Ao contrário do que se vê na maior parte das grandes cidades do país, na região central de Brasília é comum alguém atender ao celular tranquilamente nas calçadas, em qualquer horário. Os garotos de bicicleta roubando os telefones, cena comum em qualquer outra grande metrópole brasileira, simplesmente não aparecem por ali. Numa área residencial do bairro Alphaville, no Setor Oeste, por exemplo, uma moradora se queixou do “aumento extremo da violência” no grupo de WhatsApp do condomínio. Naquela madrugada, alguém havia furtado um extintor em seu prédio. Dias antes, num endereço próximo, o problema foi o sumiço de lâmpadas pisca-pisca instaladas em jardins abertos na época do Natal.
Embora sejam delitos que não podem acontecer, eles são infinitamente menos graves que os crimes registrados na favela Santa Luzia, onde mora Alcilene Macieira Gal, 42 anos. “Quase toda semana, acordo com um carro incendiado perto da minha casa”, conta. “Os bandidos desovam os veículos e os incendeiam para sumir com as pistas. A gente vê o fogo e a fumaça e liga para a polícia.” A moradia fica numa área da chamada Cidade Estrutural, uma das regiões administrativas de Brasília. O lugar está a cerca de 20 quilômetros da Praça dos Três Poderes, que abriga as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A organização das ruas e dos edifícios projetados por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa contrasta com a completa falta de planejamento da casa de Alcilene. Na rua onde ela mora, não existe asfalto, nem esgoto, muito menos água encanada. A vista da janela dá para uma fileira interminável de barracos erguidos com tapumes de madeira e tijolos furados. As construções são semelhantes às que serviram de abrigo para os candangos, os operários que, 70 anos atrás, puseram a mão na massa para realizar o sonho de Juscelino Kubitschek e erguer a capital federal numa região ainda inóspita do Brasil.
“Quando chove, toda a água acumula na frente de casa”, reclama Alciene. “Há dois anos, a enxurrada quase levou um dos meus filhos. Ele tinha 10 anos na época. Foi por pouco. Eu tentava segurá-lo, mas ele ia se afogar se não fosse a ajuda de um desconhecido para salvá-lo. Se vem uma tempestade, a gente nem sai de casa, porque sabe que é muito perigoso. Quando o tempo fica seco, é poeira para todo lado e as crianças ficam doentes.”

Alcilene migrou há quatro anos, vinda de São Luís, no Maranhão. “Meu sonho era conhecer e viver em Brasília”, diz. “Com todas as adversidades, ainda estou melhor do que no meu Estado.” Sob o teto dela, vivem mais seis pessoas: quatro filhos e dois sobrinhos. O lugar é apertado. São dois pequenos quartos e a cozinha junto da sala. Na hora de dormir, fazem revezamento entre quatro camas e três colchões no chão. Do lado de fora, a insegurança não se resume às madrugadas com automóveis em chamas. Há ladrões, traficantes, bêbados, homens e mulheres violentos trafegando por todos os lados. Mesmo morando em frente a uma área do Exército, ela afirma que não tem coragem de deixar os filhos sozinhos brincando na rua. Na Santa Luzia, a taxa de homicídios é seis vezes maior que a média geral do Plano Piloto, onde reside o poder em Brasília. Em 2024, dado mais recente, foram 24 assassinatos para cada 100 mil moradores — em São Paulo, maior cidade do país, o índice não chega a 7 por 100 mil habitantes.
Em Brasília, essa realidade está longe de ser exclusividade de Alcilene. No Censo de 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 62 favelas no entorno da capital federal. Juntas, elas abrigam cerca de 200 mil habitantes. Algumas têm poucas centenas de moradores. Outras, dezenas de milhares. A Cidade Estrutural, por exemplo, tem 40 mil habitantes. A mais populosa, Sol Nascente, tem 71 mil. Entre eles está Karine Silva, 31 anos. A casa onde ela vive tem água encanada regular, com hidrômetros e cobrança mensal. Na conta, também há uma taxa pela coleta de esgoto, embora o serviço não exista. A falta dele transforma a rua em rio de dejetos na época das chuvas. “Quando as nuvens vão embora, vêm o mau cheiro e as doenças”, diz. “Meu sobrinho de um ano ficou um mês na UTI por problemas no pulmão causados por toda essa condição insalubre.”

