publicidade
Ministro Alexandre de Moraes, relator, nos Julgamentos da Ação Penal 2668 - Núcleo 1, em Brasília, DF (2/9/2025) | Foto: Rosinei Coutinho/STF
Edição 286

Mentira vestida de verdade

Agora, o julgamento, mais público que os anteriores, está expondo a verdade nua, que a mídia domesticada não quer ver, ouvir e publicar

O dever legal da Polícia Judiciária é buscar a verdade numa investigação; o dever legal do Ministério Público é buscar a verdade para fazer a denúncia. O dever legal e ético da Justiça é buscar a verdade entre as provas da acusação e da defesa para poder julgar. Não pode haver dúvida. Se houver, o Direito tem o lapidar in dubio pro reo. Se restar dúvida no processo, ou ele é arquivado, ou o réu é absolvido por falta de provas. A Polícia, em dúvida, sugere arquivamento ao Ministério Público, ou este, sem a convicção da prova, avisa ao Juiz que não há elementos fáticos, materiais, para denunciar. Esse é o caminho do devido processo legal. 

A parábola A Verdade e a Mentira conta que a Mentira sugeriu à Verdade que as duas entrassem num poço para se refrescar. A Verdade se despiu e entrou na água; a Mentira se aproveitou e furtou as roupas da Verdade. Vestida de Verdade, foi mais fácil enganar as pessoas. A Verdade ainda tentou se apresentar como a verdadeira, mas ninguém quis ouvir a Verdade nua. A Mentira vestida de Verdade ensina a fazer narrativas em Brasília. 

Capa da Revista Oeste, edição 285 | Ilustração: Shutterstock

Fica difícil argumentar com quem segue uma ideologia em que os fatos devem se adaptar à sua fé. Já não é possível derrubar a mentira com a verdade, usando a lógica, o raciocínio, a realidade. Antes mesmo do debate, já foi estabelecido o alvo, o objetivo, o gol. Já se tem o resultado final do jogo. Apenas é preciso impor o resultado. Para certas pessoas, já não há verdade ou mentira; elas estão ideologicamente acima disso. Assim é, se assim queremos que seja — e pronto. Não há princípios, mas objetivos políticos. O presidente do Supremo tem ensinado que já não existe uma Corte Constitucional como um departamento da Justiça, mas, numa evolução, passou a existir um tribunal político. Ele esquece que já existe esse tribunal político. É o Congresso dos representantes do povo, origem do poder.

Quando alguém deseja mentir, a primeira vítima da mentira é o próprio autor. Para inventar a narrativa, ele precisa enganar-se, contrariando os fatos, invertendo a realidade. Depois, veste-se de verdade e mente convincentemente. O mitômano fica escravo das mentiras que conta e acaba vivendo enganado por si próprio, viciado na mentira, num mundo ilusório. Alguns ficam convencidos de que estão salvando a democracia, mas no dia em que falta combustível para a FAB transportá-los, ficam chocados com o mundo real de xingamentos no avião. Ou mal arriscam ir ao clube próximo, ou fazem gracinha de porta-aviões no Lago Paranoá, até que baixa do norte um míssil Magnitsky. 

Foto: Shutterstock

Mais de mil famílias de manifestantes do 8 de janeiro sofrem com a narrativa do golpe de Estado fantasiada de verdade. Todos percebem que foi manifestação emocional não planejada — à exceção, talvez, daqueles precursores que puderam entrar no Palácio do Planalto sem resistência, para quebrar. E agora, o julgamento, mais público que os anteriores, está expondo a verdade nua, que a mídia domesticada não quer ver, ouvir e publicar. Um dos advogados perguntou sobre os princípios do juiz natural, da prova material indubitável. Era a verdade nua querendo se revelar. No final do julgamento, tudo indica que a verdade nua vai voltar para o poço. Ela vai descobrir, horrorizada, que no Brasil o poço não tem fundo. Vai acabar no inferno. Como uma Venezuela, a menos que o Congresso e as chamadas elites econômicas caiam na realidade.   

