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O vírus das elites

máscara coronavírus

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O grande escândalo criado pelo coronavírus no Brasil, e a razão pela qual a mídia está em transe com essa história desde o seu começo – os psicólogos apontariam, aí, “sintomas de comportamento obsessivo” – é que a epidemia pega as elites. Se não pegasse, ninguém estaria ligando: desde quando alguém perdeu dois minutos de seu tempo pensando nas multidões inteiras que vivem morrendo em lugares como China, ou Bangladesh, ou África? Você talvez não se conforme em ser jogado no meio das elites, mas não tem jeito: nesse país onde o sujeito se dá por muito feliz quando consegue ganhar 1.500 reais por mês, toda a classe média é elite.

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Misérias como a do vírus chinês, que pegam em segundos e derrubam centenas de milhares de pessoas pelo mundo todo é coisa de pobre. Deveria ficar entre eles e não incomodar as moças e moços que se produzem para aparecer nos jornais de televisão, nem os médicos de hospitais que cobram diárias milionárias, nem os cidadãos que têm algum tipo de decisão a tomar a respeito. Infelizmente, não está sendo assim.

Esse diabo de coronavírus pega gente que viaja em voos internacionais, mora em condomínios onde os síndicos fecham as academias de ginástica com medo do contágio e vai fazer degustação de vinhos no norte da Itália – muitos deles pagando a prazo, é verdade, mas é esse o seu mundo. Infectou, Santo Deus, a comitiva do presidente Jair Bolsonaro que acaba de voltar dos Estados Unidos – dos Estados Unidos, a maior potência do mundo, e não da beira de algum rio malsão do sul do Pará onde ainda se pega maleita. Os conselhos que recebem dos meios de comunicação são um primor: sim, você pode sair para passear com o seu cachorro, mas não reúna amigos em sua “varanda gourmet”; sim, você pode sair com a sua bike, com capacetes e bretelles de primeiro mundo, mas não chegue perto de outros ciclistas. Etc. Etc.

Como no “Decameron” de Bocaccio, onde dez jovens bem de vida se refugiam numa vila do campo toscano para fugir à peste em Florença, nossa primeira classe escapa para as suas fazendas, casas de campo e condomínios rurais protegidos por forças de segurança equivalentes ao exército americano. Fala-se muito em Laranjeiras, Trancoso, esse tipo de lugar. A segunda classe tem de se contentar com refúgios mais modestos, mas quem pode também se esconde – em algum lugar.

Esse é o começo, o meio e o fim da história toda.

Ninguém está ligando a mínima para a saúde pública – nem as autoridades e nem a elite assustada. Jamais ligaram, em toda a vida. Porque iriam ligar agora? Só se tocam por que acham que dessa vez o bicho pode pegar rico, político,empresário, celebridade, jornalista, gente culta e por aí vamos. Não é nem uma questão de dinheiro; é uma questão de posição social, que fica tanto mais grave quanto mais alto é o galho no qual você está montado.

A saúde pública continuará a droga que sempre foi. Coronavírus? Ninguém precisa de coronavírus para morrer no SUS – por falta de atendimento médico correto, falta de remédios, falta de equipamento, falta de leitos , falta de tudo. Estão morrendo há mais de 30 anos, sem uma mesa redonda de televisão nem editoriais indignados pra mencionar o assunto. Este é o Brasil que existe.

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44 comentários
  1. Nelson Augusto Rigobelli
    Nelson Augusto Rigobelli

    Senhor Guzzo
    Boa noite
    Após sua indicação, acabo de ler este seu magnifico trabalho, justamente
    destacando que essa virose, atacando de cima para baixo da pirâmide social
    motiva todo esse aparato, usado então para fins políticos.
    O saudoso Chico Anísio em um quadro, dizia: “Pobre que se lixe….”

  2. Vânia
    Vânia

    Maravilhoso mestre Guzzo!
    A verdade exposta com realidade e se sensatez lava a alma de simples afegãos como nós!
    E continuaremos morrendo nos SUS da vida até que nos purifiquemos de tantos homens mal! Obrigado Guzzo por falar por nós !

  3. Claudio Oliveira
    Claudio Oliveira

    Boa tarde!
    Verdade nua e crua.
    Parabéns pelo artigo.

  4. dierson lima
    dierson lima

    A imprensa viu uma oportunidade no coronavirus para atacar o presidente.

  5. Maroog
    Maroog

    Certíssimo, Guzzo. Talvez o coronavírus tenha arranhado a bolha onde vivem estes habitantes do faz-de-conta. Decerto a resposta à pandemia irá ajustar-se à medida em que forem expostas mais pessoas e os sistemas imunológicos se adequem a este novo antígeno.
    A elite continuará em trancoso e laranjeiras e a maioria continuará trabalhando para eles e para a casta política.

  6. Benedito
    Benedito

    É uma guerra Planejada e barata
    Conseguiram matar sem atirar

  7. Ana Maria Campos
    Ana Maria Campos

    Excelente artigo! Racional e verdadeiro em suas palavras.

  8. Fernanda Corrêa
    Fernanda Corrêa

    Perfeito e lúcido como sempre Guzzo. Parabéns pela lucidez tão necessária neste momento de atitudes midiáticas.

  9. AFONSO RIBEIRO
    AFONSO RIBEIRO

    Caro Guzzo, outro fator que explica o transe/obsessão da mídia e o fato de que ela enxerga no agravamento da situação social e econômica do país uma possibilidade de enfraquecimento político do Governo Federal e até mesmo a deposição do presidente.

