publicidade
Foto: Midjourney
Edição 325

Guerra Fria e paranoica

Como sessões espíritas soviéticas e "visualizadores remotos" da CIA desencadearam uma corrida armamentista paranormal que a elite tecnocrata tentou esconder do público

Na edição de fevereiro de 2019 da Armeiiskii Sbornik, a revista oficial do Ministério da Defesa da Rússia, um artigo intitulado “Supersoldados para as Guerras do Futuro” chamou a atenção. O texto afirma, entre outros absurdos, que os militares soviéticos e russos aprenderam a controlar golfinhos, interromper transmissões de rádio e televisão e até derrubar computadores apenas com o poder da mente.

Esses experimentos psíquicos não são novos. Remontam a 1924, quando Gleb Bokii, o chefe da seção especial da polícia secreta soviética, abriu um laboratório clandestino em Moscou. Com a ajuda de Alexander Barchenko, seu “guru espiritual”, Bokii conduziu experimentos ultrassecretos sobre hipnose, lavagem cerebral e leitura de mentes.

Mas essas façanhas estavam longe de ser as mais excêntricas da Seção Especial. Bokii promovia orgias frenéticas em uma propriedade secreta nos subúrbios de Moscou. Os convidados cultivavam a terra, tomavam banho de sol, cozinhavam e comiam juntos — todos completamente nus — antes de se entregarem ao sexo grupal. Enquanto isso, Barchenko planejava uma expedição ao Tibete para encontrar o lendário Reino Budista de Shambhala. Ele acreditava piamente que uma civilização ancestral escondida sob a superfície da Terra detinha conhecimentos científicos avançados que poderiam ser usados para acelerar o caminho rumo ao comunismo. Quando o ministro das Relações Exteriores soviético, Grigory Chicherin, soube disso, barrou a proposta, mas deu sinal verde para uma outra expedição com o objetivo muito mais prosaico de sondar o sentimento antibritânico em Lhasa.

Barchenko propôs uma expedição ao Reino Budista de Shambhala, reino mítico | Foto: Reprodução

Experimentos psíquicos e a corrida armamentista

A Seção Especial deu o pontapé inicial em uma corrida armamentista paranormal que durou um século — com legados surpreendentes que ainda podem ser sentidos hoje, apesar do silêncio da velha mídia.

O fascínio russo pela espiritualidade exótica precede a era soviética. O orientalismo russo floresceu após o Tratado de Aigun de 1858, que concedeu ao czar terras que antes pertenciam à dinastia Qing da China. Exploradores e acadêmicos russos aventuraram-se pelo interior da Ásia, além de Xinjiang e do Tibete. A intelligentsia de São Petersburgo devorava seus relatos de viagem, estudos etnográficos e manuais espirituais. Na capital do império, a espiritualidade oriental encontrou as tendências europeias da new age (“nova era”): teoria da terra oca e meditação, reencarnação e sexo tântrico, lamaísmo e ciência oculta.

Bokii era ativo nos círculos estudantis ucranianos de São Petersburgo no fim da era imperial, período em que o nacionalismo romântico e o socialismo revolucionário floresciam na clandestinidade. Foi ali que ele provavelmente teve um contato inicial com as ideias da espiritualidade oriental e do ocultismo. Barchenko, também de origem ucraniana, era um estudante de medicina fracassado que se tornou um místico provinciano, autoproclamado cientista. Ambos os movimentos socialista e espiritualista vieram à tona com o colapso da dinastia Romanov e o golpe de Estado bolchevique em 1917.

A queda da dinastia Romanov e o golpe bolchevique abriram espaço para a união entre o socialismo revolucionário e o ocultismo de Bokii e Barchenko | Foto: Reprodução

A Revolução Russa não foi apenas uma mudança de governo. Quando as fronteiras da igreja, do czar e do império desapareceram, os revolucionários acreditaram que poderiam reconstruir uma realidade própria. Acompanhado de uma violência sem precedentes, o início do Estado soviético foi um laboratório de testes para ideias que haviam sido banidas ou suprimidas no Império Russo. Bokii e Barchenko estavam na vanguarda dessa revolução. Suas estripulias são descritas no livro Red Shambhala: Magic, Prophecy and Geopolitics in the Heart of Asia, de Andrei Znamenski.

