Semana passada encontrei minha avó e minha mãe, ambas fazem aniversário com apenas três dias de diferença, e já se tornou praxe que ambas comemorem no mesmo dia, em uma mesma festa. Assim que cheguei ao local do churrasco — pois minha família tem muitos problemas, mas o veganismo não é um deles —, fui logo encontrar as duas e pedir suas bênçãos enquanto beijava as suas alianças. Desde a mais tenra idade, não me recordo de uma só vez que não tenha feito esse ritual de pedir a bênção e beijar as alianças de meus pais e avós. Há nesse ritual um mecanicismo um tanto quanto irrefletido, afinal, ninguém reflete a todo momento que respira e nem checa suas motivações a cada passo que dá, a vida é feita também de instintos, costumes e tradições. Como dizia Edmund Burke em seu desconhecido livro Defesa da Sociedade Natural: “Até em matérias que estão, como devem estar, ao nosso alcance, que seria do mundo, se a prática de todos os deveres morais, e as fundações da sociedade, somente subsistissem se as suas razões fossem claras e demonstráveis para qualquer indivíduo?”.
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Há algo mais profundo nisso do que a mera repetição de aprendizagem; o respeito incutido nesse ato nos revela uma coisa interessante: a bênção que é concedida é um sinal de autoridade de quem a dá, seja social, seja espiritualmente dizendo. O que abençoa, tal como um pajé de uma tribo ou um padre da paróquia, é um registro de filtro que nos doa às goladas certas porções necessárias de graça e proteção divina. Por isso, diziam meus pais e avós, deve-se sempre pedir a bênção quando se acorda, quando se está para sair, quando se chega de algum lugar e quando se vai dormir. Existe uma soberania patente nesse ato, há uma liturgia de senso comum a ser respeitada, há uma autoridade expressa aqui. Os pais e avós, maculados pela experiência, pelo matrimônio, e pela tradição corrente, os genitores de nosso DNA, aplacadores de nossas necessidades infantis, formas duras de nossas tolices juvenis, eles naturalmente ganharam o direito aos paramentos de canal de Deus a nós, pela simples, porém efetiva, pastoral da tradição sociorreligiosa.
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Mas o que o ritual faz, além de expressar uma certa beleza embolorada de uma tradição antiga que ainda se repete? Ele mostra como os costumes e as tradições familiares podem marcar e convencer mudamente nossa moralidade e convicções.
Os costumes têm a força motriz para moldar nossas ideias e prévias percepções de cosmos para aquilo que foi testado pelo tempo, maturado na experiência humana acumulada; a tradição é um antiquário que pode conter muitas coisas inúteis para os modernos, mas, sem dúvida, pode haver também muitas coisas que valem a pena usar e ter. Até aquelas coisas que são tão antigas e antiquadas — porém verdadeiras e duradouras — costumam se tornar necessárias para tempos de irreflexão quase que completa, de relações humanas que duram menos que uma carga de celular, de ociosidades digitais e de renascimento de ideologias totalizantes, em tempos, aliás, de um progressismo delirante.
A força do senso comum — que se sustenta na esteira dos costumes e das tradições populares e religiosas — está justamente em manter como convicção pessoal os valores que suportam a civilização em suas costas. Os ingleses do século 19 e 20 não viveram a Revolução Gloriosa de 1689 que depôs o déspota James II, mas aquela convicção gestada a partir daquele evento, maturada nas histórias contadas oralmente, na literatura, e nas sempre importantes conversas de bar, criou um éter de senso comum quanto à necessidade de proteger e lutar pela liberdade individual e restringir sempre que possível a força dos reis e poderosos. Foi com esse senso comum e com muita capacidade retórica que Churchill conseguiu trazer consigo milhões de soldados, e alguns políticos sensatos, para lutar contra Hitler e salvar o Ocidente, isso há menos de cem anos.