Karine nasceu em Brasília. É filha de retirantes baianos que também sonhavam com a vida na capital planejada. A realidade são ruas mal iluminadas por onde o transporte público não entra e falta segurança até nas escolas — um dos maiores problemas para ela, que tem uma filha de 15 anos. Outros são o consumo de drogas e o aliciamento de menores.
No Morro do Sabão, área ocupada na Sambaia, outra das regiões administrativas do Distrito Federal, vive Érica Pereira dos Santos, 27 anos, mãe de cinco filhos, todos de parceiros diferentes. Ela mora com as crianças e a tia numa construção de dois cômodos, localizada numa viela estreita. Há poucos passos dali, passam córregos carregando os dejetos dos moradores. O mau cheiro piora conforme o sol deixa o dia mais quente. Dentro de casa, o dilema é sofrer com o odor ou com a alta temperatura do lugar fechado. Deixar as crianças enfrentarem o problema ao ar livre não é opção, e o maior perigo nem é o risco de contaminação, descobriu ela do pior jeito. “Poucos dias atrás, o homem que morava ao lado tentou violentar meu filho de 10 anos”, lembra. “Ele apareceu sem roupa, colocou o menino no ombro, entrou e se trancou, tudo muito rápido. Graças a Deus, outros vizinhos viram e, na mesma hora, arrebentaram a porta e o pegaram.”

O vigilante Messias Silva Cantanhede, 40 anos, é um dos vizinhos que participou do resgate. Pai de cinco filhos, o maranhense conta que se mudou para lá porque era mais barato comprar algo ali do que pagar aluguel. Embora não existam escrituras, os imóveis, ainda que de modo irregular, são vendidos com contratos de gaveta. Quase sempre, os valores realmente são modestos. Começam em R$ 10 mil. O custo embutido é o risco extremo. “Eu já não deixava nenhum dos meus filhos brincar fora de casa”, diz o segurança. “Agora, então, menos ainda.” O objetivo ao chegar à favela era prover melhores condições de vida para a família. Hoje, ele reclama da falta de liberdade. “A criminalidade aqui é muito grande”, afirma. “A polícia raramente vem. A limpeza pública também. É como se não fizéssemos parte da sociedade. Nem o posto de saúde aqui perto funciona. Há um ano, estou com dor no ouvido direito e tento me consultar com um especialista. Estou na fila, e tem muito mais gente na minha frente.”
A ausência do poder público é tanta que chegou ao ponto de um grupo de moradores fundar a Prefeitura Comunitária, ONG com CNPJ, votações e trabalho social constante. Os líderes são o casal Sandra Silva, 52 anos, e Délcio Pereira, 57 anos. Ele tem um pequeno lava-rápido e faz bicos, como a limpeza de terrenos. Ela é cobradora de ônibus. Há 10 anos, decidiram se organizar para cobrar melhorias no bairro. Na área onde moram, também há o fluxo constante de traficantes, sobretudo durante a madrugada.

“Durante o dia, essas ruas até são tranquilas, mas depois das dez da noite é diferente”, relata Délcio. Da janela da casa é possível ver o entra e sai de carros novos oriundos das áreas nobres de Brasília. Alguns, além de drogas, também procuram mulheres de várias idades, inclusive meninas novas, adolescentes com cerca de 16 anos, dispostas a muito para suprir o vício. Muitas vezes, o preço é o sexo consentido. Em casos mais extremos, o estupro coletivo, como aconteceu com uma vítima que não quis se identificar no Sol Nascente. Trata-se de uma mulher, com cerca de 20 anos, abusada por cinco homens dentro de uma boca de fumo. Depois da violência, a jogaram nua para fora da casa para vagar a esmo pelas ruas, até ser recolhida pelas irmãs Marly Conceição Quermes, 57 anos, e Gecineia de Lima e Silva, 51 anos. Em parceria com outros voluntários, as duas religiosas construíram o Coletivo Mulheres do Sol, centro comunitário dedicado a prover apoio a mulheres em situação vulnerável no Sol Nascente. A rotina envolve a distribuição semanal de 400 refeições, oficinas com ofícios como costura, além do socorro às vítimas — e elas são muitas. De acordo com as irmãs, a violência doméstica é outra constante. Certa vez, foi preciso esconder uma jovem no porta-malas do carro delas e tirá-la da favela na calada da noite para impedir seu assassinato.

