O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o arquivamento imediato de uma representação criminal apresentada por Letícia Sallorenzo, citada como “Bruxa” em mensagens reveladas pela série de reportagens Vaza Toga, contra o ex-assessor Eduardo Tagliaferro e os jornalistas David Ágape e Eli Vieira. A decisão foi proferida nesta segunda-feira, 26, e segue parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A representação foi protocolada em outubro de 2025 e atribuía aos três acusados uma série de crimes, como difamação, injúria, perseguição, associação criminosa e tentativa de “abolição violenta do Estado Democrático de Direito”, embora a petição não apresentasse provas diretas de coordenação ou incitação por parte dos denunciados.
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Na ação, Letícia solicitava que os fatos narrados fossem apurados no âmbito das investigações em curso no STF, entre eles o Inquérito das Fake News e o Inquérito dos Atos Antidemocráticos. Segundo a decisão, no entanto, a representação não apresentou elementos suficientes para justificar a abertura ou continuidade de investigação criminal.
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Ao analisar o caso, Moraes afirmou que a instauração de um inquérito exige a presença de indícios mínimos de crime, o que não foi verificado. “Não existindo, portanto, na presente petição, nenhum indício real de fato individualizado e típico praticado pelos requeridos”, escreveu o ministro.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, sustentou que os fatos narrados dizem respeito à esfera privada da noticiante e que eventuais questionamentos poderiam ser tratados “pela via individual, criminal e cível”. A PGR ainda destacou que a ação “não aponta, de maneira objetiva e inequívoca, fatos individualizados que justifiquem a adoção de providências penais”.
Com base nesse entendimento, Moraes concluiu que os fatos relatados não guardam relação direta com os inquéritos citados pela autora da ação. “A fundamentação da presente representação criminal não se vincula ao objeto dos inquéritos”, registrou. Diante disso, o ministro indeferiu os pedidos e determinou o arquivamento imediato da representação.
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Quem é a “bruxa” citada na Vaza Toga
O arquivamento ocorre depois de Letícia ganhar projeção pública em reportagens que investigaram o episódio conhecido como Vaza Toga. Mensagens de WhatsApp obtidas por Ágape e Vieira demonstraram a existência de um monitoramento paralelo de críticos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do STF, conduzido a partir da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação.
Em um dos diálogos, Tagliaferro menciona uma figura identificada apenas como “a bruxa”, ao comentar a insistência em incluir determinadas pessoas em relatórios para bloqueio de perfis. “A bruxa não tem esse bom senso, é totalmente partidária sem pensar nas consequências”, escreveu o ex-assessor, em conversa com o juiz instrutor Airton Vieira.
As reportagens identificaram a “bruxa” como Letícia, jornalista e linguista que se apresenta dessa forma nas redes sociais e, em perfis públicos, declara apoio explícito a Moraes. Em seu currículo Lattes, Letícia informa atuar como “colaboradora informal” do TSE desde 2022, com carga horária semanal de 20 horas.

Segundo fontes ouvidas pelas reportagens, ela teria atuação direta nos bastidores do combate à desinformação, com participação no monitoramento de conteúdos críticos ao ministro e pressão por remoções em plataformas digitais.
De acordo com a apuração, Letícia manteve acesso a eventos restritos do Judiciário e teria colaborado com investigações contra empresários acusados de defender um golpe de Estado em grupos de WhatsApp, caso que resultou em operações da Polícia Federal e no bloqueio de contas e perfis em redes sociais.
Na representação arquivada, Letícia sustentava que reportagens e manifestações públicas contra sua atuação e contra o ministro configurariam ataques às instituições democráticas. A decisão do STF, no entanto, concluiu que não havia elementos suficientes para justificar investigação criminal no âmbito da Corte.
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