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Eventos meteorológicos severos em novembro no Sul do Brasil — parte II

Os fenômenos de mesoescala

Situação de Rio Bonito do Iguaçu (PR), depois de passagem de tornado | Foto: Reprodução/Agência Brasil
Situação de Rio Bonito do Iguaçu (PR), depois de passagem de tornado | Foto: Reprodução/Agência Brasil

Na primeira parte deste texto, abordamos a persistência de quadros meteorológicos análogos, ao que verificamos no período de inverno, ainda em boa parte do Brasil como toda a Região Sul, parte do Centro-Oeste e Sudeste até o fim de novembro. Iniciamos, a análise da condição de tempo sinóptica (de grande escala) dos eventos meteorológicos severos que atingiram uma área significativa da região sulista do Brasil, especialmente o Paraná.

Vale lembrar que, até 24 de novembro, continuávamos a observar tais condições de tempo, com contrastes térmicos significativos no eixo que vai de Mato Grosso do Sul até o sul fluminense, derrubando temperaturas em menos de 24 horas por todo o Sul e parte do Sudeste. Isso foi verificado, por exemplo, na madrugada de 23 do mês passado no Estado de São Paulo.

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Também descrevemos, na primeira parte deste artigo, que esses fenômenos atmosféricos de grande escala, como são as frentes frias, ocasionam a formação de grandes células de trovoadas, e elas são proporcionais ao contraste térmico que verificamos durante a estação sazonal de transição que nos encontramos. Nossa análise final pretende demonstrar o quanto os sistemas de mesoescala podem se intensificar de maneira veloz em condições ideais. Exatamente esse foi o caso de 7 de novembro de 2025.

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Como explanamos anteriormente, a área continental da América do Sul, na linha do paralelo entre o norte da Argentina e o Paraná se torna propícia para a maturação de ciclones extratropicais (CET) continentais. Isso ocorre quando se estabelece um quadro composto por dois grandes CET que previamente se posicionam na área sul de cada oceano, tanto no Pacífico quanto no Atlântico.

Ciclones no Sul do Brasil

Enquanto um sistema de alta pressão atmosférica em superfície era intensificado por um escoamento frio proveniente do setor subantártico, o que fortalecia o setor da frente fria que se posicionava logo ao norte do núcleo do CET, passou-se a observar, por volta das 12h de Brasília, algumas células de trovoadas com espessas nuvens se destacando das demais. Cerca de três horas antes, alguns alertas foram emitidos pelos serviços de vigilância meteorológica, avisando da alta probabilidade de ventos intensos com fortes rajadas, mas especificamente pela formação do CET continental.

eventos meteorológicos parte 1 - figura 1
Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, América do Sul, 1510Z (12h10 de Brasília). Dois grandes ciclones extratropicais (L), um sobre cada oceano em suas respectivas áreas Sul. Um novo ciclone extratropical vai maturando, com centro de baixa pressão continental (interior do círculo pontilhado vermelho). A linha azul indica o fluxo de ar frio de retaguarda que intensifica a alta pressão fria (H), em 7/11/2025 | Fonte: Inmet, 2025

Contudo, era notório que as células de trovoadas que acompanhavam o setor frontal ofereceriam maior perigo, pois o seu desenvolvimento se acelerou em menos de três horas. Assim, por volta das 16h de Brasília, enquanto o CET maturava sobre o continente, com seu núcleo posicionado entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul. Na banda de nebulosidade frontal, já era possível observar o surgimento de supercélulas de trovoadas entre o sudeste do Paraguai, tomando o setor oeste de Santa Catarina e do Paraná, com grande possibilidade de evoluir para um Complexo Convectivo de Mesoescala (CCM). Próximo da divisa entre Mato Grosso do Sul e São Paulo, outro sistema de mesoescala anexo também sinalizou desenvolvimento. Tratava-se de uma Linha de Instabilidade (LI) que se posicionou perpendicularmente ao sistema frontal.

eventos meteorológicos parte 2 - figura 2
Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, América do Sul, 1910Z (16h10 de Brasília). No interior do triângulo pontilhado vermelho observamos nuvens Cumulonimbus em grande desenvolvimento vertical. O núcleo no ciclone extratropical continental se localiza sobre o Uruguai e RS. No interior da linha lilás fechada observamos o surgimento de uma Linha de Instabilidade perpendicular ao sistema frontal original, em 7/11/2025 | Fonte: Inmet, 2025

A partir das 17h de Brasília, os sistemas de mesoescala já estavam bem maturados. Santa Catarina e metade do Paraná ficaram encobertos por células de trovoadas, incluindo pelo menos uma supercélula e um CCM que começou a varrer a superfície de oeste para leste, trazendo fortes chuvas. Neste momento, todos os tipos de fenômenos eólicos podem ocorrer, começando com os menos intensos, como as frentes de rajada, passando para micro ou macroexplosões e, finalmente, com a possibilidade de formação de tornados.

