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O massacre de cristãos e o silêncio dos Pilatos

'Os números recentes vindos da África são estarrecedores: apenas na Nigéria, estima-se que mais de 7 mil foram massacrados nos primeiros sete meses de 2025'

Cristãos (Destaque)
'Vivemos diante da indiferença de novos Pilatos da comunidade internacional, aquela neutralidade complacente', afirma Pedro Henrique Alves | Foto: Reprodução/Pexels

Nas últimas décadas, a perseguição aos cristãos deixou de ser um capítulo sombrio da Antiguidade ou da Idade Média para se tornar uma tragédia contemporânea. Há uma nova cruzada em curso, e ninguém fala sobre. Mas a fundamental diferença dessa propositalmente ignorada cruzada contemporânea, ao que parece, é que só há guerreiros de um lado, do outro — o cristão — só há mortos e torturados.

Os números recentes vindos da África são estarrecedores: apenas na Nigéria, estima-se que mais de 7 mil cristãos foram massacrados nos primeiros sete meses de 2025, em ataques de jihadistas ou de grupos armados que encontraram na indiferença internacional o terreno fértil para continuar sua obra de extermínio. Na República Democrática do Congo, cem cristãos foram mortos em ataques apenas em setembro. Em Moçambique, mais dezenas, talvez centenas de vidas ceifadas.

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Essa realidade, embora trágica, não mobiliza nem a indignação da opinião pública ocidental, nem a ação das grandes potências ou organismos internacionais. França, Estados Unidos, Reino Unido — antigos baluartes de defesa dos valores ocidentais e dos próprios cristãos — estão focados em outras guerras enquanto massacres a cristãos são perpetrados em boa parte da África.

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O contraste é gritante. Quando conflitos irrompem no Oriente Médio ou na Europa, o noticiário se mobiliza diariamente, parlamentos convocam sessões emergenciais e líderes mundiais competem em declarações pomposas de pesar e solidariedade. A Ucrânia e Gaza se transformaram em manchetes permanentes — e é compreensível o motivo. Contudo, quando se trata do massacre sistemático de cristãos africanos — homens, mulheres e crianças assassinados simplesmente por professarem a fé em Cristo —, o silêncio prevalece, e isso não é nada compreensível.

Para a grande imprensa global, o sangue cristão parece valer menos, novamente aquele caso que tratei há poucas semanas: os cadáveres de cristãos não comovem a patrulha de humanistas franceses, não revolve o âmago dos “progressistas” norte-americanos nem faz vibrar o sino dos jornalistas engajados.

No começo de abril, mais de 60 cristãos foram assassinados e 383 casas foram incendiadas na Nigéria | Foto: Reprodução/International Christian Concern
No começo de abril, mais de 60 cristãos foram assassinados e 383 casas foram incendiadas na Nigéria | Foto: Reprodução/International Christian Concern

Omissão criminosa

Essa omissão não é inocente. Ela reflete uma tendência do establishment internacional de minimizar a perseguição contra cristãos, por receio de “ofender sensibilidades culturais”, por conveniência política ou por um “progressismo” mal disfarçado que enxerga o cristianismo como um resquício de “colonialismo” ocidental, um mal que não faria mal algum se sumisse da África e do resto do Ocidente. A Organização das Nações Unidas e as grandes ONGs humanitárias, tão rápidas em condenar outras formas de violência e cuspir suas narrativas e cartilhas, quase sempre recorrem a eufemismos quando os agressores são grupos islâmicos radicais. O termo “conflito intercomunitário” substitui “perseguição religiosa”, e o martírio é relativizado como mero efeito colateral da pobreza e da instabilidade.

“Há, agora, muito possivelmente neste exato minuto, uma pessoa morrendo por não negar Jesus Cristo”

Para o olhar conservador, esse quadro é revelador: vivemos um tempo em que a defesa de valores cristãos é tratada como incômoda, quando não como vergonhosa. Há, agora, muito possivelmente neste exato minuto, uma pessoa morrendo por não negar Jesus Cristo, e isso é de uma coragem e de um heroísmo que deveria inspirar e envergonhar. A vida de cristãos pobres, em aldeias remotas da África, não rende dividendos políticos, não move interesses econômicos e não desperta simpatia nas elites globais. Por isso, não há campanhas em massa, não há sanções contra os responsáveis, não há comoção organizada. O mundo segue como se nada estivesse acontecendo. O sangue cristão não tem a viscosidade correta para lubrificar as críticas internacionais, e nem o apelo humanista adequado para que ONGs multimilionárias se importem com ele.

Barbárie contra cristãos

O esquecimento é cúmplice da barbárie. A verdade precisa ser dita: hoje, os cristãos constituem a comunidade religiosa mais perseguida do planeta junto aos judeus. Com isso, digo daqueles grupos que são perseguidos somente pelo que professam acreditar. Isso não é “narrativa”, é realidade comprovada por números e sangue. Ignorar essa realidade é repetir os erros de séculos passados, quando o silêncio das nações permitiu que genocídios avançassem impunemente.

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A coerência nunca foi o forte da comunidade internacional, muito menos da esquerda “progressista”. Contudo, se é verdade que as mortes em Gaza são aberrantes, que o massacre de 7 de outubro de 2023 em Israel é uma das páginas sombrias de nosso tempo, por que os milhares de cristãos assassinados na África só merecem o silêncio e a falsa preocupação?

Vivemos diante da indiferença de novos Pilatos da comunidade internacional, aquela neutralidade complacente, que ora finge assombro ante os rastros de sangue no chão, ora desvia o olhar como se não fosse algo que lhe diz respeito. Lavar as mãos, no entanto, não lava a história, e se conheço algo sobre a história, é que tanto os corajosos quanto os covardes são lembrados por suas ações e inações.

É hora de que governos conservadores, lideranças políticas e comunidades de fé ergam a voz para denunciar essa catástrofe ignorada. Pois se a morte de milhares de cristãos não merece manchetes, é a própria dignidade humana que se apequena diante de nós. O sangue dos mártires africanos clama por justiça. O silêncio global, por sua vez, é um escândalo moral que a história não deixará passar impune.

Leia também: “Por que devemos lutar pelo direito de criticar o islã”, artigo de Brendan O’Neill, da Spiked, publicado na Edição 231 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. Luiz fernando Chalet ferreira
    Luiz fernando Chalet ferreira

    Artigo muito pertinente . A África continua ser a periferia do planeta, onde os Direitos Humanos são minimizados , apenas a extração das riquezas materiais e humanas permanece

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