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Em 9 de junho de 1944, veículos e homens desembarcam dos LSTs (navios de desembarque de tanques) e atravessam a praia de Omaha durante a invasão da Normandia no Dia D, em uma pintura de John Hamilton | Foto: Reprodução
Edição 325

O Dia D e o Agro   

Se a operação decisiva da Segunda Guerra Mundial precisou da meteorologia para ocorrer, imagine a agricultura, que depende diariamente das condições climáticas

Em 6 de junho se celebra o aniversário do Dia D. Nesta data, em 1944, foi realizada a maior invasão anfíbia e a maior operação militar combinada (terra, mar e ar) da história. Ocorrida na Normandia, na França, a ação mobilizou cerca de 156 mil soldados apenas no primeiro dia, apoiados por mais de 5 mil embarcações e 11 mil aeronaves.

Acaba de ser lançado um filme sobre a previsão do tempo para o Dia D, chamado Pressão. Ele segue o enredo da peça de mesmo nome e retrata como o meteorologista escocês James Stagg pressionou pelo adiamento do desembarque devido à aproximação de uma tempestade. Sua avaliação foi contestada por meteorologistas americanos, e os próprios alemães interpretaram incorretamente as condições atmosféricas, deixando as forças nazistas despreparadas para a invasão.

Poster do filme “Pressure” | Foto: Reprodução

O desembarque na Normandia dependia de uma combinação extremamente específica de fatores ambientais. Durante a noite anterior, era necessária uma lua suficientemente brilhante para fornecer iluminação aos planadores e às tropas paraquedistas. Não poderiam existir nuvens baixas capazes de comprometer o apoio aéreo e o bombardeio naval. Já a maré precisava estar baixa para expor os obstáculos instalados pelos alemães nas praias. Além disso, os ventos deveriam ser moderados para reduzir as ondas e facilitar a aproximação das embarcações.

Entre os dias 4 e 7 de junho, as condições lunares e de maré eram favoráveis, e a próxima oportunidade semelhante só ocorreria semanas depois. Era apenas uma questão de tempo até que os alemães descobrissem o verdadeiro local da invasão. Havia enorme pressão para que a operação fosse executada o mais rapidamente possível.

A situação meteorológica era precária, mas considerada suficientemente favorável para autorizar os desembarques. Acredita-se que os alemães possuíam informações meteorológicas deficientes sobre o Atlântico Norte, pois dispunham de poucos pontos de observação oceânica e nenhum instrumento de monitoramento sobre a América do Norte, de onde se originavam muitos dos sistemas climáticos que atingiam a Europa.

Assim, concluíram que as condições climáticas do dia 6 de junho eram inadequadas para uma invasão. O resultado foi uma redução no estado de prontidão das tropas e até mesmo a ausência do marechal Erwin Rommel, que havia viajado para visitar sua mulher em seu aniversário.

Hoje, com recursos computacionais modernos, a meteorologia daquele período foi reconstruída por meio de modelos numéricos e técnicas avançadas de assimilação de dados, permitindo uma compreensão muito mais precisa das condições atmosféricas do Dia D.

Abaixo, uma animação da precipitação horária (representada pelo sombreamento colorido) e da pressão ao nível do mar em 6 de junho de 1944, produzida com tecnologia atual.

É possível observar uma área de baixa pressão a nordeste da Inglaterra enfraquecendo e deslocando-se para o sul. Foi justamente essa pequena janela meteorológica que os Aliados souberam aproveitar e os alemães não conseguiram prever. Embora as condições fossem apenas marginais, mostraram-se suficientemente favoráveis para o sucesso da operação, apesar dos fortes ventos e do mar agitado.

Mas o que isso tem a ver com o agro? Tudo. Se o Dia D — uma operação que ajudou a mudar os rumos da Segunda Guerra Mundial — precisou da meteorologia para ocorrer, imagine a agricultura, que depende diariamente das condições climáticas para produzir alimentos. A mesma ciência que ajudou a libertar a Europa é utilizada hoje para orientar o agricultor sobre quando plantar, irrigar, pulverizar e colher.

A meteorologia reduz riscos, evita perdas e melhora a eficiência da produção. Por isso, muitos especialistas afirmam que o verdadeiro mercado da agricultura é o weather market (“mercado do clima”). Nenhum outro setor da economia está tão exposto às forças da natureza quanto o agro. Estima-se que uma parcela significativa das perdas agrícolas globais esteja associada a eventos climáticos adversos, como secas, enchentes, geadas, ondas de calor e tempestades.

E há uma conexão ainda mais profunda entre o Dia D e o campo. Nenhum exército marcha sem comida. Nenhuma guerra é vencida sem abastecimento. Nenhuma sociedade é livre sem segurança alimentar. Os soldados que desembarcaram na Normandia dependiam de uma gigantesca cadeia logística de alimentos, grãos, carnes, leite e suprimentos produzidos por agricultores.

A liberdade que chegou pelas praias da Normandia também passou pelas fazendas. Tendo isso em mente, é possível compreender melhor o desafio do agricultor moderno. Afinal, a tecnologia evolui, os modelos melhoram, mas uma verdade permanece: ninguém negocia com a natureza.

Soldados desembarcando na Normandia no Dia D | Foto: Reprodução

Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera

Leia também “A tirania do MP contra o Agro”

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1 comentário
  1. Raimundo Nonato Moraes Costa
    Raimundo Nonato Moraes Costa

    Muito bom o paralelo traçado. Nunca deixo de apreciar os seus Artigos.

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