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E se eu criticar a literatura identitária, eu me torno racista?

'Eu li, por ocasião da polêmica do início do ano passado, o livro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. E ele é ruim, é um livro claramente feito para chocar, e só'

literatura identitária
A tal literatura identitária, por fim, não é nada além disso: um clube de militantes produzindo discursos ideológicos em forma de ficção | Foto: Reprodução/Freepik

Certa vez, George Orwell disse em um ensaio de 1941, intitulado As Fronteiras da Arte e da Propaganda, que “se olharmos para a literatura inglesa dos últimos dez anos, não tanto para a literatura em si, mas para a atitude literária predominante, o que impressiona é que ela quase deixou de ser estética. A literatura foi inundada pela propaganda”. Ah, caro socialista que amo, se soubesse como isso é uma verdade também no Brasil atual, ficaria completamente abismado. Afinal, a moda agora é a “literatura identitária”. É verdade que a literatura está aí para explorar as facetas da realidade e da alma humana, e a politização, a invencionice ideológica, as performáticas maneiras de se viver a sexualidade, tudo isso são partes do homem contemporâneo, logo não há nenhuma contradição em se produzir literatura voltada a essas temáticas.

O problema surge quando começamos a julgar a boa literatura e as capacidades eruditas desses livros, não mais por critérios técnicos e estéticos sérios, mas tão somente por afinidade política. Tais obras começam a ser divulgadas como puro ouro da literatura nacional contemporânea, mas não por seus méritos de roteirização, composição de personagens e escrita afinada, mas por reproduzirem um discurso pré-aceito e assado de uma determinada cultura de establishment. A literatura então deixa de ser expressão artística e humana para se tornar refinaria de ideologias para consumo de militantes. 

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Eu li, por ocasião da polêmica do início do ano passado, o livro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. E ele é ruim, é um livro claramente feito para chocar, e só. Os personagens, longe de se desenvolverem como consciências autônomas dotadas de contradições internas, funcionam majoritariamente como vetores de uma tese racial preexistente. Suas trajetórias psicológicas são lineares, previsíveis e teleologicamente orientadas para confirmar o diagnóstico social que o romance pretende afirmar. Em termos formais, isso produz um empobrecimento da ambiguidade literária, pois conflitos morais não se desdobram em dilemas genuínos, mas retornam sempre ao mesmo núcleo explicativo, constrangendo a interpretação do leitor para uma tese.

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Leiam, por exemplo, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, um livro que trata do racismo em sua versão histórica mais pura e que também nos choca com imagens violentas, além de denunciar o racismo como éter social. A diferença é que Stowe nos conta uma história em vez de pregar um evangelho ideológico, o resto ela delega generosamente a cada mente, a cada consciência. Tenório, por sua vez, faz um discurso, ele usa a literatura como palanque de assombro e politização. Apoiando-se em lugares comuns da crítica “progressista” racial, entrega-nos depois da leitura de seu manifesto um formulário de adesão completa à escola da crítica racial.

O problema da literatura identitária

O mesmo acontece com Porco de Raça, de Bruno Ribeiro. O romance distópico opera a partir da ideia de que a raça não é um dado circunstancial, mas o eixo organizador da experiência social do protagonista. Violência, humilhação, desejo, fracasso e reconhecimento são lidos, dentro da lógica do livro, prioritariamente como efeitos do racismo estrutural. É claro para mim que Ribeiro usou da literatura não como um farol que desvenda as fendas do homem e da existência, mas como um grafite com cores estouradas que passa uma mensagem de revolta ou revolução, pintura feita para impressionar e impulsionar uma propaganda. O homem universal, objeto substancial da literatura ocidental, some para dar lugar somente à raça; o homem não é mais homem, ele se torna cor e agenda política.

A literatura, no entanto, é a arte de mostrar o mundo no homem, de iluminar os vãos da existência para torná-los visíveis por meio de histórias que dialogam com toda a humanidade. Não pensem que argumento aqui em favor de uma literatura apolítica, eu defendo uma literatura que exista com a política, e não em submissão a ela.

Todavia, qualquer uma dessas duas críticas acima feitas, se o eixo analítico não considerar a cotagem de melanina do autor, o racismo pré-concebido como estrutura de tudo — inclusive da minha própria crítica —, então a minha análise se torna automaticamente algo asqueroso que passa a denotar não a minha impressão sincera sobre a obra, mas a minha clara e inconteste adesão a uma visão preconceituosa de mundo. Eu me torno fascista mais rápido do que um miojo leva para ficar pronto. Meus argumentos, ainda que nem sequer toquem no fator “raça” e cor, irão se tornar provas incontestes de que sou irremediavelmente um racista — ainda mais porque sou irremediavelmente branco.

Não sobra outra opção a não ser gostar, aplaudir e divulgar a tal “literatura identitária” ou “racial”, não por sua qualidade, mas por simplesmente ser um manifesto “antiburguês” e “antibranco”. Como disse George Orwell em seu ensaio Salvem a Literatura: “[É] no ponto em que a literatura e a política se cruzam que o totalitarismo exerce sua maior pressão sobre o intelectual”. É isso.

Repressões aos críticos

Nem mesmo a mais irretocável crítica literária realizada a uma obra de “literatura identitária” seria o suficiente para que os especialistas atuais considerassem-na como uma crítica “sem racismo e politização”, pois, no fundo, eles sabem que o texto em si pesa pouquíssimo se comparado à agenda estrutural que ela representa. A propaganda, essa sim é a mestra, a espinha do livro, e criticar o livro, em última instância, significa criticar a sacralidade ideológica. E isso não é permitido.

E o problema nem é a política na literatura. Aliás, Orwell é a prova de que podemos fazer literatura com fundo político, e uma crítica profunda por meio dela, mas que, para tal, deve-se priorizar a literatura, e não a política. 1984 é uma distopia, e como tal, assentada num fundo político, mas se ignorarmos a política da história, ela se mantém em pé como um romance excepcional; se entendermos o contexto da crítica, obviamente que tudo se enriquece, mas o livro não depende do contexto político externo para ser bom. Não se trata de negar a legitimidade do tema ou a relevância histórica de uma denúncia — Orwell não o fez, Philip Dick também não —, mas de reconhecer que, ao subordinar a densidade psicológica dos personagens, a ambivalência da ética e a amarração do roteiro à função política, o romance sacrifica aquilo que, classicamente, distingue a literatura de uma mera intervenção propagandística: a capacidade de revelar o humano para além da tese que o explica.

Retire agora a crítica “progressista” universitária da obra de Jeferson Tenório, e sua obra fica manca de sentido. Ela perde as vértebras. A estrutura de O Avesso da Pele não está no farol da literatura desenvolvida como observação e dissecação dos porquês do homem e de seus embates, mas na explicação de uma visão ideológica. Retire as mil vezes mascadas tese marxista de opressão, repintada pela tese racial “progressista”, do livro Porco de Raça, de Bruno Ribeiro, e o que sobrará é violência oca e o palanque universitário.

A tal literatura identitária, por fim, não é nada além disso: um clube de militantes produzindo discursos ideológicos em forma de ficção. A já velha, e, sinceramente, cansativa subordinação da arte poética à propaganda política.

Leia também: “O mercado editorial descobre a direita”, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 286 da Revista Oeste

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