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Reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS para ouvir o ex-presidente do Instituto Alessandro Antonio Stefanutto, que aparece discutindo com o relator da CPMI, Alfredo Gaspar com dedo em riste | Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Edição 292

Roubo permitido

Documentos da CPMI mostram que o PT derrubou barreiras que o governo Bolsonaro ergueu para impedir fraudes no INSS

Durante uma visita à Rússia, há poucos meses, o presidente Lula culpou o antecessor Jair Bolsonaro pela roubalheira dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) tiveram um processo de investigação criterioso, com muita inteligência, sem nenhum alarde”, declarou o petista, em uma coletiva de imprensa. “Eles conseguiram desmontar uma quadrilha que estava montada desde 2019 para pegar o dinheiro dos outros. Vocês sabem quem governava o Brasil naquele ano.”

A narrativa, contudo, não resiste aos fatos. Isso porque documentos da CPMI do INSS revelam que foi justamente no governo Bolsonaro que o problema começou a ser enfrentado de maneira sistemática. A partir de 2019, o INSS passou a adotar regras e rotinas de verificação, depois que o governo identificou fragilidades que permitiam descontos sem autorização e dificultavam a fiscalização das entidades. Foi o início de uma política inédita de combate às fraudes, que se consolidaria posteriormente — pelo menos até 2023.

Barreiras de contenção e CPMI do INSS

Conforme relatórios obtidos pela CPMI, o conjunto de medidas editadas a partir de 2019 representou uma virada de postura no INSS. Até então, os descontos em folha funcionavam como um território sem vigilância: entidades com convênios ativos — entre elas, sindicatos — podiam lançar cobranças diretamente na aposentadoria do segurado, sem que ninguém verificasse se o desconto havia sido realmente autorizado por aquela pessoa. Imagine um aposentado que nunca se filiou a entidade alguma. Um dia, ele percebe um desconto mensal de R$ 45 em seu benefício, identificado apenas como “contribuição associativa”. Ao tentar cancelar, descobre que seu nome consta como filiado a uma associação sediada em outro Estado. Antes de 2019, casos assim eram comuns com idosos — as entidades simplesmente registravam os descontos no sistema do INSS, sem precisar comprovar a autorização do beneficiário.

O governo Bolsonaro estabeleceu um novo padrão de controle, que combinava tecnologia, auditoria e rastreabilidade das operações. A primeira iniciativa de contenção foi a Medida Provisória nº 871, de 2019, depois transformada em lei. Ela determinou que toda cobrança deveria ser autorizada pelo beneficiário, por escrito ou por meio eletrônico. Na prática, casos como o daquele aposentado que descobria um desconto sem saber a origem passaram a ter uma resposta concreta do Estado: as entidades foram obrigadas a apresentar prova de autorização antes de incluir valores na folha de pagamento.

A MP também abriu espaço para o uso da biometria — ou seja, a identificação pela impressão digital ou pelo reconhecimento facial — como forma de validar as autorizações. A ideia era simples: só quem realmente confirmasse sua identidade poderia permitir descontos. Assim, se uma associação tentasse registrar a cobrança em nome de alguém, o sistema barraria o lançamento por falta de prova digital. Antes disso, bastava preencher uma ficha genérica e inserir o CPF do aposentado para que o valor começasse a ser descontado. A nova exigência de autenticação individual eliminava o pretexto das chamadas “filiações automáticas”, usadas por entidades para justificar as silenciosas cobranças em massa feitas aos seus filiados.

Ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

No ano seguinte, Bolsonaro editou o Decreto nº 10.410/2020 para complementar a MP, no qual detalhou as novas regras. A iniciativa criou um bloqueio automático de cobranças. Isso significa que, ao receber o benefício, o segurado teria a opção de impedir de imediato qualquer desconto, e a liberação só poderia ser feita por ele próprio, mediante solicitação formal. O texto também instituiu a revalidação periódica, uma checagem obrigatória para confirmar se o desconto ainda era válido, e permitiu ao INSS cancelar, automaticamente, convênios com entidades envolvidas em incontáveis reclamações ou irregularidades.

