Antes de julgar a decisão de Washington de impor novas tarifas comerciais ao Brasil por práticas “irrazoáveis” que prejudicariam empresas americanas, uma análise de nossa realidade é necessária. Afinal, muito do que falam de nós, já sabemos. E um mínimo de honestidade intelectual, de lá e de cá, basta para mensurar excessos nas acusações e o exato tamanho de nossa omissão como país. No Brasil de verdade, de quem trabalha e produz — que é muito diferente do de Lula — querem-se soluções. Porque queremos seguir adiante como nação. Esqueça o país do coitadismo, do futuro que nunca chega, do populismo atroz, do voto de cabresto para a população mais pobre e dos contratos de cabresto para empresários e banqueiros sem escrúpulos. Ninguém mais aguenta esse governo que está aí. Um governo que quando não insiste no erro, protela nas autocorreções por incompetência nata ou interesse eleitoreiro. Nas recentes acusações da Casa Branca, o governo Lula, em vez de agir sob o interesse público e atuar com diplomacia de gente grande, reage com o espírito de um populista enquadrado pelos próprios erros e abusos. Lula não representa o Brasil. Lula só se interessa por ele e trata o país como um palco para sua reeleição.
Uma análise técnica de quem está interessado em resolver problemas, preservar a indústria, a economia e os exportadores nacionais nos levaria a uma atuação mais sensata e responsável diante do caso. O governo Lula preferiu o confronto barulhento. E erra na escolha movida a ideologia mofada. O relatório do governo americano, baseado na investigação da Seção 301, é um estudo aprofundado das relações comerciais que potencialmente estariam prejudicando empresas americanas, não um rompante político meramente protecionista. A resposta precisaria vir com argumentos técnicos para demonstrar erros da acusação e o estabelecimento de metas de autocorreção. E acredite, temos ambos. Em uma primeira parte, podemos facilmente demonstrar com evidências inequívocas que parte das reclamações do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, é exagerada ou fora de lugar. Mas a outra parte do que governo norte-americano nos acusa é realmente verdadeira e prejudica igualmente a economia e as empresas brasileiras. Como se negar a resolver o que também nos aflige? O governo Lula, reconheçamos, não tem feito o dever de casa há muito tempo. O ambiente de negócios no país é ruim e inóspito às empresas brasileiras muito antes de afetar qualquer empresa estrangeira. Acontece que, agora, os EUA decidiram proteger os negócios deles. Se Lula fosse um pouquinho sério e tratasse o imbróglio com postura republicana, correríamos o sério risco de, ao nos corrigir, beneficiar a nós mesmos antes das empresas americanas. Pondero a seguir sobre os temas mais relevantes do relatório final do USTR, das práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA:
Comércio digital e serviços de pagamento (isso inclui o Pix e a regulação das redes sociais)

O Brasil tem o que defender. O Pix é um produto do talento nacional pensado para problemas nacionais. Resultou no mais eficiente instrumento de inclusão econômica, de bancarização e democratização no acesso a ferramentas financeiras no país. Com mais de 250 milhões de transações por dia, é usado por 83% da população. A alegação americana de concorrência desleal para as operadoras de cartão, como Mastercard e Visa, não procede. No Brasil, essas operadoras não se mostraram uma alternativa viável porque impõem custos mais altos e copiam o que há de pior no país: altas taxas de juros para empréstimos, mesmo tendo acesso privilegiado a recursos no exterior que poderiam baratear o crédito no país e “ganhar” a concorrência. Além do mais, o Pix funciona a partir de uma conta formal aberta num banco, com todas as transações com origem e destino conhecidos. O Pix é um aliado no “follow the money” para casos de lavagem de dinheiro. De fato, o Pix não parece ser o alvo das tarifas, mas os meios digitais de pagamento das big techs — como X, Meta e Google —, afetadas pelo bloqueio de contas e remoção de conteúdo por censura do STF. Aqui, não há defesa. A censura, vedada pela Constituição Brasileira, corre solta e pune primeiramente os brasileiros. É um acinte que uma parte considerável da sociedade tenha apoiado a censura. Vão esconder isso agora? Já é tarde. Volto ao tema mais adiante.
Tarifas preferenciais desleais
Diplomacia básica e ampliação de acordos comerciais baseados em lógica econômica e não em ideologia antiamericana resolveriam o problema. Ao ameaçarem com tarifas, os EUA pressionam pela negociação, algo que o governo Lula desdenha e evita fazer com os EUA por motivos de pequenez institucional e interesse eleitoreiro, relegando a economia e as empresas brasileiras a um segundo plano. Não por acaso, foi o setor privado que se dedicou a negociar no tarifaço anterior, abandonado que foi pela diplomacia politizada e ineficiente do governo de agora. É fato que a tarifa média brasileira de importação, de 13-14%, é muito maior que a dos Estados Unidos, de 4%. O saldo da Balança Comercial favorável aos EUA é um trunfo na negociação. Meia dúzia de diplomatas trabalhando sem influência política resolveria a questão.
