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O ex-presidente de Cuba, Raúl Castro | Foto: Montagem Revista Oeste/ REUTERS/Norlys Perez
Edição 324

Viva la revolución S.A.

Enquanto fecha o cerco ao regime cubano, Marco Rubio expõe ao mundo os negócios bilionários da empresa que enriquece os Castro e seus camaradas

Na quarta-feira, 20 de maio, aniversário de 124 anos da Independência de Cuba, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, gravou, em puro e altissonante espanhol, uma mensagem de enorme impacto para o mundo, ainda que dirigida especificamente para o povo cubano. Com o tom firme e sem arroubos que caracteriza seus pronunciamentos, o homem mais cotado entre os republicanos para suceder Donald Trump abriu seu vídeo de cinco minutos prometendo contar a verdade sobre por que o povo da ilha tomada pelos irmãos Castro em 1959 está sendo forçado a sobreviver 22 horas por dia, literalmente, nas trevas.

Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano | Foto: Reuters/Ken Cedeno

A razão, sustentou, não se deve ao bloqueio petrolífero por parte dos Estados Unidos. “Como vocês sabem melhor que ninguém, sofrem com apagões há anos. A verdadeira razão pela qual vocês não têm eletricidade, nem combustível, nem alimentos é porque aqueles que controlam seu país saquearam bilhões de dólares, mas nada foi usado para ajudar o povo.” Afirmação contundente, sem dúvida. Própria de alguém que sabe do que está falando. Nascido em 1971, em Miami, o homem mais influente neste segundo mandato de Donald Trump passou a infância ouvindo dos pais, Mario Rubio Reina e Oriales García Rodríguez, as razões pelas quais saíram de Cuba quando Fidel Castro ainda não havia transformado o país em uma ilha-presídio; e escutou deles, sobretudo, por que tinham horror à ideia de voltar para lá.

“E daí, o que tem de novo nisso?”,  pergunta você, diante de uma afirmação que, embora incisiva, era mais do que esperada, em se tratando de um líder da direita norte-americana que tem razões não apenas ideológicas, mas familiares, para abominar a ditadura instaurada por Fidel Castro em 1959. Daí, respondo eu, que aos 56 segundos do vídeo alusivo aos 124 anos da independência cubana, Marco Rubio deixou o mundo perplexo (e mais adiante explicarei por que tal perplexidade é um atestado de cegueira, deliberada ou involuntária, da imprensa).

“Há 30 anos”, contou Rubio, “Raúl Castro fundou uma empresa chamada Gaesa. Esta empresa é propriedade e é operada pelas Forças Armadas, e tem receitas três vezes maiores que o orçamento do atual governo. Hoje, enquanto vocês sofrem, esses empresários têm US$ 18 bilhões em ativos e controlam 70% da economia de Cuba”. Gaesa? Empresa da família Castro? Pelo mundo, sobrancelhas se arquearam. Muita gente tirou ou colocou os óculos, arregalou os olhos, remexeu-se na poltrona, levantou o volume. No Brasil, o jovem professor de história fez um esgar de estranhamento. O aluno de sociologia pigarreou. A moça que há oito anos empurra com a barriga seu curso de Filosofia na Federal “deu pause” e ligou, indignada, para seu parceiro de chapa na próxima eleição do DCE.

Nos cinco minutos mais demolidores que os fanáticos pelo regime cubano já tiveram de enfrentar, Rubio apontou de onde vem a opulência da Gaesa. “Eles lucram com hotéis, construções, bancos, lojas e até com o dinheiro que seus familiares enviam dos Estados Unidos. Tudo, tudo passa pelas mãos deles. Das remessas, eles retêm uma porcentagem, mas dos lucros da Gaesa nada chega até vocês.” Em vez de usar o dinheiro para comprar petróleo, como faz qualquer país, a Gaesa, segundo Rúbio, preferiu contar com o petróleo grátis de Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, e fazer caixa. “Mas agora que o petróleo gratuito parou de chegar, eles compram combustível para seus geradores e para seus veículos, enquanto pedem ao povo que se sacrifique.”

O dinheiro que poderia ser investido para recuperar e modernizar as centrais elétricas de Cuba, hoje em mau estado, recebe uma destinação que nada tem a ver com as dramáticas necessidades do povo cubano, denunciou Rubio. “Eles usam o dinheiro para construir mais hotéis para estrangeiros e para enviar seus familiares para viver com luxo em Madri e até aqui nos Estados Unidos.”