Vivemos no Brasil que um dia Stefan Zweig, refugiado do Holocausto, chamou de “País do Futuro”. Pois hoje esse país nega o Holocausto, retirando-se do grupo que mantém a memória da tragédia para que ela não se repita. Ao contrário, o governo deste país apoia o Hamas, que segue o mesmo objetivo dos nazistas, para a “solução final do problema judeu”. Nesta República, o presidente costuma dizer que aprendeu com sua mãe que “A verdade engatinha e a mentira voa”. Se assim é, a verdade deixa pegadas no chão; a mentira, que voa como nuvem escura, apenas tapa o sol temporariamente. Carregada pelo vento da verdade, do tempo, das liberdades, da democracia, da lei, a mentira desaparece, vexada, e o sol da verdade volta a projetar a luz. Quem prefere a verdade, tem que denunciar a fantasia da mentira e tirar a bela verdade do fundo do poço.

Julgamentos da Ação Penal 2668 – Núcleo 1, em Brasília, DF (2/9/2025) | Foto: Gustavo Moreno/STF

Leia também “Lula e seus Blue Caps”

Leia mais sobre:

20 comentários
  1. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    Interessante, caro Alexandre Garcia. Ao chegar ao final da leitura do seu artigo lembrei-me, repentinamente, do filme “Matrix”.

  2. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Alexandre sou filha do Gen Mario Fernandes. Editamos o livro escrito por ele – Xavantes na Itália- crônicas escritas durante a II Guerra e só publicadas em 2011. Se quiseres que nos te mandemos um exemplar, manda o teu endereço . Msrylu no X e meu nome inteiro no Face. Abraço

  3. MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO
    MARIA DE LOURDES FERNANDES CAUDURO

    Julgamento vergonhoso, ou melhor farsa que não pode ser chamada de julgamento que o povo brasileiro assistiu perplexo na semana q passou. Não que não soubéssemos qual seria o resultado, mas pelos participes- que não ouso chamar de juízes porque s maioria não é não é, mas pela falta de vergonha de ignorarem as provas de fraudes revelados na semana anterior pelo ex assessor do relator. Caras de pau! Muito nojento tudo! A população entendeu o que aconteceu na farsa. E está revoltada, comentando! Que Deus nos proteja de tanto mal, tanto ódio dessa gente de mau caráter .

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Mestre Alexandre Garcia, que prazer ler seu artigo. O melhor da semana para mim.Disse com maestria como nossa mais alta da justiça se comporta e como nosso atual presidente baseia -se sempre em narrativas enganosas que lhe interessam para manter-se no poder.Mas a verdade como disse deixa pegadas profundas,não serão apagadas de nossa história Assisti as manifestações do dia sete de setembro, verdade está nas ruas do Brasil, vi o rei nu’ em um carro oficial desfilando apenas para seus órgãos comandados.A verdade sempre aparece.

    1. Teresa Guzzo
      Teresa Guzzo

      Errata:”como nossa mais alta corte de justiça se comporta “.

  5. Manoel Francisco M. Benvenuti
    Manoel Francisco M. Benvenuti

    Manoel Francisco Benvenuti.
    Maravilhoso artigo, brilhante Alexandre Garcia.
    Parabéns

  6. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Não há mais meritocracia. O Brasil virou um país comandado por medíocres invejosos, que não satisfeitos “apenas” com o poder, necessitam destruir os alvos de suas invejas

    1. Neila Falcone Bomfim
      Neila Falcone Bomfim

      Revista OESTE- o melhor presente que recebi em 2025! Artigos impecáveis que reproduzem o que penso!

  7. José Mauro de Souza Guimarães
    José Mauro de Souza Guimarães

    O Brasil hoje sofre da falta de vergonha na cara de grande parte da mídia, em acobertar a verdade, e torcer pela desgraça do pais, e também da falta de vergonha na cara de grande parte do judiciário. O final desse filme todos já sabem. E ficam ainda esperando que o anjo justiceiro que virá dos EUA para salvar a nação. Essa salvação depende só e unicamente de nós brasileiros.