Desmatamento ilegal
O Código Florestal Brasileiro é o mais severo do mundo, variando de 20% a 80% da propriedade que precisa preservar, mantendo essa área praticamente intocável por força de lei. Em nenhum lugar do planeta há similar. Isso se soma à maior área de floresta preservada do mundo e ao uso histórico de energia limpa, como a hidrelétrica ou do etanol, renovável e com captação de carbono pelas plantações de cana-de-açúcar. Os casos de desmatamento ilegal são assunto de polícia. A falha do governo brasileiro na fiscalização e na contenção pode ser solucionada com policiamento mais ostensivo e políticas adequadas. O Brasil não desmata como decisão de Estado ou porque permite maior uso de terras agrícolas. Ao contrário, com um agronegócio tecnológico e eficiente, produz cada vez mais em menos terra. Os números são altamente positivos numa negociação a favor de nós, mas não nos isentam de maior eficiência na fiscalização, sem punir o produtor legal.

Acesso ao mercado de etanol
O Brasil tem uma tarifa de 18% sobre o etanol vindo de produtores americanos. Ao exportar, paga apenas 2,5% de tarifa. A assimetria é inquestionável no protecionismo da indústria nacional. Ainda assim, é outro caso em que a diplomacia profissional e sem influência do lulismo pode chegar a um bom termo. O mercado crescente dos carros bicombustíveis, cujos donos privilegiam o uso do etanol, demanda mais produção. Além do que, a oferta interna vive com oscilações historicamente desfavoráveis ao consumidor brasileiro. Basta o preço do açúcar no mercado internacional subir e as usinas são convertidas a produzir menos etanol e mais açúcar. Um acordo com os EUA poderia calibrar o mercado interno e diminuir a influência de usineiros, beneficiando o consumidor local. Para isso, é preciso sair da redoma de Brasília, colocar os pés no asfalto e sentir a poeira do estradão do país real, não a Versalhes decadente e brega dos poderosos da capital.
Proteção da propriedade intelectual
Aqui, ou o Brasil precisa assumir que falhou ou não vai adiantar dourar a pílula. Irritar-se com os americanos será inútil. Como explicar que o mercado ilegal no Brasil gerou R$ 514 bilhões de prejuízo com falsificação, contrabando e pirataria de produtos apenas em 2025, segundo levantamento da Associação Brasileira de Combate à Falsificação? Não dá. O Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade tem um número um pouco menor, ainda assim um recorde: R$ 473,2 bilhões no ano passado. E isso não reduz apenas o lucro de empresas que entregam produtos originais. Derruba a arrecadação de impostos de prefeituras, governos estaduais e do federal, atolado em rombos que cria sem parar por irresponsabilidade fiscal. Mais grave: o produto falsificado ou adulterado expõe o consumidor e a saúde pública, além de alimentar redes de criminosos com atuação no país e no exterior. A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelo Departamento de Estado dos EUA, dias antes, é a confirmação do Brasil fora da lei, que exporta crime e criminosos. Alguém realmente acreditava que esse dia não chegaria? Que há um ganho eleitoral para o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, não há dúvida. Mas se o governo atual tergiversa ou até passa a mão na cabeça (Lula chamou de “nossos criminosos” ao reclamar da decisão do secretário de Estado Marco Rubio), o mundo não parece mais disposto a ficar inerte diante do absurdo. Até porque o Brasil é também o quinto maior consumidor de pirataria digital do mundo. A “gatonet”, operada pelo crime organizado em favelas ou áreas sitiadas por essas facções, já foi considerada a segunda maior operadora de TV a cabo do país. É um combo de ilegalidade exposto em praça pública. A pressão americana neste caso só obriga o Brasil a fazer a lição de casa de seguir a própria lei. Se combater o crime aqui, se devolver a soberania aos moradores dessas áreas tomadas por um Estado paralelo, os ganhos serão primeiramente à economia local, além de devolver a dignidade do ir e vir aos próprios brasileiros. Os interesses americanos vêm como um efeito colateral positivo, mas antes quem ganha somos nós.