A estocada mais dolorosa que Marco Rubio lançou contra a romantização da ditadura mais antiga do hemisfério veio em uma afirmação sem meios tons. “Hoje, Cuba não é controlada por nenhuma revolução. Cuba é controlada pela Gaesa, um Estado dentro do Estado que não presta contas a ninguém e acumula os lucros de seus negócios para o benefício de uma pequena elite.”

Gaesa é uma sigla: Grupo de Administración Empresarial S.A. Um nome que quer dizer nada, ou quase nada, como convém a uma estrutura sem qualquer transparência. A enganação começa pelo nome, que transmite a ideia de ser uma empresa com ações em poder do público, quando em verdade é controlada por um grupo muito restrito de pessoas ligadas ao governo cubano e ao poder militar, ou seja, às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba. A melhor definição para a Gaesa é a de uma holding esquisita, um grande guarda-chuva burocrático-empresarial-militar que abriga companhias de turismo, comércio, logística, construção, telecomunicações, publicidade, construtoras, instituições financeiras e, é claro, indústria bélica.

Quando Marco Rubio denuncia a maluquice de se investir em hotelaria enquanto o povo passa fome e todo tipo de necessidade, está fazendo referência a uma das principais subsidiárias da Gaesa, a Gaviota, operação turística que controla uma rede com mais de 100 hotéis, além de marinas, locação de carros, aviação e outros serviços. Todo o comércio — lojas, supermercados, postos de combustíveis – é monopolizado pela Gaesa por meio da Corporación Cimex S.A. As transações internacionais do país são afetas aos braços financeiros da Gaesa — o Banco Financiero Internacional (BFI) e a Rafin S.A. Na área de infraestrutura, há que se fazer um registro de particular interesse para os brasileiros. Como tudo na ilha, o Porto de Mariel também está sob domínio da Gaesa.

Durante os governos Lula 2 e Dilma 1, Cuba recebeu US$ 680 milhões do BNDES para levar em frente as obras de ampliação e modernização do Porto de Mariel, concluídas em 2013. Diante da inadimplência dos cubanos, a conta do ressarcimento do BNDES recaiu sobre todos os brasileiros, via Tesouro. A ser exata a cifra de US$ 18 bilhões que constitui o total dos ativos da Gaesa, pelas contas de Marco Rubio, está claro que a razão do calote aplicado por Havana no Brasil não é falta de dinheiro. 

A Gaesa foi fundada em 1995 por Raúl Castro. O irmão de Fidel era o ministro da Defesa quando o regime cubano foi obrigado a desmamar da ajuda financeira histórica que recebia da União Soviética. Com o desmantelamento do bloco soviético, os russos foram perdendo as condições e o interesse de manter as subvenções.

Raúl e o grupo de militares que estavam sob seu comando no Ministério da Defesa construíram, como disse Rubio, um Estado dentro do Estado. A Gaesa, que controla mais da metade da economia cubana e arrecada, de novo segundo Rubio, uma fortuna três vezes maior que o orçamento nacional do país, é tão auditável quanto o sistema eletrônico de votação do Brasil. Ou seja, opacidade total. Não presta contas à Assembléia Nacional. Tampouco se submete ao escrutínio do controlador-geral.

A Gaesa foi fundada em 1995 por Raúl Castro | Foto: Shutterstock

Um buraco negro

Em 2022, com o falecimento do genro de Raúl Castro, a quem estava entregue o comando executivo das operações, a Gaesa passou a ser presidida por Ania Guillermina Lastres Morera, uma deputada que é general de brigada das Forças Armadas Revolucionárias e, também, integrante do comitê central do Partido Comunista. Acusada de tomar parte em atos de repressão ao povo cubano e de gerir ativos que são produto de crime, Ania Morera foi sancionada no início de maio pelos Estados Unidos, com congelamento de bens no exterior, entre outras medidas semelhantes àquelas que o ministro do STF Alexandre de Moraes recebeu de Washington no ano passado, e que foram posteriormente suspensas.

Se Ania é a presidente executiva, o chefe supremo da Gaesa continua sendo Raúl Castro, apesar dos seus 94 anos. O irmão de Fidel foi indiciado criminalmente este mês pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob a acusação de ter ordenado, em 24 de fevereiro de 1996, uma ação militar em que caças cubanos derrubaram dois aviões civis do grupo Hermanos al Rescate. No episódio, morreram quatro pessoas, entre as quais três cidadãos norte-americanos, que faziam um trabalho de resgate de cubanos que tentavam fugir da ilha dos Castro utilizando balsas.

