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Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Edição 325

Os tentáculos do Master

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que está preso na sede da PF, usava dinheiro de aposentados e investidores para comprar autoridades e realizar festas de luxo ao redor do mundo 

Era uma noite de novembro quando Daniel Vorcaro tentou fugir num de seus jatos particulares para a Ilha de Malta. O dono do falido Banco Master continuaria a esbanjar sua fortuna na Europa, não fosse a Polícia Federal (PF) ter frustrado a viagem no momento do embarque no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Nas semanas seguintes, à medida que surgiam novos detalhes sobre os escândalos envolvendo sua instituição financeira, o país passou a descobrir quem era o banqueiro por trás da meteórica ascensão — e da queda — do Master.

O Master surgiu do Máxima, um banco pouco conhecido, de estrutura enxuta e sem agências físicas. Vorcaro fez a primeira tentativa de compra da instituição em 2017, mas o Banco Central demorou dois anos para aprovar a aquisição. Em 2020, o Máxima só não foi liquidado por falta de dinheiro porque o banqueiro, junto com seus sócios — entre os quais Augusto Lima —,  fez um aporte de R$ 150 milhões. Rebatizado no ano seguinte, passou de um lucro líquido de R$ 6 milhões, em 2017, para R$ 1 bilhão, em 2024.

Câmeras de segurança flagram o momento em que Daniel Vorcaro é preso no Aeroporto de Guarulhos (SP)
Câmeras de segurança flagram o momento em que Daniel Vorcaro é preso no Aeroporto de Guarulhos (SP) | Foto: Reprodução/G1

O Master funcionava de forma diferente dos bancos tradicionais, como Bradesco, Itaú ou Banco do Brasil. Enquanto essas instituições atendem o público em agências, oferecem conta corrente, cartões e empréstimos do dia a dia, o Master era voltado principalmente para captar dinheiro de investidores e realizar operações financeiras. Não era o tipo de banco em que o cliente vai abrir conta para receber salário ou pagar boletos. Seu foco estava em atrair recursos oferecendo rentabilidade elevada e usar esse dinheiro em investimentos e compra de ativos financeiros. Tais ativos são direitos de receber dinheiro no futuro: um empréstimo que alguém ainda está pagando, um financiamento ou uma dívida comprada de outra instituição entram nessa conta. Para um banco, esses valores aparecem como patrimônio.

O crescimento estrondoso do Master está ligado a fraudes financeiras, compra de autoridades e promessa de rentabilidade acima do mercado. Uma das operações se dava por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDB). Nesse tipo de aplicação, o investidor “empresta” dinheiro para o banco e recebe juros em troca. Para atrair clientes, o Master oferecia taxas bem acima das praticadas pelos outros bancos: um investidor que aplicasse R$ 100 mil em um CDB qualquer teria um ganho bruto de aproximadamente R$ 14 mil em um ano. No Master, o mesmo investimento poderia render quase R$ 24 mil no mesmo período.

Essas operações são cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma espécie de seguro bancário abastecido pelos próprios bancos. O fundo é usado para ressarcir investidores em caso de quebra da instituição financeira. A liquidação do Banco Master, em 2025, deixou um rombo de R$ 51 bilhões no FGC.

O mecanismo devolve ao investidor até R$ 250 mil por pessoa e por instituição — mesmo que o valor investido seja maior. Em 2023, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou uma emenda para elevar esse limite para R$ 1 milhão. A proposta passou a ser apelidada nos bastidores de Emenda Master porque, segundo críticos, beneficiaria diretamente a instituição bancária. Em maio deste ano, investigações apontaram que Nogueira recebia uma mesada de R$ 500 mil de Vorcaro.

O senador Ciro Nogueira (PP/PI): polarização vigente | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Senador Ciro Nogueira (PP-PI) | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Caso a emenda de Ciro fosse aprovada, os bancos teriam de colocar muito mais dinheiro no fundo, aumentando o custo do sistema bancário. Tal medida teria os seguintes impactos para o cidadão:

  • juros maiores no cartão de crédito;
  • financiamento imobiliário mais caro; e
  • empréstimos mais caros.

Vorcaro pegava o dinheiro captado por meio dos CDBs e usava parte dele em operações que ajudavam o banco a parecer maior e mais forte do que realmente era. O principal mecanismo era a compra de carteiras de crédito — conjuntos de dívidas, empréstimos e financiamentos que outros bancos tinham para receber.

Funciona mais ou menos assim: imagine alguém que compra o direito de receber prestações futuras de milhares de pessoas. No papel, isso vira patrimônio. Afinal, considerando-se que essas parcelas serão pagas, existe a expectativa de entrada de dinheiro. E, para um banco, quanto maior o volume de valores a receber, maior parece ser sua força financeira.

O Master comprava essas carteiras e depois as revendia para outros bancos, em alguns casos por valores superiores ao que realmente valiam. O Banco de Brasília, por exemplo, adquiriu cerca de R$ 30 bilhões desses ativos.

O problema é que uma parte relevante desse crescimento existia mais no papel do que na realidade. Algumas carteiras valiam menos do que se apresentava. Outras teriam problemas ainda mais graves: havia casos em que os créditos informados sequer existiam. Era como alguém mostrar uma pilha de cheques para provar que ficou rico — sem contar que parte daqueles cheques não tinha fundo.

Vorcaro também investiu na compra de precatórios, dívidas que o governo é obrigado a pagar — com dinheiro dos pagadores de impostos — a empresas ou pessoas físicas depois de perder uma ação judicial de forma definitiva. Alguns bancos e fundos compram esses créditos com desconto e apostam que, no futuro, receberão o valor integral, lucrando com a diferença. Muitas vezes, quem vende aceita receber menos para não esperar anos pelo pagamento. Entre março de 2021 e junho de 2022, Vorcaro desembolsou cerca de R$ 190 milhões na aquisição desses ativos.