No fim de 2020, Bolsonaro colocou mais uma trava: a Instrução Normativa nº 110. Ela obrigou o INSS a verificar todos os documentos antes de autorizar descontos e proibiu pagamentos antecipados, sem conferência prévia. O objetivo era impedir que uma associação fosse paga antes de o sistema confirmar que o segurado realmente havia autorizado a cobrança. Com esse pacote de medidas, o INSS passou a cruzar informações entre bancos de dados e a conferir, uma a uma, as autorizações de desconto. Foi a primeira vez que a autarquia adotou um sistema de fiscalização contínua, com checagem documental e validação tecnológica. O resultado apareceu rápido: em poucos meses, quatro convênios foram suspensos, e o volume de descontos caiu 40% em relação ao ano anterior.

Retorno da fraude

O arcabouço criado por Bolsonaro conseguiu conter as irregularidades em seu governo, mas não por completo. Parte da explicação está na própria MP que ele editou. Ao ser negociada a sua aprovação no Congresso, a medida recebeu alterações que acabaram afrouxando parte dos controles. Um dos pontos mais sensíveis foi a ampliação do prazo de revalidação das autorizações — ou seja, do período em que o aposentado precisava confirmar se ainda permitia o desconto mensal em seu benefício. A proposta inicial previa revisão anual, mas uma emenda apresentada pelo então deputado Wolney Queiroz (PDT-PE) — hoje ministro da Previdência e secretário-executivo de Carlos Lupi nos primeiros anos da gestão Lula 3 — estendeu o período para três anos, atendendo à pressão de centrais sindicais. A mudança deu sobrevida a convênios antigos, que continuaram operando mesmo sem atualização das autorizações dos beneficiários.

Apesar dessas brechas, os relatórios da CPMI mostram que o sistema permaneceu relativamente controlado até 2022. O número de aposentados com desconto em folha se manteve estável, e o volume de valores retidos girava em torno de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão por ano. A virada veio em 2023, quando Lula retornou ao Palácio do Planalto, e a nova gestão da Previdência (sob Lupi) começou a rever os mecanismos de fiscalização. Os dossiês obtidos pela comissão indicam que, ainda no primeiro semestre de Lula no poder, entidades que haviam sido bloqueadas pediram o desbloqueio em lote de suas bases de filiados. A solicitação foi rejeitada pela área técnica da autarquia, mas acabou autorizada meses depois, após mudanças no comando jurídico do INSS em virtude da pressão interna feita por Lupi.

O pedido de desbloqueio partiu da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a principal organização na mira da CPMI, e foi inicialmente negado pela Procuradoria do INSS, sob parecer do procurador Bruno Bisinoto. A negativa citava risco de fraude e ausência de autorizações individuais dos beneficiários. Poucos meses depois, contudo, a decisão foi revista, já com Virgílio Oliveira no comando da área jurídica — nome indicado por Lupi e chancelado por Jorge Messias, advogado-geral da União. De acordo com os dossiês analisados pela comissão, o desbloqueio em lote ocorreu “em atendimento a demandas de centrais sindicais”, após muitas reuniões com “técnicos” do Ministério da Previdência.

Desde outubro de 2024, governo Lula esconde os assuntos que levou para a população avaliar por meio de pesquisas | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2024, a situação se agravou com a Instrução Normativa nº 162, que removeu travas colocadas por Bolsonaro. A norma eliminou a exigência de conferência documental, suspendeu a revalidação periódica e criou uma margem de tolerância: entidades com até 5% de reclamações deixaram de ser punidas. Na prática, o INSS perdeu capacidade de reação. O efeito foi imediato. O total de aposentados com desconto em folha saltou de 3,5 milhões em 2022 para 7,49 milhões em 2024. O volume de descontos cresceu mais de 300%, chegando a R$ 3,3 bilhões em apenas dois anos. Ao mesmo tempo, as solicitações de beneficiários que descobriram descontos indevidos ultrapassaram 1,5 milhão. O quadro ficou insustentável até para a base do governo Lula, que se viu emparedada diante da criação de uma comissão — até o último momento, parlamentares de esquerda se opuseram.