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Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, América do Sul, 2000Z (17h de Brasília). Sequência da Fig.2, com um maior desenvolvimento da nebulosidade de ambos os fenômenos de meso escala, com o CCM maturando (triângulo pontilhado vermelho), com a Linha de Instabilidade (pontilhado lilás) permanecendo perpendicular ao sistema original. Enquanto isto, o núcleo no ciclone extratropical continental desloca-se lentamente em sentido ao oceano, em 7/11/2025 | Fonte: Inmet, 2025

A LI ainda perdurou até as 22h de Brasília, adentrando pelo noroeste de São Paulo, ocasionando intensas chuvas, sem danos maiores. Nesta mesma hora, a imagem do canal infravermelho do satélite geoestacionário GOES 16 mostrou que o núcleo do CET alcançava o litoral sul gaúcho. Contudo, o CCM que atingiu o Paraná continuou bastante ativo, percorrendo o Estado até a madrugada de 8 de novembro de 2025, quando parte de sua estrutura se encontrava sobre o sudeste paulista.

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Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, América do Sul, 0100Z do dia 8/11/2025 (ainda 7/11/2025, 22h de Brasília). A Linha de Instabilidade se dissipou (linha pontilhada amarela); contudo, o CCM continua muito ativo sobre o estado do Paraná e Sul de São Paulo (interior do triângulo vermelho pontilhado). O núcleo do ciclone extratropical já está na costa gaúcha | Fonte: Inmet, 2025

O CCM ocasionou grande destruição por onde passou entre 17h até a virada do dia seguinte, devido aos intensos ventos. Os piores eventos ocorreram no momento de maior maturação concentrada entre 17h e 19h (Brasília), quando o sistema de mesoescala apresentou um tamanho proporcional à área do Paraná. As nuvens Cumulonimbus atingiram elevadas altitudes, com topos certamente além de 15 km, com temperaturas abaixo de –70oC.

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Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, Região Sul do Brasil, 2000Z (17h00 de Brasília). O oval vermelho representa aproximadamente a área do estado do Paraná, com 199.315 km² | Fonte: Inmet, 2025
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Mesmo recorte da imagem de cima, com realce de cor para temperaturas de topo de nuvens, observamos que o CCM, cercado pelo oval branco, apresenta uma área análoga à do PR. Isto auxiliou a avaliação para a classificação do sistema, especialmente em uma hora crítica de seu desenvolvimento máximo, em 7/11/2025 | Fonte: Inmet, 2025

Situação do município mais afetado

O município mais atingido foi Rio Bonito do Iguaçu, com cerca de 13 mil habitantes, localizado na região sudoeste paranaense e a 400 km de distância do litoral. Embora tenha 680 km2, o núcleo urbano municipal apresenta uma área bem ínfima, distribuído em relevo relativamente plano, cercado por vegetação, tanto agrícola como natural. A estrutura urbana estende-se em uma área de aproximadamente 1,5 km x 1 km. Foi bem neste centrinho que, a partir das 17h30 de Brasília, houve grande destruição ocasionada por ventos, supostamente oriundos de um tornado de categoria F2, pela avaliação da Escala Clássica de Fujita.

Embora a mídia rapidamente tenha divulgado que se tratou de um tornado, há muitas questões ainda a serem esclarecidas, especialmente porque uma avaliação como esta é realizada pela observação dos danos ocasionados. O que chamou muito a atenção foi a divulgação prematura de que se tratava de um tornado EF3, o que me pareceu impossível de ser classificado apenas algumas horas depois, inclusive pelo escurecer do dia. Alegaram que os ventos se sustentaram em 250 km/h, mas, pela avaliação dos danos, ventos a partir de 180 km/h teriam ocasionado o mesmo efeito.

Classificação de tornados

A classificação de tornados tem um longo histórico e foi criada nos anos de 1970 pelo meteorologista Tetsuya Theodore Fujita (1920-1998). Com cidadania norte-americana, o professor Ted, como o chamavam, fez a estimativa de velocidade de ventos dos tornados pela avaliação da destruição ocasionada em campo, mas também com simulações por modelos escalares (que diferem dos matemáticos). Sua classificação vai de F0 a F5. A aplicação é bem técnica e demorada para se realizar. Houve algumas tentativas de aprimoração apresentadas por Person, nos anos de 1980, que tiveram uma aplicação relativa, pois Fujita ainda se manteve em uso pela facilidade de seu emprego.

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Fujita morreu em 1998, e, em 2004, um grupo de pesquisadores apresentou uma sugestão de nova escala denominada “Fujita Aprimorada” (Enhanced Fujita – EF). A complexidade de avaliação se tornou muito maior porque passou a necessitar de verificação dos danos, não só por olhos bem treinados, mas pelo prisma de 28 fatores em campo, cada um deles com elementos de ponderação mais complexos. Portanto, naquele momento, no município de Rio Bonito de Iguaçu, certamente não teríamos ninguém qualificado para executar tal avaliação. Assim, estimar que no local ocorrera um EF3, divulgado pela mídia logo depois do evento, foi pura especulação.

