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Política

Teatro do fingimento e a ditadura do pônei fofo

Não vivemos mais sob uma democracia funcional: estamos dobrando a Constituição, nutrindo tiranos-juízes e silenciando dissidentes

Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia no julgamento da ação penal do 'golpe' - 10/09/2025 | Foto: Victor Piemonte/STF
Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia no julgamento da ação penal do 'golpe' - 10/09/2025 | Foto: Victor Piemonte/STF

Eu labuto com certas tendências do meu tempo, e uma das que mais me afligem é a moda do fingimento social. Eu nasci com a incapacidade de fingir emoções — nem sempre isso é um defeito, assim como nem sempre é uma virtude. Eu me recordo quando uma ex-namorada me presenteou com um tênis All Star, calçado que desde a mais tenra idade eu achava, digamos, de um conforto precário para os pés e desprovido de qualquer estética minimamente aceitável. Não consegui fingir felicidade, fiquei agradecido, mas não feliz. O problema é que são coisas diferentes. Posso ficar agradecido por esforços reais em prol de um bem que alguém queira me fazer, mas não necessariamente feliz com o resultado desses esforços.

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O fato é que hoje, para viver no Brasil, é preciso uma dose alta de desfaçatez e mentira, o fingimento se tornou regra social. Tenho a impressão de que a grande maioria no país vive sob uma espécie de marola residual, algo que prende entre o mundo real e o mundo que imaginamos, aquela sensação de final de anestesia. Quando estamos nesse estado, sabemos que não é real o que sentimos e vemos, mas, ao mesmo tempo, parece que somos forçados a fingir que é. Por exemplo, não é mais necessário dizer que não estamos vivendo sob uma democracia funcional. Estamos dobrando a Constituição, nutrindo tiranos-juízes, silenciando dissidentes e até ameaçando cassar o direito de existir de uma emissora por sua linha editorial não condizente com a agenda oficial; confesso que dizer o óbvio não é algo fácil para mim: falta-me um tanto de profundidade para horas como esta, foge-me certa poesia que poderia fazer meus leitores se interessarem mais. Porém, eu tentarei novamente.

A maioria daquelas pessoas que, por profissão ou atitude, angariam para si o ônus de serem “especialistas” ou “formadores de opinião” no Brasil, seja por conveniência ou por medo, cala-se neste instante de ambiguidades e ilusões. E o silêncio que elas fazem é quase tão abissal e medonho quanto aquele vácuo que o escritor japonês Shusaku Endo explora em seu livro — cujo nome não poderia ser outro — O Silêncio. O Estado democrático de direito, que por natureza nasce para limitar os poderosos, torcer os reis para as leis, para garantir humanidade e igualdade nos tratos jurídicos, para dar previsibilidade e retidão imparcial nas garantias de direitos e coerções justificadas, tudo isso está afundado num lamaçal de retóricas e políticas ideológicas; e todos que sinceramente ainda veem a grama verde e a água molhada — a realidade tal com ela é — sabem que isso é fato.

+ Como ditaduras usam a palavra ‘democracia’ para justificar a tirania

Ao escrever esta coluna, eu me recordei de um filme ao qual assisti há uns dez anos, a lembrança me pareceu tão sugestiva à temática do texto que tive que parar a escrita para assisti-lo novamente e saber o que meu subconsciente sugeria com aquela recordação. O filme se chama O Convite, dirigido por Karyn Kusama. O longa acompanha Will, que vai com sua namorada Kira a um jantar na casa da ex-mulher, Eden, e do novo marido dela, David. Will e Eden perderam tragicamente o filho, e, após a morte, o divórcio aconteceu quase que imediatamente, tendo ambos culpado a dor do luto por isso. À primeira vista, o jantar é apenas um reencontro cordial, mas Will começa a perceber que há algo de estranho no comportamento de Eden e David. Eles falam sobre uma comunidade espiritual à qual se juntaram, marcada por discursos de “aceitação” e “superação da dor”. A atmosfera do jantar oscila entre normalidade e inquietação, e Will passa a suspeitar que o encontro não é tão inocente quanto parece. O suspense cresce, porque os convidados precisam fingir normalidade diante dos anfitriões, mesmo quando sinais de perigo ficam mais evidentes. Pararei aqui, mas recomendo que assistam ao filme.

Três elementos são notáveis aqui: a inquietação, a desconfiança e o fingimento. O Brasil está visivelmente inquieto, ainda que soturno, a população vê o descalabro político e jurídico com maus olhos, os atos oficiais e medidas de todos os níveis causam nela desde repulsa até incômodos profundos. Há, unida a isso, uma desconfiança no ar, e não está somente sobre as consciências populares. Os ditos “especialistas”, aqueles que ainda guardam certa destreza mental ante suas tendências ideológicas, conseguem perceber que os que mais proclamam a “democracia” e choram abraçados à Constituição são os que iniciam os ataques à primeira e rasgam a segunda. Todavia, ao passo que inquietações e desconfianças revolvem os estômagos e consciências dos brasileiros, sejam eles homens comuns ou os “formadores de opinião”, tudo parece se encerrar numa melodramática encenação de normalidade, quando muito, um olha furtivamente para o outro, perguntando-se internamente se só ele que vê tudo distorcido e imoral, ou se os outros também notam.

Parafraseando uma certa juíza de olhos morosos e voz suave: “Censuraremos, mas só agora. Pelo bem da liberdade; da democracia; da eleição; do Brasil. Vamos calar a dissidência em nome do amor e da pluralidade”. É quase como ver um fofo pônei cantando A Internacional Comunista, enquanto aponta uma AK-47 para a cabeça de operários de um gulag.

Assim como no filme, onde o protagonista deve fingir normalidade para ver se consegue sair livre daquele jantar sinistro, parece-me que muitos adotam essa postura. Fingir que estamos numa democracia para tentar sobreviver aos tempos de censura e caça a dissidentes. Hoje a nossa democracia é igual a esse pônei fofo, por isso fingimos que, quando ele mira em nossas cabeças, não passa de um momento necessário de autoritarismo, pois no fundo o pônei sinistro só quer dar acolhimento, diversidade e liberdade. Nesse mundo maluco é a extrema-direita, fascista, quem tem seus representantes recorrentemente vítimas de atentados — tal como Trump, Bolsonaro, Uribe e Kirk —, frente a uma esquerda democrática — fofinha — que apoia e perpetua novas ditaduras, prende opositores, tortura dissidentes em nome do amor.

O brasileiro parece preferir ficar com o agressor que promete o arco-íris de felicidades sociais e faz juras de amor político depois da surra, do que enfrentar a dura realidade que o aflige; e quando terceiros confrontam o seu olho roxo e o braço quebrado, eles dizem que, na verdade, bateram na pia ao sair do banho, que o seu amado socialismo fofo no fundo é bom, que apenas está passando por um momento difícil, por um instante de autoritarismo necessário para salvar a relação — ou a democracia…

Leia também: O teatro supremo, reportagem de Silvio Navarro e Cristyan Costa publicada na Edição 286 da Revista Oeste

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2 comentários
  1. paulo jose do nascimento filho
    paulo jose do nascimento filho

    Lamento: o povo é burro e ignorante na sua maioria, não enxerga

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