O tema ganhou repercussão política depois que o governo Lula liberou mais de R$ 90 bilhões para o pagamento de precatórios em dezembro de 2023, mesmo depois de o governo Jair Bolsonaro ter aprovado medidas para adiar parte desses desembolsos. Reportagens publicadas posteriormente mostraram que o Banco Master havia acumulado bilhões de reais em precatórios. 

Em entrevista à CNN, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes afirmou que o governo fez “trapaças” e declarou que “apenas dois bancos se beneficiaram” desses pagamentos. O deputado federal Evair de Melo (Republicanos-ES), por sua vez, apresentou em 2024 um requerimento para investigar a rapidez do governo para liberar o valor dessas dívidas. Segundo o parlamentar, “seria ingenuidade ignorar os fortes indícios e o contexto que colocam o Master no centro desse mercado bilionário de precatórios”.

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O ex-governador do Ceará Ciro Gomes afirmou que o governo fez “trapaças” e que “apenas dois bancos se beneficiaram” | Foto: Reprodução/Facebook/@cirogomesoficial

As manobras não pararam por aí. Em 2023, fundos de vários Estados responsáveis pelo pagamento das aposentadorias de servidores públicos — os chamados Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) — aplicaram grandes quantias de dinheiro no Master. O banco atraía esses recursos oferecendo promessas de retorno maiores do que as encontradas em investimentos considerados mais seguros. Em termos simples: enquanto um título público podia render em torno da inflação mais 5% ao ano, aplicações no Master prometiam algo perto da inflação mais 8%. Parece uma diferença pequena, mas, para quem investe bilhões de reais, representa centenas de milhões em ganhos extras.

Uma transação chamou a atenção. A Rioprevidência aportou mais de R$ 3 bilhões nesses títulos. Investigadores afirmam que o instituto fez a aplicação mesmo diante de alertas técnicos sobre a situação financeira do banco. Em casos assim, a legislação prevê que aplicações priorizem segurança, liquidez e baixo risco, justamente para evitar perdas que comprometam o pagamento futuro de benefícios. A PF suspeita que o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) interferiu nesses aportes. O RPPS não tem cobertura do FGC e estima-se que o rombo tenha chegado a quase R$ 4 bilhões. Milhares de servidores correm o risco de ficarem sem aposentadoria por causa dessa irresponsabilidade.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), em reunião com Motta e demais chefes do Executivo | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados
Ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Essas operações ajudaram a sustentar a ilusão de que o Master era um banco muito maior e mais sólido do que realmente era. O problema é que parte dos R$ 86 bilhões em ativos apresentados pela instituição antes da liquidação valia bem menos do que indicavam os balanços. Em alguns casos, tratava-se de créditos considerados de baixa qualidade pelo mercado — os chamados títulos podres — que foram revendidos a outras instituições, como o BRB. É como se uma pessoa tivesse uma dívida de R$ 1 mil para receber, soubesse que dificilmente receberia o valor, mas mesmo assim vendesse essa dívida para outra pessoa. Pior: há indícios de que integrantes da presidência do BRB tinham conhecimento das irregularidades.

O ex-banqueiro sempre dependeu da ajuda do pai, Henrique Moura Vorcaro, para realizar seus negócios. Primeiro, em 2004, ingressou na Multiplar, empresa da família que focava em loteamentos. No ano seguinte, concluiu seu MBA em Finanças no Ibmec-MG e, três anos depois, atuou como apresentador de um programa musical gospel na Rede Super, emissora cristã de seu pai. Para a Copa do Mundo de 2014, idealizou o Beagá Convention, em Belo Horizonte, um hotel de luxo com 37 andares e 405 unidades. A obra nunca foi concluída.

Vorcaro só conseguiu prosperar, de fato, graças às influências políticas. Para bancar autoridades, usava todos os recursos disponíveis do Master (CDBs, precatórios, carteiras de crédito e RPPS). Além da mesada que pagava a Ciro Nogueira, fechou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O magistrado chegou a ligar seis vezes para Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para tratar de assuntos relacionados ao banco. Vorcaro também pagava R$ 1 milhão por mês para o ex-ministro petista Guido Mantega, que articulou reuniões entre o ex-banqueiro e Lula no Palácio do Planalto. O ex-presidente Michel Temer embolsou R$ 10 milhões de Vorcaro e mediou conversas com o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha sobre assuntos que envolviam o Master e o BRB. Mensagens encontradas pela PF também mencionaram encontros entre Vorcaro e o ministro do STF Dias Toffoli. Além disso, o fundo L4 Capital, ligado ao grupo do ex-banqueiro, investiu cerca de R$ 35 milhões no Tayayá Aqua Resort, empreendimento associado à família do magistrado.

O dinheiro do banco também era usado para financiar festas luxuosas ao redor do mundo, com artistas famosos e belas mulheres. A farra, contudo, acabou. O executivo está preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A cada dia que passa, são revelados novos esquemas do maior escândalo financeiro da história do país.

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3 comentários
  1. Isa Maria Borba
    Isa Maria Borba

    O que me intriga, é da onde vinha tanto dinheiro, estamos falando em bilhões de reais. Ninguém percebeu nada? Oque é Isso?

  2. Luis Ricardo Zimermann
    Luis Ricardo Zimermann

    No quinto parágrafo aparece o valor de 51 milhões onde deveria estar 51 bilhões.

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