Vale ressaltar que as escalas F e EF não apresentam os mesmos limites de velocidade para designar as classes. A escala EF, a partir do número 2, sobe rapidamente a sua classificação com velocidades menores. Pergunta-se: qual o propósito disto senão assustar as pessoas e criar mais pânico? Quando nos propomos a fazer melhorias em um procedimento, metodologia ou escala, significa que queremos aprimorar a nossa avaliação mediante a uma melhor observação, entendimento ou técnica, mas mantendo o fator de medição.

No caso da EF, tudo parecia indicar isso pelo aumento da complexidade da aplicação da nova classificação. Porém, com ela, veio a redução das velocidades para ranquear as classes, o que não apresenta propósito algum. Como exemplo, um tornado com 219 km/h se encontraria no meio da classe F2, mas essa velocidade já o enquadraria como EF3 na “escala avançada”. Para o topo das escalas, a diferença e ainda pior. Um tornado já é EF5 com 323 km/h, mas só seria F5 com 419 km/h, uma diferença de 96 km/h. Por essas e outras que boa parte dos meteorologistas operacionais ainda prefere a Escala Fujita tradicional, pois ela estima melhor as velocidades reais dos tornados, e sua energia envolvida, diferentemente do que propôs a escala EF.

Ainda sobre 7 de novembro

Voltando ao caso, no mesmo dia 07 de novembro, outros municípios também foram assolados por fenômenos eólicos durante o entardecer e a noite, inclusive Guarapuava (PR), que registrou uma morte. Deve-se ressaltar que embora fosse o mesmo CCM que permanecia ativo, claramente não se tratou do mesmo suposto tornado porque ele não “caminharia” atingindo o chão por mais de 100 km pelo Paraná, como a mídia deixou “pairando no ar”, sem dar melhores explicações.

Concluímos que é seguro dizer que tivemos um CCM derivado de um CET, cuja formação nebulosa apresentou quase o dobro da área exigida pelo critério norte-americano de classificação, com temperaturas de topo de nuvens certamente abaixo de –80oC, o que indicou a severidade do sistema. Vale ressaltar que mais dados de campos de ventos, em diversos níveis de altitude, bem como imagens de radar meteorológico, ajudariam a obter uma melhor interpretação desta ocorrência.

Para mais detalhes pormenorizados do quadro sinóptico e análises sobre a principal ocorrência de novembro de 2025, incluindo carrosséis de imagens, as discussões sobre a classificação de tornados, comparativo de escalas e o evento no Paraná, convidamos o leitor a assistir ao nosso minidocumentário.

Bobagens na COP30

Infelizmente, tivemos que ouvir as bobagens proferidas na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), onde disseram que essa ocorrência foi um exemplo do que ocorre em um mundo “mais quente” devido às “mudanças climáticas”. Pura besteira! Primeiro, porque se tratou de um evento meteorológico e não climático. Segundo, que o conhecimento sobre a atuação dos CCM é amplo, com estatísticas determinadas (aí sim) pela climatologia sobre o onde e o quando, ou seja, já sabemos que tais fenômenos ocorrem no Brasil no corredor que vai desde o Acre e sul do Amazonas até o sul de Mato Grosso do Sul, além de apresentar uma concentração elevada de ocorrências por toda a faixa oeste dos Estados sulistas, geralmente com mais intensidade de setembro a dezembro.

Prova disso é que no dia 28 de novembro, um novo quadro análogo ao observado no dia 7 se estabeleceu sobre a América do Sul, área continental e dos oceanos. Logo nas primeiras horas da manhã, as células de trovoadas começaram a se desenvolver no mesmo setor continental estabelecido pelas estatísticas, ou seja, toda a área do limite oeste do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Felizmente, essas células não evoluíram para sistemas de mesoescala maiores.

eventos meteorológicos parte 2 - figura 6
Recorte de imagem do satélite GOES 16 – Canal Infravermelho, América do Sul, 1400Z (11h de Brasília). Um quadro meteorológico análogo ao dia 7/11/2025 se apresentou em 28/11/2025. O setor fechado pontilhado vermelho mostra células de trovoadas em desenvolvimento logo nas primeiras horas da manhã | Fonte: Inmet, 2025

Alguns despreparados chegaram a lembrar de que a região já foi atingida por um furacão, só se esqueceram de mencionar que isso foi há 21 anos e sequer se trataram do mesmo fenômeno, além de não serem nem no mesmo Estado. As pessoas que sofreram com essas tragédias merecem toda a nossa solidariedade, com apoio real para vencerem essas dificuldades. Esperar-se-ia que o governo desse o exemplo, mas o que vimos foram esses mesmos sujeitos capitalizando politicamente suas idiotices climáticas como propaganda de “aquecimento global”, com a desgraça e a perda de vida de cidadãos brasileiros. É realmente de dar pena o descaso governamental com a nossa realidade.

Fechamos novembro e, no Estado de São Paulo, as tardes apresentaram típicas temperaturas do ar de como se estivéssemos indo para a estação sazonal de inverno. Que curioso que isso insista em ocorrer em plena “ebulição climática”.

Leia também: “A COP30 ‘flopou'”, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 298 da Revista Oeste

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