De modo geral, o trabalho dos religiosos tenta ocupar as lacunas deixadas pelo Estado, ainda não completamente tomadas pela bandidagem. O crime organizado existe na periferia da capital, como no resto do país. A facção local mais famosa é o Comboio do Cão. Alguns dizem ser ligada ao paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). Outros, ao carioca Comando Vermelho (CV). Todos evitam falar dela.
Segundo o pastor Flávio das Chagas Santos de Jesus, 43 anos, a lógica financeira da igreja da favela da periferia é diferente da do centro. “O fiel não tem dinheiro para colaborar com o dízimo”, explica. “Eles mal conseguem o suficiente para o básico. A gente vive das doações de alguns empresários que conhecem nosso trabalho. Muitos deles nem evangélicos são.” Mas, mesmo com serviços sociais relevantes, o projeto quase foi desalojado pelas autoridades. O lugar chama-se Instituto Semear Vidas. A sede fica na mesma construção onde a igreja funciona. O religioso conta que toda a área onde repousa o bairro foi concedida décadas atrás para produção agrícola. Depois de alguns anos, o posseiro dividiu a terra em lotes e começou a vendê-los, com contratos de gaveta e sem escritura, para quem quisesse construir. Muros e paredes passaram a ser levantados por toda parte sem a reclamação imediata das autoridades.

Brasília conta com 24 deputados distritais, o governador e o vice-governador, além de abrigar os gabinetes do presidente da República, do vice-presidente, dos 513 deputados federais e dos 81 senadores que existem no Brasil. O batalhão somado passa de 600 políticos — e todos estão cercados por dezenas de assessores. Ainda assim, segundo os moradores, eles aparecem nas favelas apenas a cada quatro anos, nos meses de campanha eleitoral. Nessa época, as promessas batem à porta. Passado o pleito, o tráfico de drogas continua, a violência permanece, as obras para acabar com os problemas de infraestrutura não chegam, e Brasília finge que nada existe fora do Plano Piloto. De lá, o poder segue fingindo não enxergar a miséria que o cerca.

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200 mil tao próximos ao poder e letargicos em suas vidas sem perspectivas , enquanto milhares fretaram ônibus para protestarem contra esses desmandos vindos de outras cidades e agora muitos privados de suas liberdades , tinham muito mais a perder do que os retratados nessa reportagem , que lamentam mas nada fazem, provavelmente satisfeitos com seus salarios familia, e ainda acham essa situação melhor do que de onde vieram. Muito passivos. Isso é a colheita de não lutarem
Parabéns pelo artigo , Artur. Aproveitando o gancho, taí uma excelente oportunidade para os socialistas de plantão do PT,que pregam a distribuição de renda. Brasília concentra, talvez ,o maior PIB per-capita do Brasil , pelo grande número de servidores públicos com os maiores salários do país. Excelente oportunidade de transferir a riqueza desses servidores para esses moradores do ” entorno” ,que sempre são enganados por falsas promessas em época de eleição. Que tal, pegar 60% do salário de todo servidor do funcionalismo público de Brasília, acabar com penduricalhos agregados e investir bom ” entorno ” ? Seria uma atitude de justiça social, como prega a Cartilha Petista.
Estou pasma com essas notícias. É uma tristeza só 😢
Pelo motivo de passar num concurso público passei a residir em Brasília em 1979, este artigo descreveu a a realidade do atual DF ! Quando vim para cá , fugindo do Rio de Janeiro essa cidade era um paraíso, hoje virou um inferno como a maioria das cidades brasileiras !