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Mais importante que qualquer cursinho, universidade e afins, é a mesa da cozinha com sua família na hora do almoço, o tempo passado na companhia de seus avós, a história que seus tios contam no churrasco de domingo, a literatura contida nos grandes clássicos, as biografias dos homens e mulheres falhos, mas também memoráveis, que formaram nosso imaginário. Não há mais forte poder de construção de convicção social do que uma verdade testada pelo tempo e transformada em ritual familiar, em senso comum bairresco, ou como os filósofos modernos gostavam de chamar “moral universal”.
A sacralidade da família, a inviolabilidade do casamento, a cortesia e proteção às mulheres e crianças, a dignidade da vida humana, o respeito mútuo entre os homens — independentemente de quaisquer definições marginais —, a inegociabilidade da liberdade individual, a coragem de se opor ao que é mau, a recusa da mentira, a violência justa contra quem nos ataca, tudo isso, se estão tão arraigados a ponto de serem transformados em ponto pacífico em nossas consciências comuns, em rituais cotidianos, em certezas elementares, se isso ocorre em uma sociedade, nós temos o que Jonah Goldberg denominou corretamente de “O Milagre” civilizacional em O Suicídio do Ocidente, isto é, aquela concordância basilar que permite o florescimento de povos diversos sob uma estrutura geopolítica de garantias jurídicas e morais. Chega a ser paradoxal, pois somente com esse senso comum basilar é que podemos, entre outras coisas, suportar e conviver com o diferente, se temos convicção da liberdade, da dignidade e do respeito, aí sim, numa mesa qualquer, podem se sentar cristãos e muçulmanos.
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Somos a era que menos aprecia o senso comum, justamente porque somos a era que mais tem certeza sobre tudo. O senso comum ocidental, por ser um pressuposto civilizacional que se sustenta sobre valores como a liberdade e apreço incondicional à verdade, aceita ser questionado e corrigido, mas as ideologias que se espalham no mundo ocidental hoje, essas não aceitam contestação, não aceitam divergência. Elas trabalham na esteira de que a mais visível e notável mentira, depois de ser retrabalhada à exaustão sob uma retórica empolada e pseudoerudita, pode se verter em verdade. Jordan Peterson nos alertara sobre isso em seu bestseller, 12 Regras para a Vida: “Apenas a filosofia mais cínica e sem esperança insiste que a realidade poderia ser melhorada pela falsificação”. Por isso Lula, na ONU, acha que a ascensão da direita no mundo é um risco à democracia, pois para ele o mundo deveria ser um bloco esquerdista, pois só a concordância total com sua agenda pode ser algo aceitável; por isso um militante woke meteu uma bala de sniper na garganta de um pai conservador nos EUA, pois, para sua ideologia, o outro, o diferente, é um risco à sua hegemonia supostamente inclusiva e diversa.
O senso comum gera certezas, mas certezas que aceitam ser confrontadas, pois são convicções pautadas na herança de séculos, e os séculos nos ensinaram a humildade de crer, mas também ativamente questionar e reformular racionalmente certezas ultrapassadas, e, quando convencidos de que um erro é um erro, também nos legou o senso comum aquela coragem de mudar de curso.
+ Meia liberdade já é servidão
A verdadeira revolução conservadora acontece nos rituais, no respeito às boas tradições, nos ensinamentos não histriônicos — aqueles que são postos em carrosséis em feeds de redes sociais —, a revolução silenciosa de um conservadorismo maturado acontece naquelas lições que se aprendem enquanto se lava o carro com o pai, quando se cozinha com a mãe, quando se dedica tempo aos avós. A verdade quase nunca se veste em trajes contemporâneos demais, em coisas materiais e utilitaristas demais, geralmente ela se esconde em camadas de sensos comuns, nas frases e costumes clichês de nossos velhos. Como dizia Chesterton em O que há de errado com o mundo: “Se pedíssemos algo abstrato, talvez obtivéssemos algo concreto”.






































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