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Presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Edição 325

O patriotismo dos farsantes

Lula, o PT e seus satélites topam qualquer parada na busca por eleitores porque não sentem constrangimento em adotar posturas que contrariam o que sempre fizeram

A proximidade de eleições tende a submeter os políticos a hábitos que não constam de sua rotina. A começar pelo cardápio, que passa a incluir itens como pastel de feira, pão na chapa e sanduíche de mortadela. Embora possam ser deliciosos e estejam presentes no dia a dia de muitos cidadãos, não costumam integrar os requintados menus saboreados às custas do dinheiro dos pagadores de impostos. Prato típico do sertão nordestino, a buchada de bode é incluída com frequência nas refeições dos que buscam o voto a qualquer preço. Não importa se atende ao paladar, o que conta é parecer popular, e para isso a buchada vale tanto quanto uma passada de mão na cabeça de crianças carentes.

Lula, o PT e seus satélites sempre se mostraram dispostos a ir muito além da dieta flexível na busca por eleitores porque não sentem constrangimento em adotar posturas que contrariam aquilo que sempre fizeram. Na mais recente investida para reverter a queda de popularidade, Lula conclamou os militantes da seita da qual é fundador, presidente de honra, líder vitalício e guru, a tomar de assalto as cores nacionais. “Essa é uma coisa que a esquerda vai que aprendê a fazê. A gente vai que nesta Copa do Mundo andá de verde e amarelo pra não deixá que as cores do Brasil seja tomada por nenhum fascista”, disse o exterminador de infinitivos e plurais para delírio da plateia amestrada.

Ao menos foi sincero. “A esquerda vai ter que aprender.” E não vai ser fácil. As cores da nossa bandeira sempre causaram calafrios na turma cujo sonho é cobrir o país de vermelho. Em 2004, no primeiro mandato de Lula, sua mulher, a hoje falecida Marisa Letícia, mandou ornar os jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto, residências oficiais da Presidência da República, com sálvias vermelhas plantadas em forma de estrela — marca do partido e símbolo mundial de organizações socialistas e comunistas. Por certo não lhe ocorreu usar flores amarelas para contrastar com o verde presente em folhas, arbustos e na grama ao redor. Nenhum patriota de ocasião a alertou para a proibição de se modificar um patrimônio público tombado.

Estrela vermelha no jardim do Palácio da Alvorada | Foto: Reprodução/Lula Marques

Já no início do primeiro mandato, em 2003, o vermelho se intrometeu entre o verde, amarelo, azul e branco da bandeira nos logotipos oficiais do governo federal. A nova cor “nacional” ultrapassou as fronteiras a bordo de marcas como a da Embratur, por exemplo, e depois ganhou o mundo no material alusivo à Copa do Mundo de futebol em 2014. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o vermelho foi retirado de todos os símbolos oficiais. Com a volta do PT ao poder, a cor retornou ainda mais forte.

Foto: Reprodução

“Nossa bandeira jamais será vermelha” tornou-se bordão associado aos conservadores que, durante muitos anos, tomaram as ruas vestindo verde e amarelo não somente para apoiar Bolsonaro, mas também para protestar contra Lula, integrantes do Supremo Tribunal Federal ou leis que vão de encontro ao desejo da maioria. A camisa da Seleção Brasileira de futebol dominou o cenário pelo simples fato de que muitos já a tinham no armário e ainda serve para torcer. Enquanto isso, PT e associados seguiam usando vermelho, cor que representa muitas coisas, menos o Brasil.

Manifestante no dia 7 de setembro neste sábado, 7 | Foto: Tauany Cattan/Revista Oeste
Manifestante no dia 7 de setembro | Foto: Tauany Cattan/Revista Oeste

A percepção de que desprezar as cores nacionais não era bom negócio demorou, mas chegou. Em 2018, na iminência de perder a eleição presidencial para Bolsonaro, o PT entendeu que era melhor esconder as origens e retirou do material da campanha de Fernando Haddad não só o vermelho, mas em muitos casos também o nome do partido, o número e a menção a Lula, que estava preso em Curitiba, condenado por corrupção em três instâncias. Apareciam apenas, e com as cores nacionais, os nomes de Haddad e da candidata a vice, Manuela d’Ávila, integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), hoje filiada ao Psol.

Em 2018, o PT escondeu o vermelho e a figura de Lula e adotou as cores nacionais para tentar salvar a campanha de Haddad | Foto: Reprodução

Na ocasião, Haddad e Manuela protagonizaram um ato de contorcionismo que pode ser classificado como de cunho místico-ideológico. Em 12 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno do pleito, de olho no eleitorado cristão do qual, por razões óbvias, sofriam forte rejeição, o socialista discreto e a comunista declarada assistiram a uma missa em devoção a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Não viram problema em contrariar Karl Marx, um dos mentores do socialismo/comunismo, que considerava religião “o ópio do povo”. 

Nos últimos anos, Lula e o PT deram passos claudicantes na tentativa de se associar não somente ao verde e amarelo, mas ao conceito mais abrangente de patriotismo. Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acenou com tarifas mais elevadas para o país, aplicou a Lei Global Magnitsky ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e cancelou vistos de integrantes do STF e de outras autoridades, Lula adotou o discurso da afronta à soberania. Ainda que as principais medidas tenham sido revogadas, a estratégia se manteve.

O mesmo argumento é utilizado agora que os EUA classificaram as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Para o governo, grupos fora da lei dominando territórios e dando as cartas do que pode e o que não pode ser feito em muitas cidades brasileiras, incluindo algumas das principais capitais, não representam ameaça à soberania e não devem ser chamados de terroristas. Já os manifestantes desarmados presos por causa das manifestações de 8 de janeiro de 2023 se enquadram nos dois casos. Do mesmo modo, colaborar com o governo americano no combate ao crime organizado fere a soberania, mas prestar vassalagem a ditaduras, não.

Apostar no verde e amarelo que sempre desprezaram, fingir apreço à fé que jamais cultivaram ou apelar para o discurso da soberania que nunca fizeram questão de preservar diante de regimes totalitários amigos é tudo parte do mesmo pacote. Chama a atenção, mas não surpreende vindo de quem vem. Fingir ser o que não é faz parte do figurino. “Tenho que mentir, é preciso mentir, o político tem que mentir”, confessou Lula em um podcast. Em seguida, disse que “tem muitos políticos no Brasil que não mentem, que são pessoas sérias”. Tem eles e tem Lula.

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