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E se eu te falar que o liberalismo clássico nasceu da mais pura tradição católica

Uma genealogia intelectual pouco conhecida revela como a defesa da liberdade emergiu do seio da fé cristã

'Podemos dizer que o liberalismo clássico, não ideológico e fanático, tem base católica profunda', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
'Podemos dizer que o liberalismo clássico, não ideológico e fanático, tem base católica profunda', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Poucas pessoas sabem, mas o catolicismo já ostentou muitos intelectuais liberais declarados: Lord Acton (1834-1902), Alexis de Tocqueville (1805-1859), Michael Novak (1933-2017), Thomas Woods Jr. e Alejandro Chafuen são cinco deles; claro que aqui não se julga a profundidade, aderência e coerência de fidelidade desses homens, até porque ainda não me tornei juiz de almas, falo de suas confissões públicas de fé. O que pouquíssimos sabem, todavia, é que muitos sacerdotes abertamente defenderam as bases do liberalismo clássico — por exemplo, liberdade de expressão, livre mercado, liberdade de consciência etc. — em tratados profundos, onde conciliam de maneira teológica e filosófica a fé cristã com a ética liberal-conservadora.

Nos últimos dois anos, num trabalho pessoal de pesquisa, encontrei inúmeros padres que viam os desenvolvimentos éticos “liberais” como uma emanação clara da aplicação evangélica e teológica do cristianismo na sociedade. Não se trata, ao contrário da teologia marxista, de uma acomodação centralizada e sincretista, uma ressignificação evangélica, uma proposta revolucionária-teológica, mas antes de uma arqueologia das ideias genuinamente católicas que levam à valorização da liberdade em suas múltiplas camadas, e, para isso, escolas inteiras e pensadores profundos se formaram no seio do catolicismo romano.

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Esse foi o caso da Escola de Salamanca — fundada no século XVI —, que renovou a aplicabilidade social e a profundidade do tomismo clássico, empregando-o na “economia” descentralizadora e na “sociologia” antiestatista. Foram eles que, antes mesmo de Adam Smith (1723-1790), já estruturavam os princípios básicos do que conhecemos atualmente como livre mercado, limitação de poderes, ética do indivíduo, Direito Internacional, livre associação e separação de Igreja e Estado; a obra legada por essa escola, em especial sobre a moeda e a ética social, é o pilar essencial da economia e filosofia liberal ainda hoje.

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Para terem uma dimensão da grandeza intelectual da esquecida Escola de Salamanca nas bases do liberalismo moderno, a seguir listo padres e teóricos dessa escola, bem como as suas inovações econômicas, sociológicas, filosóficas e políticas que fundamentam as ideias liberais: foi o padre Martín de Azpilcueta (1491-1586) o primeiro a entender que o valor da moeda depende da sua escassez, lançando as bases da teoria monetária moderna; o padre Francisco de Vitoria (1483-1546) é considerado o pai do Direito Internacional, ele defendeu que todos os homens possuem direitos naturais que nem o papa nem o imperador podem violar; Juan de Mariana (1536–1624), também padre, defendeu o direito natural do povo de retirar — até mesmo sob a base da força — um inconteste tirano que subjuga sua nação e, além disso, foi um crítico feroz da inflação provocada pelo Estado — para um aprofundamento do tema, recomendo a obra Fé e liberdade: O pensamento econômico da escolástica tardia (LVM Editora).

Os padres e o catolicismo

Mas outros padres católicos se dedicaram a defender as bases do liberalismo na sociedade no século 19 e 20, enxergando nelas não uma contradição com os princípios de fé, mas antes uma estrutura fundamental da sociedade para que a própria Igreja pudesse exercer seu papel de evangelizadora das nações. Foi nesse espírito que autores-clérigos como Antonio Rosmini (1797–1855), padre e filósofo italiano, defendeu a propriedade privada como extensão da pessoa e criticou o estatismo nascente na Europa da segunda metade do século 19, defendeu também a liberdade religiosa como extensão da liberdade de consciência, o que o levou a ser brutalmente atacado pelos seus pares padres e cardeais por suas ideias de defesa inconteste do indivíduo ante a massificação política e religiosa; em 2007 ele foi feito beato pelo papa Bento XVI. Henri-Dominique Lacordaire (1802–1861) foi um frade dominicano que uniu os conceitos de “Deus e Liberdade”, foi considerado o maior orador de sua época em defesa das liberdades civis, atacou abertamente tiranos e entendia que a liberdade e a graça são os fundamentos básicos da filosofia católica. Luigi Sturzo (1871–1959) foi um padre, sociólogo e político italiano combativo, fundador do Partido Popular Italiano e um dos maiores opositores do fascismo nascente, chegando a ser caçado por Mussolini; defendeu a liberdade individual contra o Estado coletivista, sustentando que a sociedade civil deve ser autônoma, descentralizada e regida pela economia de mercado e pela subsidiariedade; sua obra focou especial força na resistência ao estatismo e na ideia de que a moral cristã é a base indispensável para uma democracia verdadeiramente livre. Frédéric Ozanam (1813-1853), fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, foi um intelectual brilhante que poucos católicos conhecem profundamente, foi companheiro geracional de Lacordaire no catolicismo liberal; ele acreditava que a justiça social deveria ser alcançada por meio da liberdade de associação e do auxílio mútuo, e não pelo gigantismo estatal; ele via na liberdade política a única forma de o cristianismo florescer em um mundo moderno. Por fim, para não me alongar muito, Félix Dupanloup (1802–1878), bispo de Orléans, foi um dos maiores defensores da liberdade de ensino na França e um liberal moderado que lutou pessoalmente contra o absolutismo de Napoleão III; foi uma voz fundamental na luta para que o Estado não detivesse o monopólio sobre as mentes das crianças, defendendo o direito dos pais de escolherem a educação de seus filhos.