No entanto, uma habilidade psíquica que Bokii e Barchenko sem dúvida não possuíam era a capacidade de antever o futuro — nenhum dos dois previu que seriam executados pelo líder soviético Joseph Stalin durante o Grande Terror. Mas seus experimentos tiveram vida longa, inclusive nos Estados Unidos.

Testes do Projeto Stargate

Em algum momento, em meados do século 20, o conhecimento sobre os experimentos psíquicos soviéticos cruzou o oceano. Em 1950, o jornalista americano e oficial da CIA Edward Hunter incluiu o termo chinês “lavagem cerebral” no vocabulário ocidental. Em artigos, depoimentos ao Comitê de Atividades Antiamericanas (onde sugeriu abertamente que os EUA deveriam ter bombardeado a Coreia do Norte com armas nucleares) e no livro Brain-Washing in Red China, ele alegou que a polícia secreta soviética havia ensinado técnicas avançadas de interrogatório aos comunistas chineses, usadas posteriormente contra prisioneiros de guerra americanos na Guerra da Coreia.

Em 1972, Hal Puthoff, engenheiro elétrico com doutorado em Stanford, começou a conduzir experimentos “parapsicológicos” no Stanford Research Institute. Segundo Puthoff, ele foi abordado pela CIA, que o informou sobre pesquisas similares dos soviéticos e passou a financiar suas atividades. Assim nasceu o Projeto Stargate, um programa de pesquisa sigiloso para investigar como fenômenos psíquicos poderiam ser usados para fins militares e de inteligência — mais tarde imortalizado (e ridicularizado) no filme Os Homens que Encaravam Cabras (2009).

Os resultados do Stargate são motivo de chacota para uns e fascínio para outros. Em uma entrevista de 2005, o ex-presidente Jimmy Carter afirmou que uma vidente da Califórnia que trabalhava com a CIA conseguiu localizar um avião acidentado — um bombardeiro soviético Tupolev Tu-22 — em uma selva africana. A mulher entrou em transe e anotou coordenadas que os americanos usaram para recuperar a aeronave. Carter chegou a questionar se aquilo era “apenas uma grande coincidência”. Já no podcast de Joe Rogan, Puthoff afirmou que um “visualizador remoto” — uma espécie de clarividente — da CIA relatou a existência do submarino soviético da classe Typhoon antes mesmo de ser do conhecimento público.

O Projeto Stargate investigou o uso de fenômenos psíquicos para criar espiões paranormais e ferramentas de inteligência militar | Foto: Reprodução/CIA

Mas até que ponto isso seria verdade? Um relatório da Agência de Inteligência de Defesa de 1983 concluiu que os dados do Stargate eram “extremamente variáveis” e “misturados com informações irrelevantes ou imprecisas”. Essas dúvidas levaram ao Projeto Grill Flame — uma tentativa de estabelecer se a visualização remota era replicável, avaliar ameaças estrangeiras e desenvolver contra-ataques.

O Grill Flame concluiu que a “visualização remota é um fenômeno real” e que existia uma “ameaça potencial à segurança nacional dos EUA vinda de conquistas estrangeiras em psicoenergética”. Documentos do projeto também alegavam que, na União Soviética, essa pesquisa era “bem financiada e recebia apoio do alto escalão governamental”.

Soldados que liam mentes

Infelizmente, poucos documentos do lado soviético dessa “Guerra Fria Psíquica” viram a luz do dia — embora alguns rumores indicassem que eles teriam sido revelados. Em uma entrevista de 2015 ao Kommersant, Nikolai Patrushev, então secretário do Conselho de Segurança da Rússia, afirmou que a ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, achava que a Sibéria e o Extremo Oriente não pertenciam à Rússia e que os americanos tinham inveja das riquezas russas. Albright nunca disse nada parecido publicamente. A “fonte” de Patrushev? Um vidente treinado pela KGB chamado Georgy Rogozin, apenas com uma foto de Albright, teria penetrado em sua mente e lido seus pensamentos. Coincidentemente, naquele exato momento, ela estaria pensando em dividir a Rússia.

