    Dizer que o irmão ladrão do larápio não está por trás deste roubo, é pura inocência.

  2. José Luís da Silva Bastos
    José Luís da Silva Bastos

    Em 2026 vamos mandar para a vida privada estes políticos sem serventia que blindaram o frei Chico que irmão do maior corrupto que o país já teve.

    1. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
      JOÃO RICARDO ASTOLPHI

      Desculpe pelo seu otimismo: mas vc acredita MESMO nisso?? Com um povo indolente, mal educado na literalidade, passivo e propositalmente desinformado; acha que irão acordar no ano que vem?? Enquanto houver miséria, vale gás, vale energia e bolsas famílias da vida sustentando quase 25% da população, não vejo com qualquer otimismo que algo HONESTO possa acontecer no ano que vem… Desculpe a sinceridade. mas vendo tudo o que está acontecendo, dificil ser otimista…

    2. Julio José Pinto Eira Velha
      Julio José Pinto Eira Velha

      João Ricardo, você esta coberto de razão, com esse govero comprando tudo que pode, e pior, com o nosso dinheiro, o Brasil será eternamente o país do futuro.

Anterior:
Roubo permitido
Próximo:
Congresso de baixo nível
publicidade