Tais autores, quando voltados para o estudo da a sociedade e seus mecanismos, notaram, em seu tempo, uma tendência de neoabsolutismo político, não mais centrado numa monarquia, mas num rearranjo das bases da sociedade, numa engenharia social impulsionada por pensadores que, dotados de um ego grande e certeza da maleabilidade das vontades e almas dos homens, propõem utopias que, em última análise, visavam destituir a religião cristã da moral pública, substituindo-a por uma religião cívico-ideológica. Foram o que propuseram Henri de Saint-Simon (1760-1825), Auguste Comte (1798-1857), Karl Marx (1818-1883) e seus herdeiros.

Liberalismo e cristianismo

Em comum, esses padres viam o liberalismo como uma extensão da ética cristã para os tempos modernos, não o sacralizando e nem cristalizando-o como uma cartilha inerrante, mas como uma via natural advinda do seio da moral cristã. As ideias de Rosmini, por exemplo, fundamentaram o personalismo cristão, defendido e desenvolvido por São João Paulo II, onde o eixo social gira em torno da ética do indivíduo, seus direitos e deveres. A separação de Igreja e Estado, vista nos primeiros dias dessa proposta como um recuo e uma traição à fé, hoje é o sustentáculo político, econômico e eclesial da Igreja de Roma. Uns com mais fervor político, como o caso de padre Luigi Sturzo, outros mais distantes de polêmicas político-partidárias, como o caso do bispo Dupanloup, mas todos eles concordavam com um liberalismo centrado na dignidade do indivíduo ante o coletivo, na sobreposição necessária da pessoa ante o Estado e na centralidade de uma moral pública enraizada na tradição cristã ante as invenções filosóficas de laboratório.

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Tais fundamentos, além de serem os pilares do liberalismo clássico, acabam sendo também os pilares da filosofia católica moderna, da Doutrina Social da Igreja e da própria concepção moderna de homem frente ao Estado. Podemos dizer que o liberalismo clássico, não ideológico e fanático, tem base católica profunda; e, de maneira associativa, a filosofia política católica moderna, que viabilizou a luta — ora silenciosa, ora aberta — contra os totalitarismos modernos, se fundamentou na seiva do pensamento liberal.

A fé católica

Não há, a priori, uma tensão entre o liberalismo e a fé católica, a não ser quando essa se torna cartilha, manifesto ideológico e materialismo banal, ao mesmo tempo não há dificuldade para um genuíno liberalismo católico, a não ser quando o catolicismo toma forma de evangelho adaptado a modas coletivistas e centralizadoras, num esforço de adaptação da fé evangélica ao progressismo cultural e à política estatista. É sabido que o liberalismo contemporâneo assume várias configurações, e em muitas delas joga fora a concepção de ética universal, indispensável ao cristianismo, assumindo num polifônico e confuso subjetivismo moral a sua própria distinção; por isso não me desvio do lugar comum ao achar que o movimento liberal seja um bloco sem arestas, mas falo antes do liberalismo clássico histórico, fundamentado antes de tudo em reflexões morais do que num materialismo amoral e oco de substância.

A mim parece claro que só há afastamento dos pressupostos do liberalismo clássico e da fé cristã católica quando a Igreja assume o papel de politizadora da realidade e o liberalismo como códex incontestável e inerrante de moral individual e da postura pública — Ayn Rand (1905-1982) que nos diga. Se cada um assumir suas influências adequadas e limitações de ação, o liberalismo como escola política e o catolicismo como fundamento religioso-cultural, ambos se tornam as duas pernas indispensáveis do Ocidente livre e sadio.

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