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Edição 276

Duplipensar

Estamos perdendo a preciosa utilidade da crítica, do contraponto, que nos ajuda a corrigir nossos erros e a conhecer mais o adversário

As pessoas públicas têm seus modos de expressar suas ideias, em geral precedidas de uma argumentação destinada a fazê-las prevalecer sem despertar resistência do cidadão, que assim vai aceitando o poder do Estado em prejuízo de seus direitos e liberdades. É o caminho do domínio. Lembrei disso quando ouvi, mais uma vez, da ministra Cármen Lúcia, uma defesa da liberdade de expressão antes que ela votasse a favor da censura. Ela primeiro criou uma expectativa de liberdade de expressão quando assumiu a presidência do Supremo, com a proclamação com ares olímpicos: “Cala a boca já morreu!”. Quatro anos depois, discorreu sobre a abominação que é a censura, e em seguida ressalvou que iria votar pela censura prévia de um documentário da Brasil Paralelo de maneira “excepcionalíssima”.

Mas nem o superlativo absoluto foi respeitado; muito menos a proclamação do óbito do cala a boca. Eis que a ministra acaba de votar de novo pela censura que ela abomina. Desta vez a argumentação foi a de que “a grande dificuldade está aí: censura é proibida constitucionalmente, eticamente, moralmente, e eu diria até espiritualmente. Mas também não se pode permitir que estejamos numa ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos”. Defendo o pleno direito da ministra de expressar sua opinião, porque, se eu defendo a liberdade de expressão, não posso defender apenas a minha liberdade, mas também a dos outros, ou eu seria um hipócrita; do contrário, eu estaria afirmando que eu posso falar o que quiser, mas a ministra não pode.

Mas discordo da ministra por uma razão simples: se fôssemos 213 milhões de tiranetes, se fôssemos todos pequenos tiranos, não teríamos sobre quem exercer nossa tirania e seríamos todos iguais em poder, anulando-se mutuamente nossa dominação. Teríamos uma democracia de iguais tiranetes. A imagem que a ministra expôs é irreal, por impraticável. Tão irrazoável quanto votar em uma fórmula que enseja a censura que Cármen Lúcia reconhece ser proibida na Constituição, na ética e até no espírito. Um paradoxo, que ela constatou como “uma grande dificuldade”, revelando mais uma manobra de diversionismo mental. Chamou esse paradoxo de ser contra a censura, mas votar a favor dela usando o eufemismo “grande dificuldade”.

Foi 8 a 3 o resultado da votação que anulou a vontade da maioria do Congresso, que há 11 anos aprovou os artigos 19 e 21 do Marco Civil da Internet. Os três divergentes — André Mendonça (em voto magistral), Nunes Marques e Edson Fachin — convergem: quem redige leis é o Legislativo, o mais poderoso dos Poderes. Os oito vencedores alegam que é preciso impedir mentiras, discursos antidemocráticos, de ódio, de golpismo. Sim, se censurarem as redes, tirando a mentira, o ódio, a crítica, o golpismo, deixarão que sejamos enganados pelo mentiroso, já que ele não exporá antes suas mentiras e, quando nos surpreender, já será tarde, porque estará eleito presidente da República. Ou quando formos massacrados pelo ódio, sem que o sorrateiro discurso de ódio nos despertasse e nos prevenisse. Como vamos nos proteger de um golpista, se não pudermos ter acesso às suas intenções? Como vamos nos distanciar e isolar os pequenos tiranos, se não os identificarmos nas redes? Cidadania não precisa de tutela — tutor é dominador. Deixem que censuremos os mentirosos, não lhes dando leitura nem audiência. Nossa troca de canal, nosso bloqueio, nosso corte de assinatura, de inscrição tirarão do ar, das bancas, das redes os que nos desrespeitarem.