Combate à corrupção

Quem em sã consciência diria que o Brasil se livrou da corrupção com o escândalo do Banco Master batendo à porta dos Três Poderes de Brasília? Lula é um condenado em três instâncias por corrupção passiva e formação de quadrilha, só se tornou presidente depois que o STF inventou a malfadada “Lei do CEP”, anulou os atos da Justiça Federal de Curitiba e foi resgatado do cárcere pelos ministros do Supremo para ser o candidato do sistema em 2022. Nunca foi considerado inocente. Ao retornar ao poder, depois do auge do Mensalão em seu primeiro mandato, e ver o Petrolão no governo Dilma, sua sucessora, já teve roubo de aposentado do INSS e o Master. Neste último caso, Lula aconselhou o dono, Daniel Vorcaro, hoje preso por decisão do ministro André Mendonça, a não vender o banco ao BTG e aguardar a posse de Gabriel Galípolo, seu indicado, no Banco Central. Detalhe: a reunião aconteceu dentro do gabinete presidencial sem constar na agenda. O que tanto escondiam?
Fato é que a corrupção significa concorrência desleal em seu estado mais bruto. Prejudica concorrentes brasileiros ou estrangeiros que jogam limpo e reduz os ganhos de acionistas aqui e lá fora. Dois dos ministros da mais alta Corte do país mais próximos do governo Lula, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, são o resumo da bandalheira que os gringos não se recusam a enxergar. Alexandre é o patrono de todos os abusos constitucionais contra a liberdade de expressão e os demais direitos elementares, além de ter a mulher contratada por Vorcaro pela bagatela de R$ 129 milhões, sendo R$ 80 milhões efetivamente pagos até que o escândalo eclodiu. Foi ele também que multou o X, a plataforma de Elon Musk, e mandou a Starlink pagar, um outro CNPJ que apenas tinha Musk como acionista. Não existe abuso parecido no planeta. Existiu no Brasil de agora, alvo da Casa Branca. Toffoli, indicado por Lula à Corte, tem anulado acordos bilionários de leniência em que empresas do Petrolão assumiram a corrupção e aceitaram pagar pelo prejuízo que causaram. Neste caso, sejamos justos, o Brasil de Lula piorou o que havia melhorado com a Lava Jato. Não só deixou de fazer o dever de casa como piorou o ambiente. De novo, se houvesse um combate à corrupção sistêmica que novamente assola o Brasil, seriam as empresas brasileiras e os brasileiros os primeiros a serem beneficiados.
Lula não concorda e nada fará por isso. A proximidade da eleição de outubro, a alta rejeição de seu governo e o seu populismo desavergonhado o impedem de fazer o certo. Daí, dobra a aposta na narrativa de soberania afrontada pelos EUA. Uma bobagem! Do presidente não se deve esperar nada. Mas o que farão as empresas e os bancos? Todos eles sabem da realidade brasileira e que a eventual tarifa de agora não é afronta à soberania, mas sim uma oportunidade de negociação e de autocorreção. Comprarão a tresloucada e esperta narrativa do governo uma vez mais ou vão expor Lula e sua incompetência em resolver internamente os problemas que os afligem antes de qualquer investidor estrangeiro? Vão exigir diplomacia pragmática, técnica e responsável em nome do interesse nacional ou ficarão com medo de perseguições do aparelho governamental do PT nos órgãos federais e na Justiça?
O Brasil não é para amadores, tampouco o é para quem não tem a coragem de lutar pelo país. Veja que a omissão, o medo ou a estratégia populista eleitoral de Lula, que evita apresentar as defesas que temos e se comprometer com correções que devemos a nós mesmos, só piora o quadro. Não bastassem as primeiras acusações do USTR, agora tem mais uma: o Brasil corre o risco de uma tarifa extra de 12,5% por falhar na proteção de trabalhadores em situação de trabalho forçado ou análogo à escravidão, incluindo-nos numa lista de 60 países abusadores de mão de obra. Que é uma vergonha a um presidente ou partido que se diz “dos trabalhadores”, ninguém tem dúvida. Mas nem o PT nem Lula são o Brasil da maioria. O problema é o constrangimento que isso nos causa como país, inclusive para quem joga limpo, que sempre terá de dar explicações adicionais.
A imposição de tarifas tem se demonstrado a principal ferramenta da Casa Branca para pressionar parceiros comerciais a se sentarem à mesa de negociação. É o que Lula evita porque terá de assumir seus erros ou expor o parceiro de consórcio, o STF, como vilão dos direitos humanos. O tacanho interesse eleitoreiro de Lula dita as regras e o Brasil acaba alijado de ser protagonista em negociações que lhe são vitais. Ou chega atrasado ou tem de se explicar depois do dano já estabelecido.
Ou se tira a eleição de Lula ou se tira Lula da eleição. O Brasil não sobreviverá com o presidente pensando apenas nele.
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