Rogozin era o braço direito de Alexander Korzhakov, chefe do Serviço de Segurança Presidencial, e o aconselhava em todos os assuntos parapsicológicos. Reencarnações de Bokii e Barchenko, talvez?

A revista do Ministério da Defesa russo afirma que soldados aprenderam a ler documentos trancados em cofres (independentemente do idioma), identificar terroristas de modo psíquico e passar dias sem comer, beber ou dormir. Algumas dessas habilidades, entre elas a leitura de mentes, teriam sido usadas nas Guerras da Chechênia nos anos 1990.

O ex-secretário de Segurança russo Nikolai Patrushev recorreu à espionagem paranormal | Foto: Shutterstock

EUA e Rússia interessados em paranormalidade?

O que se conclui de tudo isso? Assim como o interesse soviético em espionagem psíquica surgiu após a queda do czar, o interesse russo moderno em guerra paranormal foi um efeito secundário do colapso do comunismo. O livro The Spirit of Socialism, de Joseph Kellner, detalha a explosão do misticismo e dos movimentos religiosos new age (“nova era”) na Rússia, nas décadas de 1980 e 1990. O fim de impérios costuma dar à luz uma série de sistemas de crença bizarros.

Já o interesse americano parece ser um caso clássico de paranoia de uma superpotência. O início da Guerra Fria nos EUA foi acompanhado pelo pânico do senador Joseph McCarthy em relação aos espiões soviéticos. Uma década depois, essa paranoia levou o ex-chefe de contraespionagem da CIA, James Jesus Angleton, a expurgar a agência repetidas vezes. Os EUA fizeram intervenções militares no mundo todo em busca de comunistas — deixando no Vietnã o maior dos estragos. Continuamente superestimando as capacidades soviéticas, a CIA foi incapaz de prever o colapso da própria URSS.

É claro que a União Soviética teve suas próprias — e intensas — paranoias: o Estado policial onipresente, a intervenção desastrosa na Coreia, as invasões da Hungria e da Tchecoslováquia, e o plano (frustrado pelos EUA) de bombardear a China com armas nucleares em 1969. Será que, em meio a esse pavor todo, financiar pesquisas psíquicas foi uma loucura tão grande assim?


Arthur McFarlane é candidato a Ph.D. em história soviética na Universidade de Oxford.

Leia também “Os exércitos das sombras”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Marcelo DANTON Silva
    Marcelo DANTON Silva

    TRANSE!!
    É a palavra mágica e correta sobre TUDO isso que ocorre há milênios, desde que o homem começa a se reunir em volta de fogueiras à noite e divagar sobre seus conflitos …em ebulição ..no interior de uma ferramenta quântica que pratica sobreposição em nível subatômico e ..quiçá..mais abaixo ainda. CÉREBRO!
    Tirar qualquer informação de um estado de TRANSE é impossível….sempre haverá alto potencial de erro. Inexorável!
    Todos os profetas tiveram transe…todos drogados tiveram transe, todos os febris tem transe…o sonho é um transe!
    É inerente ao cérebro….trazer interpretações dos TRANSES ao cotidiano humano como se fossem verdades absolutas é a essência do MAL que nos assola a 10 mil anos.
    Antes de termos tempo para ficar de prosas ao redor de fogueiras contando estórias…alimentando essa extraordinária ferramenta quântica com paranóias….gastávamos nosso tempo vagando e imaginando como sobreviver a mais um dia.

    A DICA que eu dou é….
    So extrair as coisas boas quando tiverem um transe…evitaria brigas, inquisição, massacres, genocidas, destruição, fofocas, FOME e DOENÇAS!
    O que mais chegou perto disso que eu tentei arguir/disse acima foi JESUS CRISTO! “Dê a outra face quando estapeado”
    Bem diferente do famigerado MAOMÉ.
    O transe sempre irá existir…faz parte do cérebro…temos de ter protocolos doutrinários para termos paz no futuro…pois sempre surgirá alucinados cientistas ou religiosos para, juntos com políticos degenerados, massacrar a civilização.

Anterior:
O Dia D e o Agro   
Próximo:
Imagem da Semana: a coroação de Elizabeth II
publicidade