publicidade
Cultura

O totalitarismo nas pequenas coisas: uma resenha de Pátria, de Fernando Aramburu

Um romance que expõe como a ideologia se infiltra na vida doméstica e transforma o terror em rotina moral

'Pátria não é a nação mitificada, nem o território sacralizado pelo sangue; é aquilo que se perde quando a política ocupa todos os espaços da vida comum', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
'Pátria não é a nação mitificada, nem o território sacralizado pelo sangue; é aquilo que se perde quando a política ocupa todos os espaços da vida comum', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Pátria, de Fernando Aramburu, é um romance incômodo, justamente porque se recusa a ser épico, revolucionário ou redentor. Não há heróis históricos, nem grandes discursos libertadores; há casas comuns, famílias fraturadas, mães obstinadas, pais resignados e uma violência que se infiltra no cotidiano como um mofo moral. Aramburu compreende algo que boa parte da literatura política contemporânea perdeu em meio às suas caixas de obra pelegas: as ideologias não se revelam apenas em manifestos, mas, sobretudo, naquilo que destroem lentamente na vida ordinária, na vida familiar.

Ambientado no País Basco, durante os anos de terror da organização marxista-revolucionária ETA, o romance acompanha duas famílias ligadas por amizade, vizinhança e, depois, por ódio e morte. Um pai assassinado por razões “políticas”; um filho transformado em militante armado; mães que encarnam visões morais antagônicas; vidas afetadas por uma cegueira política assombrosa; em suma, uma comunidade que aprende a normalizar o medo e o terror sob um véu bolorento de desculpas e retóricas vazias. Aramburu, com notável honestidade literária, mostra-nos com rara capacidade como o totalitarismo quase sempre começa pequeno, travestido de causas nobres de justiça histórica e redenção coletiva — até tornar-se um mecanismo de coerção social absoluta e brutal.

Receba nossas atualizações

Para mim, Pátria figura como uma das denúncias mais profundas do mito revolucionário moderno na literatura contemporânea. A obra revela que, longe dos holofotes mediáticos — que se alternam entre a críticas e o aplausos aos radicais —, reside o esquecido seio familiar. É nesse ambiente íntimo, tanto do militante quanto de suas vítimas, que se encontra o terreno mais devastado pela tirania e pela brutalidade militante. O romance expõe como uma retórica de libertação nacional, quando divorciada de limites morais objetivos e sensatez política, autoriza o assassinato, dissolve a responsabilidade individual e sacraliza a violência. Não se mata um homem; elimina-se um “inimigo do povo”. Não se humilha e destrói uma família, mas “uma corja de imperialistas”. Não se aterroriza uma multidão de inocentes; “faz-se história”. Aramburu desmonta esse autoengano com uma arma simples e devastadora: o sofrimento concreto e detalhado.

'Pátria figura como uma das denúncias mais profundas do mito revolucionário moderno na literatura contemporânea', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Amazon
Pátria figura como uma das denúncias mais profundas do mito revolucionário moderno na literatura contemporânea’, escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Amazon

As virtudes de Pátria

Assim, Aramburu compreende algo fundamental: o verdadeiro alvo do radicalismo político não é o Estado, mas os vínculos intermediários. Se tem algo que seu livro realmente alça nas alturas é a noção de que a ideologia não destrói apenas corpos, ela corrói amizades, igrejas, bares, famílias, associações locais — exatamente aquilo que sustenta uma sociedade viva. A pátria abstrata exige o sacrifício da pátria concreta: o lar, a memória, o rosto conhecido. Esse, aliás, é um ponto central da crítica conservadora ao coletivismo moderno, e o romance o encarna com precisão literária rara. Há ainda um aspecto profundamente antiutópico na obra. Não há catarse final, não há reconciliação plena, não há justiça poética. O terror termina, mas os danos permanecem.

Por isso, um dos maiores méritos do livro é não ceder à tentação relativista; e ainda que conceda complexidade psicológica aos personagens envolvidos com o terrorismo, o autor não estetiza a violência nem a absolve em nome do contexto histórico. O assassinato permanece assassinato; o medo permanece medo; a covardia coletiva — o silêncio dos vizinhos, a cumplicidade passiva — permanece como uma límpida e cristalina forma de culpa. A escrita de Aramburu, aliás, é única, pois sua prosa se assemelha a um ritmo oral, tal como se o tivéssemos escutando ao redor de uma fogueira ou em uma mesa de bar enquanto ele se lembra dos fatos.

+ Os 10 melhores lançamentos editoriais de 2025

O título, por sua vez, não é irônico por acaso. Pátria não é a nação mitificada, nem o território sacralizado pelo sangue; é aquilo que se perde quando a política ocupa todos os espaços da vida comum. Aramburu parece sugerir, com sobriedade e sem sermão, que a pátria verdadeira talvez seja inseparável da paz civil, da lei moral e do respeito à dignidade do indivíduo comum — exatamente aquilo que os movimentos revolucionários prometem defender, mas quase sempre destroem.

Pátria é um romance profundamente moderno na forma, mas antimoderno no juízo moral. Não há belezas retóricas, reflexões profundas, há o relato cru e as descrições concisas, por vezes na voz de um narrador onisciente, por vezes em primeira pessoa — tudo isso misturado, às vezes, num mesmo parágrafo. Sua escrita característica é hipnotizante.

+ A brutal elegância de Dentes de Ouro

Por fim, um livro que deveria ser lido não como denúncia circunstancial do terrorismo basco, mas como advertência permanente contra toda ideologia que se julga autorizada a matar em nome do bem; um lembrete poderoso àqueles radicais que se esquecem que a destruição não acontece só no plano político do inimigo, mas também no âmbito mais íntimo, familiar, consciente.

+ Leia notícias de Cultura em Oeste

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.