A CPMI associa os números ao relaxamento das normas e à substituição de critérios técnicos por decisões políticas. Em meio ao volume cada vez maior de dados, os parlamentares da oposição ainda descobriram pareceres contrários da Dataprev e da Procuradoria do INSS a decisões do governo Lula. Segundo os documentos, os ministros do petista ignoraram sumariamente as recomendações dos órgãos técnicos. Por isso, entidades próximas a centrais sindicais voltaram a operar sem a exigência de autenticação biométrica. “Com o fim do imposto sindical, em 2017, esse pessoal ficou com abstinência de roubar”, disse um senador da CPMI. “Como não podiam mais sugar dos trabalhadores, avançaram sobre os mais vulneráveis. O que fizeram é uma covardia.”

Recentemente, em novo pronunciamento, Lula voltou a citar o escândalo do INSS. Disse que sua gestão está “desmontando uma quadrilha”. O presidente só não explicou que as barreiras contra a roubalheira foram desmontadas antes — e por seu próprio governo.

Leia também “A CPMI que promete expor o rombo bilionário do INSS”

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14 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    O retorno do PT ao Poder Executivo jamais renderia alguma situação satisfatória para a nação e a população.
    A quadrilha assumiu o controle e estão blindados pelo descondenado ou com habeas corpus preventivo do STF para não se pronunciarem na CPMI.
    Parafraseando Boris Casoy, isto é uma vergonha.

  2. Josuel Rodrigues da Silva
    Josuel Rodrigues da Silva

    Interessante ! Ao passo que é humilhante ! Para a sociedade, brasileira contribuinte! Ver como pode ser tão baixa a dignidade de alguns , servidores públicos , inclusive políticos.

  3. Gilson Herz
    Gilson Herz

    Esses canalhas merecem a morte. Começando com o nove dedos.

  4. James Cesar M A Souto
    James Cesar M A Souto

    Escandaloso, imoral e cruel. Essa reportagem é um documento precioso que só a Oeste seria capaz de produzir. Tenho orgulho de ser assinante!

    1. Teresa Guzzo
      Teresa Guzzo

      Parabéns Cristyan Costa, artigo esclarecedor sobre mais uma corrupção desse governo. Expor os fatos como eles realmente faz toda diferença para o leitor da Oeste.

  5. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Todo mundo sabe que Lula é o chefe de todos os ladrões do INSS. Lula é um terrorista. Passou o tempo todo roubando com empresários e o ministro do seu governo que cuidava da transposição, foram 15 anos. Quando Bolsonaro entrou concluiu. Quando ele entrou na fraude cometeu o ato terrorista de dinamitar os canais da transposição. Tem que botar todos num avião de carga e jogar na dorsal do atlântico

  6. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
    JOÃO RICARDO ASTOLPHI

    Impressionante como e sempre, contra fatos não há argumentos! São tão descarados que outro dia, aquela senadora capacho do Rocambole do Inferno, comemorou que um convocado (supostamente ladrao como eles!) não fosse intimado a depor! A justiça pra bandidos aliados do desgoverno, simplesmente não existe! E ainda contam com as benesses do minúsculo stf! Nunca seremos um país sério! O pouco de esperança que tínhamos nesse sentido, morreu em 30/10/22…

  7. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Uma reportagem que tem a sua marca: detalhada, criteriosa. Mais uma vez, aceite meus cumprimentos pelo seu talento.
    Crime hediondo este. Mais um.

