publicidade
Sem Categoria

Democracia da cueca

O mais chato é que o cidadão ainda tem de aguentar a discurseira dos grandes vultos da nossa vida pública exigindo o “respeito às instituições”

Rodrigues ianomâmi
O senador Chico Rodrigues | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

J.R. Guzzo

Publicado na Gazeta do Povo, em 22 de outubro de 2020

Receba nossas atualizações

senador
| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Imagine por um instante – mas só por um instante; tente pensar em alguma outra coisa o mais rápido possível – que o senador que foi pego em flagrante escondendo dinheiro na cueca tivesse sido mais esperto do que foi e, com isso, pudesse ter enganado o rapa da polícia. Ninguém teria ficado sabendo de nada, não é mesmo? Imagine, então, o que teria acontecido na vida real. Esse homem, por mais demente que a coisa possa perecer, teria votado na aprovação do novo ministro do Supremo Tribunal Federal, a “corte” ótima e máxima da justiça brasileira. É isso mesmo: um indivíduo acusado de ser ladrão, e ladrão de dinheiro que deveria ter ido para o combate da Covid-19, nomeia o supremo magistrado que tem de julgar, justamente, os acusados de ladroagem. É essa a regra, no Brasil. São essas as “instituições”.

O senador da cueca só não votou porque os colegas, que estão fechados com ele, acharam que assim também já seria demais; arrumou-se uma “licença de 90 dias” para o homem e a safadeza, como acontece em 10 a cada 10 vezes no Senado Federal, foi toda para baixo do tapete. Os 81 senadores da República, agora, vão esperar que a história esteja esquecida daqui a três meses; aí, quando ninguém estiver mais lembrando, o Sr. Cueca volta de fininho para a sua cadeira, é cumprimentado afetuosamente pela companheirada por ter escapado dessa e pode dedicar-se em paz à retomada de seus projetos. Não pode ser de outro jeito: a maioria (totalidade?) dos senadores brasileiros é, pura e simplesmente, a favor de meter a mão em dinheiro público – embora possam preferir outros lugares para escondê-lo da polícia. Se são a favor do roubo, não podem ficar contra quando um colega é pego roubando.

A coisa está fechada pelos sete cantos – não há mínima possibilidade de que o público pagante possa se defender do Senado e da Câmara de Deputados que estão aí, nem do STF e do resto da tribunalzada que se espalha do Oiapoque ao Chuí. Se por algum motivo o senador da cueca tiver de ficar afastado do cargo por mais de 120 dias, nossas instituições sagradas mandam que o lugar seja entregue ao “suplente”. E quem é esse “suplente”? O filho do próprio senador que foi flagrado enfiando dinheiro nas roupas íntimas. Ou seja: é rigorosamente impossível, pelo que está estabelecido na Constituição Federal, qualquer incômodo real para os delinquentes do Congresso. Sai o pai, entra o filho, e a verba da Covid-19 continua à disposição da família.

O mais chato é que o cidadão ainda tem de aguentar a discurseira dos grandes vultos da nossa vida pública exigindo o “respeito às instituições” – e as caras aflitas dos locutores de telejornais do horário nobre, em seu surto permanente de defesa da “democracia”. Instituições e democracia no Brasil são o senador da cueca, seu filho e tudo o que vem junto. O resto é conversa.

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. jose angelo baracho pires
    jose angelo baracho pires

    O nosso João Baptista Figueiredo, ilustre último PRESIDENTE da DEMOCRACIA MILITAR instituída – À PEDIDO DAS FAMÍLIAS DE TODO O BRASIL – Se vivo estivesse, tinha sangue nos olhos para fazer valer a única brecha, equivocadamente deixada pelos comunistas na carta nada cidadã de 88. Avisara às FFAA, instituição a que pertencia, que em 20 anos pós eleições diretas, o Brasil já estaria em mãos de genocidas: certeira previsão. Conhecemos o mensalão e a índole do STF, à frente Joaquim Barbosa liberando seu amigo Lula da Silva. Só podia cair no petrolão. FORAM 28 ANOS DE CONLUIO ENTRE OS 3 PODERES, maquinado na Assembléia Constituinte. Quem dera Bolsonaro fosse MILITAR da ativa, o Joaquim isentão e omisso à época, o destacou como o ÚNICO a ñ meter as mãos na grana que rolava. Fatos.
    A nossa PRESTAÇÃO DE CONTAS c o CONGRESSO é IMINENTE pós quarentena, pela PRISÃO em SEGUNDA instância e fim do foro privilegiado. Só depende do POVO UNIDO, mudar o rumo sido Brasil, tirá-lo do limbo, que estará enqto ñ apartamos o q resta de entendimentos cleptocratas, a dependência entre o congresso e o STF.

  2. Júlio Rodrigues Neto
    Júlio Rodrigues Neto

    O mais correto seria dizer, ao invés de Estado Democrático de Direito, “ Estado Anti-Democrático de Delito “. Isto é o fruto da Constituição CidaDANO.

  3. PAULO GOUVEA
    PAULO GOUVEA

    Alguém ainda imagina que a política brasileira possa ser resolvida com diálogo? Juizes do STF, Senadores, Deputados deste país não têm medo de ninguém. São intocáveis.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.