“Ao longo de toda a minha vida e com todo o meu coração,
me esforçarei para ser digna da vossa confiança.”
(Rainha Elizabeth II, na véspera da
coroação, em transmissão de rádio)
Era uma terça-feira fria e chuvosa em Londres. Centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo voltaram os olhos para a Abadia de Westminster, onde acontecia a coroação — repleta de tradições centenárias — de Elizabeth II. O dia 2 de junho de 1953 marcou o início solene de um reinado que se estenderia por sete décadas. Elizabeth havia se tornado rainha aos 25 anos, mais de um ano antes da coroação, em fevereiro de 1952, depois da morte de seu pai, George VI. Ela assumiu o trono em um período em que o reino ainda se recuperava dos efeitos da Segunda Guerra Mundial e passava por um acelerado processo de descolonização.
Pela primeira vez na história, a coroação da jovem rainha de 27 anos foi transmitida ao vivo pela televisão e chegou a milhões de lares britânicos. Alguns membros do governo e de setores mais conservadores da corte temiam que as câmeras quebrassem “a mística da monarquia”, entendiam que expor os ritos sagrados da coroação à luz crua do vídeo podia diminuir seu poder simbólico. Mas Elizabeth pensava diferente. Ela e o príncipe Philip foram os maiores defensores da transmissão ao vivo. A cobertura foi feita pela BBC. A decisão aproximou a monarquia de milhões de cidadãos e transformou a cerimônia em um acontecimento de grande alcance.

Estima-se que cerca de 27 milhões de britânicos acompanharam a transmissão pela televisão, além de outros 11 milhões pelo rádio. Um número impressionante para a época. Muitas famílias compraram seus primeiros aparelhos apenas para assistir ao evento, enquanto outras se reuniram nas casas de vizinhos ou em locais públicos. Em diversos países da Europa, da América do Norte e da Comunidade Britânica, gravações foram rapidamente distribuídas para que o público pudesse acompanhar aquele momento histórico.
A cerimônia seguiu rituais cuja origem remonta a quase mil anos. A rainha saiu do Palácio de Buckingham na Gold State Coach (“carruagem dourada do Estado”), puxada por oito cavalos cinzentos. Vestida com um elaborado manto de seda e ouro, Elizabeth fez juramentos solenes diante de líderes religiosos e representantes do Estado. Sentada na milenar Cadeira da Coroação, foi ungida com óleo sagrado — preparado segundo uma fórmula antiquíssima que incluía, entre outros ingredientes, âmbar cinza, uma substância produzida pelo intestino de baleias. Em seguida, recebeu os símbolos da monarquia britânica, incluindo o cetro, o orbe e a histórica Coroa de Santo Eduardo, que pesa 1,6 quilos, utilizada apenas nas coroações dos soberanos.

Durante 70 anos, Elizabeth II testemunhou transformações extraordinárias: o auge e o fim da Guerra Fria, a expansão da televisão e da internet, avanços tecnológicos sem precedentes e profundas mudanças sociais e culturais. Ao longo de seu reinado, trabalhou com quinze primeiros-ministros britânicos, do veterano Winston Churchill até Liz Truss, que assumiu o cargo apenas dois dias antes da morte da rainha.
Sua longevidade no trono tornou-se um símbolo de estabilidade em tempos de mudança. Embora o papel político do monarca britânico seja amplamente cerimonial, Elizabeth II exerceu uma influência significativa como figura de continuidade nacional, atravessando crises, guerras, escândalos e períodos de prosperidade.
Em 8 de setembro de 2022, aos 96 anos, a rainha faleceu no Castelo de Balmoral, encerrando seu reinado — o mais longo da história do Reino Unido e um dos mais longos já registrados para qualquer monarca. Por 70 anos e 214 dias, ela se esforçou para ser digna da confiança do povo. E o povo, em grande medida, acreditou que ela foi.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Obrigado, Daniela pela interessante matéria.
Delicio-me sempre com as reportagens da Daniela Giorno; ela abre uma janela para a história e nos traz um telescópio que mostra detalhes que nunca imaginaríamos.
Nesta, traz alguns dados curiosos como a descrição (e até o peso) da coroa da rainha, da carruagem, do número de ministros, dos anos e até os dias de duração do reinado, e com um requinte de observação, descreve os ingredientes do óleo da unção!
Incrível! Parabéns!