    1. Cristyan Costa

      Sempre uma honra ler os seus comentários, Luzia. Abraços

  8. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    A extrema imprensa a mando e soldo do Governo Lula faz malabarismos, contorcionismos verbais para esconder o ROUBO DESCARADO a aposentados, pensionistas e BPCs do INSS, mas a VERDADE e os FATOS são persistentes, teimosos, até insurgentes contra quem tenta BLINDAR os gatunos e falsários, em muitos casos, com a CONIVÊNCIA da alta casta do Judiciário. Por mais que tentem, não vão conseguir acobertar essa desgraça moral e humanitária. Quem ROUBA deve ir para a cadeia e não se esconder na proteção da imprensa estatizada, em Habeas Corpus, manobras regimentais, ou até coagindo quem tenta esclarecer o BILIONÁRIO roubo. Essa patota criminosa será ” lembrada ” por Sua Excelência, o ELEITOR logo mais em 2026. Que o Eleitor e a História sejam impiedosos com os canalhas de terno e toga.
    DEPUTADOS(AS) E SENADORES(AS) QUE VOTARAM PELA NÃO CONVOCAÇÃO DO FREI CHICO, IRMÃO DO LULA, PARA ESCLARECER O ROUBO A APOSENTADOS, PENSIONISTAS E BPCs DO INSS NÃO MERECEM O RESPEITO E O VOTO DOS BRASILEIROS CANSADOS DE TANTA ROUBALHEIRA.
    Que nas Eleições de 2026, Sua Excelência o Eleitor lembre de quem BLINDOU a convocação do Frei Chico, irmão do LULA, para que o delinquente não atendesse à CONVOCAÇÃO da CPMI do roubo a aposentados, pensionistas e BPCs do INSS, que também chegou no notório José Dirceu, CORRUPTO contumaz protegido pela VELHA IMPRENSA ESTATIZADA. Que nas Eleições de 2026. Todos sejam SUMARIAMENTE DEMITIDOS por apoiarem essa desumanidade. Senadora Soraya Thronicke (Pode-MS), Senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), Senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), Senador Humberto Costa (PT-PE), Senador José Lacerda (PSD-MT), Senadora Eliziane Gama (PSD-MA), Senador Rogério Carvalho (PT-SE), Senador Paulo Paim (PT-RS), Senadora Leila Barros (PDT-DF), Senador Beto Faro (PT-PA), Deputado Átila Lira (PP-PI), Deputado Cleber Verde (MDB-MA), Deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) Deputado Ricardo Ayres (Rep-TO), Deputado Alencar Santana (PT-SP), Deputado Dagoberto Nogueira (PSDB-MS), Deputado Paulo MONTANHA Pimenta (PT-RS), Deputado Rogério Correia (PT-MG), Deputado Dorinaldo Malafaia (PDT-AP).
    DEPUTADOS(AS) E SENADORES(AS) QUE FORAM FAVORÁVEIS À CONVOCAÇÃO DO FREI CHICO PARA ESCLARECER O ROUBO NO INSS E MERECEM COM LOUVOR O VOTO DOS BRASILEIROS CANSADOS DE TANTA ROUBALHEIRA
    Senador Jorge Seif (PL-SC), Senador Izalci Lucas (PL-DF), Senador Eduardo Girão (Novo-MG), Senadora Damares Alves (Rep-DF), Senador Rogério Marinho (PL-RN), Deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), Deputada Coronel Fernanda (PL-MT), Deputada Adriana Ventura (Novo-SP), Deputado Alfredo Gaspar (União-AL), Deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), Deputado José Medeiros (PL-MT).

  9. Isa Maria Borba
    Isa Maria Borba

    Excelente revelação que todo cidadão brasileiro deveria ter conhecimento.
    A roubalheira continua e e.sse STF encobre os ladrões de velhinhos

  10. Stella Maris Falcão Marques Pereira
    Stella Maris Falcão Marques Pereira

    Excelente artigo do Cristyan! A verdade da roubalheira do 3º gov Petista! Véi como sempre pra roubar! Lula Voltar pra cadeia é fazer a justiça!

  11. Daniel BG
    Daniel BG

    Essa m3rda de PF pode melhor ser chamada de PdoL, dispensando explicações posteriores.

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