Enquanto fecha o cerco, com deslocamento de porta-aviões para o Caribe, Marco Rubio avança no front da comunicação, como ficou claro no vídeo dirigido aos cubanos na data nacional do país. Ofereceu, em nome do governo Trump, uma ajuda humanitária de US$ 100 milhões em remédios e alimentos, mas disse que esta doação precisa chegar direto ao povo, não por intermédio do governo ou da Gaesa. “O único papel que o assim chamado ‘governo’ desempenha é exigir que vocês continuem fazendo sacrifícios e reprimindo qualquer um que se atreva a reclamar”, declarou Rubio. “Isso [donativos] tem de ser distribuído pela Igreja Católica ou qualquer outro grupo de caridade de confiança, e não roubado pela Gaesa para que eles vendam em suas lojas.”

O total desconhecimento desta “privilegiatura” chamada Gaesa, que opera desde 1995 em pleno regime comunista cubano, mostra o quanto, por incompetência, ou por viseira ideológica, a imprensa e as universidades falharam na missão de trazer à luz o que se passava na ilha. Coube a sites de jornalistas independentes e dissidentes do regime de Havana dispararem os primeiros alertas no final dos anos 1990.

Os estudos sobre o aparato empresarial das forças armadas cubanas só ganharam alguma atenção na segunda metade dos anos 2000. Ainda assim, sem grande repercussão no Ocidente e, particularmente, na América Latina. Somente em agosto do ano passado veio a público um trabalho de fôlego a respeito. A jornalista Nora Gámez Torres, do Miami Herald, assinou uma série de reportagens com base em documentos internos da própria Gaesa, aos quais teve acesso. A reportagem “Onde está o dinheiro de Cuba? Registros secretos mostram que os militares têm um grande tesouro em caixa” inaugurou a série. Nora foi agraciada com um prêmio de jornalismo. E recebeu dos “camaradas” comunistas de Havana uma outra distinção. “Traidora!” O que, convenhamos, é um prêmio.

Homem veste camiseta com a frase “Cuba 100% libre” em manifestação após os EUA acusarem Raúl Castro de crimes, em Miami, Flórida, EUA, 20/5/2026 | Foto: Reuters/Marco Bello

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6 comentários
  1. Celso Ricardo Kfouri Caetano
    Celso Ricardo Kfouri Caetano

    Nenhum ditadura é benvinda e nenhum ditador deve administrar um país mas apenas como lembrança também, há sempre uma parcela de culpa da população -Cuba quando Fulgêncio Batista era o ditador da ilha de certa maneira havia prosperidade, muitos cassinos, hotéis, a máfia apreciava os ares da ilha, o povo comia e tinha direito de vender ou comprar propriedades etc etc ai apareceram os três barbudos com a velha conversa socialista de prover o bem estar dos pobres e a igualdade social e o povão entusiasmado pelo engodo gritou ” Viva La Revolución” é mais um fator que contribuiu fortemente para a situação atual da ilha.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Ditadores sempre se estabelecem invocando princípios nobres, Celso, e escondendo suas reais intenções. A história está repleta de exemplos.

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Errata:o cofre dos irmãos Castro e da Gaeca foi regiamente abastecido pelo Brasil pelo PT (Dilma) que construiu o porto de Mariel. Dinheiro do povo brasileiro.

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Artigo brilhante Eugênio Esber, esclareceu nesse artigo a realidade de Cuba.Exatamente é que que ocorreu e ainda acontece nesse país da desigualdade econômica e social,o flagelo do comunismo,a total destruição de um país. Pois é, os cofre dos irmãos Castro e da Grécia também foram abastecidos pelo Brasil através do governo Dilma que construiu o porto de Mariel,como um presente do BNDES. Governos comunistas agem assim mesmo e Brasil financiou,ou seja presenteou Cuba com dinheiro público.

    1. Teresa Guzzo
      Teresa Guzzo

      Errata:o cofre dos irmãos Castro e da Gaeca foi regiamente abastecido pelo Brasil e PT(Dilma) na construção do porto de Mariel com dinheiro do povo brasileiro.

    2. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Toda esta articulação de governos começa a ser desvendada, Teresa, com as esperadas confissões de Maduro (e esposa), Carvajal e, espero, Zapatero.

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