Ironicamente, essa decisão do Supremo não inventa solução rápida para proteger outro direito pétreo, a honra. A pessoa atingida vai ter que esperar ordem judicial para retirar a calúnia, a injúria e a difamação; mas uma crítica, um gracejo, uma ironia, uma sátira estarão sujeitos à retirada imediata, se considerados antidemocráticos, ou misóginos, homofóbicos ou outros modismos. O pior é o rótulo genérico de “antidemocrático”: se o parâmetro for o batom de Débora na estátua da Justiça, pode resultar em 14 anos de prisão. Se for acusação de que um Poder da República não está respeitando o direito pétreo e básico da liberdade de expressão, talvez se aplique o pesado carimbo de “antidemocrático”.

Estamos perdendo a preciosa utilidade da crítica, do contraponto, que nos ajuda a corrigir nossos erros e a conhecer mais o adversário. Por fim, não custa lembrar, já que a ministra se referiu a “213 milhões de pequenos tiranos soberanos”: como seria bom se fôssemos, realmente, 213 milhões de soberanos. Porque, assim, cairíamos numa democracia, regime em que o povo é soberano. Tudo isso foi descrito — e previsto — em 1949, quando Orwell definiu o “duplipensar” no seu magistral e profético 1984. O filósofo Dennys Xavier, no seu Da Palavra ao Medo, desnuda o que parece paradoxal, mas não é; é intencional, para que não rejeitemos a censura e nos acostumemos com a perda da liberdade de expressão. Segundo ele, duplipensar é mais que uma contradição lógica. Não se trata de falha cognitiva. É uma habilidade para treinar as pessoas a aceitar o inaceitável. Redireciona o raciocínio. Saber que é falso, mas aceitar como verdadeiro, para aceitar a autoridade como critério último da verdade. Duplipensar é uma tecnologia do poder.

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11 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Magistral Alexandre, e chegamos a esse estágio por (i)responsabilidade de um único homem, Rodrigo Pacheco que tinha e o atual Presidente do Congresso tem as ferramentas para equilibrar o debate e não ficarmos a mercê de 11 ditadores de toga.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Carmem Lucia é domada por Gilmar Mendes.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Por que não bota logo esse STF no xadrez, é o lugar dele

  4. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Alexandre, não há como você convencer o tradicional jornalismo seu amigo e que o respeita, a liderar manifestações junto ao STF e ao CONGRESSO, como outrora ABI, OAB, RELIGIOSOS e outras entidades berraram pela democracia contra a tal ditadura militar?
    Afinal, estamos precisando implantar o voto impresso para pacificar o pais que você tão bem defende.

  5. Eloisa Moreira Alvesee
    Eloisa Moreira Alvesee

    Alexandre Garcia como sempre brilhante. Mais uma mulher que, ao invés de exercer sua função com honra, altivez e independência, entrega-se ao dominio de um homem. Posteriormente, usam sua cômoda submissão como sendo discriminacão.

  6. Mildon Lopes dos Santos
    Mildon Lopes dos Santos

    Os superministros do STF usam muito essa tática do duplipensar: eles rasgam alguns artigos da constituição e dizem que estão protegendo a sociedade.

  7. Carlos
    Carlos

    Lembre-se de agradecer ao seu amigo, colega, ou familiar, que lá em 2002 (sim, a semente foi plantada lá) votou no Lulinha “paz e amor” porque era “descolado”, “moderno”, e porque o Obama achava ele “o cara”. A fatura chegou, e esses idiotas todos agora fazem cara de paisagem. Malditos sejam.

  8. José Carlos Bolognese
    José Carlos Bolognese

    Olá Alexandre, essa mulher é, como pelo menos outros 9, uma fraude. Infelizmente o “serviço público” no Brasil está cheio de gente que se orgulha de sua oceânica ignorância. Se leem livros, para dizer que o fazem, não são as obras fundamentais e transformadoras que seriam adequadas às posições ocupadas por essas pessoas. Adoram participar de eventos e conferências de temas de seu estrito interesse e onde ficam do lado de fora a controvérsia e os que ousam discordar.

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