  8. Antonio Aparecido Rinaldi
    Antonio Aparecido Rinaldi

    Jamais imaginei ver, um pais todo sendo governado por um psicopata, o qual quer nos induzir a viver a sua própria psicopatia, nossa grande nação vive dias de ditadura da toga e a maioria das mídias, sendo bancada com dinheiro público para não se levantar, com esse cidadão que pensa que é um juiz com atitudes medíocres!

  9. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    CBrilhante artigo Alexandre Garcia.
    O Brasil está mostrando ao mundo os horrores do que essa elite é capaz de fazer com o discurso de “defender a democracia”.
    Todas as ditaduras espalhadas ao redor do mundo adotam o termo democracia ou democrática. República Popular da China, República Democrática do Congo, República Democrática Alemã (RDA), também conhecida como Alemanha Oriental até a queda do muro de Berlin, República Popular Democrática da Coreia Norte, todos os países do Oriente Médio a exceção de Israel, etc.
    Em quase 136 anos de República fomos continuamente enganados por um sistema de rotação no poder sem qualquer preocupação com o povo que é a origem do poder nas democracias. Sete Constituições não foram suficientes para entregar ao país um legado capaz de colocá-lo no patamar que merece e que reúna todas as condições necessárias para conhecermos o crescimento e o desenvolvimento econômico e social.
    A Internet e as redes sociais retiraram a verdade mesmo nua do fundo do poço, que hoje essa mesma elite luta para silenciá-la e manter o povo na escuridão. Mas como dizia minha mãe “a mentira tem pernas curtas”.

  10. Carlos Sergio Souza Rose
    Carlos Sergio Souza Rose

    Como sempre, artigo impecável e incontestável. Parabéns Alexandre Garcia.

  11. Sergio Mendes Casro
    Sergio Mendes Casro

    Brilhante Alexandre Garcia , elegante , cirúrgico , demolidor . Nunca decepciona.

  12. José Antônio Melo Silva
    José Antônio Melo Silva

    Mais um texto brilhante do Alexandre Garcia!
    Tomara que a verdade saia do poço e encontre logo suas maltratadas roupas e que ao vesti-las elas possam novamente brilhar e iluminar nosso caminho!

  13. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    Já estamos no mês farroupilha.
    Certa vez, comentei por aqui que a nossa conterrânea Rosa Weber deveria ser processada em não proteger o patrimônio público. No caso, o prédio do STF. Ela e outros com cargos importantes no Planalto sabiam da movimentação de pessoas chegando em Brasília. Em vez de reforçar a segurança, fez o contrário, autorizou grande parte dos seguranças para casa, já que estava ainda em recesso. Se ela fosse competente, sabendo do movimento, aumentaria a segurança, pois sempre entendeu que o pessoal do Bolsonaro era de extrema-direita, perigosa e cheia de táticas revolucionárias…
    Enfim, o Trump fez a parte dele, mas ninguém consegue tirar o Moraes de seu trono enlameado e um dos criminosos mais vistos em todo o planeta.

    1. Oswaldo Silva
      Oswaldo Silva

      Lamentavelmente quem teria condição de fazê-lo, o senhor Tarcísio Iscariotes por governar o maior estado da nação e contar com apoio da maior potência do mundo prefere unir-se aos togados.

    2. Osmar Martins Silvestre
      Osmar Martins Silvestre

      Quanto ao “extremismo” da direita e suas “táticas revolucionárias”, cabe lembrar da barrigada na faca. Nada mais revolucionário que uma coisa dessas. A esquerda boazinha, que me parece ser a sua praia, nunca teria bolado uma coisa tão revolucionária.

  14. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Com um pouquinho de bom senso o brasileiro, quando diversifica suas fontes de informações, entende que o atual julgamento é um teatro de marionetes. É algo que não pode ser levado a sério. Tem togados que perderam a credibilidade e não tem mais moral para estarem ali. Nossa resposta é, povo nas ruas dia 7 de setembro. Democracia é a voz do povo e não a força das togas. Está escrito lá no 1º artigo da Constituição, parágrafo único: “Todo o poder emana do povo…”.

Anterior:
Os americanos de olho na Inquisição Brasileira
Próximo:
STF: kkkk… rsrsrsrs…?
publicidade