  10. Paulo Matulle
    Paulo Matulle

    Basicamente é o mesmo pensamento. De todos que viram o fato desse descontrole todo da mídia. Muito bom o texto.

  11. Aline
    Aline

    Aliás, se não fossem os ricos, este vírus não teria viajado de avião ou de navio até aqui.

  12. Atila Pessoa Costa
    Atila Pessoa Costa

    Apesar de este ser um retrato duro, estamos vendo uma reação positiva da saúde brasileira diante do termo pandemia.

  13. maria alice
    maria alice

    Guzzo,maravilhoso,como sempre!!!??????????????????????

  14. Dom Afonso
    Dom Afonso

    Me desculpe o autor e quem mais couber, mas faltou falar do recorte etário. Trata-se de um vírus que só começa a ser remotamente perigoso a partir dos 60 anos de idade. Como os donos do poder político e econômico são dessa faixa etária, ordenam o fechamento do país e o consequente apocalipse econômico porque é a melhor solução para eles, que têm todos os recursos necessários para sobreviver sem uma economia funcional no país. E isso com um vírus cuja maior taxa de mortalidade, nos casos mais extremos, não tem passado de 15%. O que aconteceria se essa taxa fosse de 50%? Se desta vez os brasileiros não se conscientizarem do nível em que as suas elites são vermes rastejantes, não tem mais jeito.

    1. Tadeu
      Tadeu

      Fico feliz do vírus ser democrático. Todos neste momento estão com a mesma batata quente nas mãos.

      1. Hiram Pascoal
        Hiram Pascoal

        Não acho que faça muito sentido este seu texto. Os argumentos são frágeis demais.

      2. Anderson Sampaio Rodrigues
        Anderson Sampaio Rodrigues

        O que é “elite”, é o camarada que tem um carro melhor do que o outro???

    2. Sebastião Carlos Sobrinho
      Sebastião Carlos Sobrinho

      Exatamente. Se não atingisse as elites, as cidades e os campos estariam cobertos de carne em estado de putrefação e os resorts estariam em festa por seis meses.

  15. Paulo R. Brasileiro
    Paulo R. Brasileiro

    Grande mestre Guzzo, sempre muito preciso e matador. Parabéns!!!

      1. Helenilson
        Helenilson

        Perfeito, é exatamente assim. Parabéns Guzzo, sou seu fã.

      2. FABIO BORGES DE AQUINO
        FABIO BORGES DE AQUINO

        É preciso lembrar de que eles nunca se importaram com o fato de que, nas gestões petistas, foram fechados mais de 40 mil leitos do SUS.

      3. Iraci Ferreira de Araújo Jorge
        Iraci Ferreira de Araújo Jorge

        Penso que uma das raivas insanas da imprensa, dos políticos e de quem ganha com a miséria sanitária e econômica do Brasil É QUE O NOSSO PRESIDENTE QUER MUDAR ISSO!
        Mas os urubus políticos e a mídia NÃO QUEREM DEIXAR. Afinal, urubus NÃO VIVEM SEM CARNIÇA!!!

      4. Jota Wolf
        Jota Wolf

        Melhor resposta! postei no meu Twitter com seus créditos.

      5. Maerson David França
        Maerson David França

        Verdade!! Como sempre. Inteligência a serviço da boa análise.

      1. Gustavo
        Gustavo

        Perfeito! Mostrou toda realidade brasileira.
        E o que eu penso.

      2. Daisy
        Daisy

        Adoro seus textos, Guzzo, mas deixo aqui as perguntas que eu tenho feito quando leio um texto assim: se vc fosse o dono do mundo e pudesse resolver essa pandemia, o que vc faria? Quais seriam suas medidas? Onde vc mudaria? Não tenho obtido respostas.

      3. MARIA BERNARDA C. CORDEIRO BERNARDA
        MARIA BERNARDA C. CORDEIRO BERNARDA

        Parabéns Guzzo pela excelente matéria. Nesse sentido, foi que a Globo estendeu o JH em quase 2h de notícia, praticamente, sobre o COVID19, em que âncora desse jornal mais parece uma top model do que uma jornalista de fato, ao exibir a cada dia seu guarda-roupa que deixa qualquer espectadora morrendo de inveja.

    1. João Avelino Neto
      João Avelino Neto

      Vc calou fundo nas elites poderosas, eles vão cair pois são passado, velhos que se remoçam nos cirurgiões plásticos mas esse remendo não os faz jovens renovados.

      1. Cleiber Teixeira
        Cleiber Teixeira

        Tudo como sempre , a classe média alta viajando trazendo vírus. A classe C , D e F traz comida , queijo , etc . A primeira é atendida no Sírio libanês , Einstein , a segunda sem estrutura para atendimento . A primeira com profissionais todos com EPIs , a segunda com denúncias para Adquiri-los. Brasil , pensei que não viveria para ver sua cara.

    2. Iraci Ferreira de Araújo Jorge
      Iraci Ferreira de Araújo Jorge

      Penso que uma das raivas insanas da imprensa, dos políticos e de quem ganha com a miséria sanitária e econômica do Brasil É QUE O NOSSO PRESIDENTE QUER MUDAR ISSO!
      Mas os urubus políticos e a mídia NÃO QUEREM DEIXAR. Afinal, urubus NÃO VIVEM SEM CARNIÇA!!!

    3. Marini Palmeira
      Marini Palmeira

      Corretíssimo em sua explanação, esse vírus não escolhe classe social ou título que as pessoas possuem. Pode acontecer tanto com um sem-teto quanto à rainha da Inglaterra.

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