O número de baixas da guerra entre Rússia e Ucrânia, que já completou quatro anos, confirma: o conflito é mesmo o mais letal desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) na Europa, e já tão longo quanto a Primeira. A suspeita de que nova tragédia se abateria sobre o continente veio à tona logo no início dos combates, quando, em 24 de fevereiro de 2022, tropas da Rússia invadiram o país em direção a Kiev (capital), Kharkiv (leste), Mariupol (sul) e as regiões separatistas de Donetsk e Luhansk, no leste, o território mais almejado.
Não deu outra. Desde então, cerca de 1,2 milhão de militares russos morreram, se feriram ou estão desaparecidos, segundo o Center for Strategic and International Studies. O mesmo órgão, sediado em Washington, revela que esses tipos de baixa ocorreram com 600 mil militares ucranianos. Em relação aos civis, a Ucrânia teve 15 mil mortos, contra cerca de 300 da Rússia. Ou seja, em pleno século 21, quase 2 milhões de baixas ocorreram em uma guerra na Europa. Oito décadas atrás, ao fim da Segunda Guerra, o continente foi reconstruído com a promessa de que novos confrontos entre seus integrantes não mais ocorreriam.
O atual cenário macabro, no coração da Europa, serviu para assustar o mundo por pouco tempo. As atenções logo se voltaram para outras regiões, principalmente com o acirramento dos conflitos no Oriente Médio nos últimos dois anos e meio. Enquanto isso, em meio a infrutíferas tentativas de acordo, a Rússia lançou 6.583 drones contra a Ucrânia em abril, segundo a Agence France-Presse (AFP) com dados da Força Aérea de Kiev. Esse número recorde equivale a uma alta de 2% em relação a março, até então o mês com mais ataques. Isso demonstra que, em vez de diminuir, os confrontos só aumentam. Nesta terça-feira, 5, mísseis e drones lançados pela Rússia mataram 12 pessoas em Zaporizhzhia, seis em Kramatorsk, quatro em Dnipro, quatro em Poltava, uma em Kharkiv e uma em Nikopol. O total de 28 mortos coloca o ataque como o mais mortífero deste ano.
As notícias a respeito, porém, aparecem de forma discreta nos noticiários, algo que, no auge dos jornais impressos, seria chamado de canto de página. Gráfico do Google Trends mostra que, entre fevereiro e março de 2022, a busca por informações sobre a guerra na Ucrânia chegou à escala 100, enquanto, em 2025, a escala baixou para 3. A escala 100 é o valor atribuído ao momento de maior volume de buscas por um tema no Google.
A comoção internacional gerada no momento da invasão russa tem sido progressivamente relegada a um segundo plano. Principalmente a partir dos ataques terroristas de 7 de outubro, intensificados com a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro último. Esta é a opinião do coronel Fernando Montenegro, veterano das Forças Especiais do Exército Brasileiro e consultor de política internacional. A sobreposição de uma nova crise muito mais disruptiva, combinada com o esgotamento ocidental e a realocação de prioridades estratégicas, principalmente dos EUA, fez com que a guerra na Ucrânia, apesar de continuar ativa, passasse a ocupar um lugar secundário no cenário internacional.
Poder de barganha
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem buscado intermediar um acordo. Ele considera que o conflito se transformou em uma guerra de desgaste cara para o Ocidente, consumindo dezenas de bilhões de dólares em ajuda militar e financeira dos EUA e de aliados europeus. Seu discurso sempre foi crítico em relação à postura da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que, no início da guerra, deu amplo suporte financeiro e militar à Ucrânia.
A lógica da Casa Branca é reduzir esse custo e evitar um compromisso indefinido com Kiev. O encerramento do conflito no atual cenário, sem a devolução de todos os territórios ocupados pela Rússia, seria bem-vindo pelo governo norte-americano. Desta maneira, a Ucrânia, pelo menos, não ficaria sob total controle russo. Para os países do Ocidente, a Ucrânia funciona como um Estado tampão entre a Rússia e o restante da Europa. Se Moscou consolidasse controle total sobre o território ucraniano, suas forças ficariam muito mais próximas de países da Otan, como Polônia, Romênia e Eslováquia, o que ampliaria sua projeção militar na região.
Tal postura de Trump, de acordo com os atuais objetivos na guerra, agradou ao líder russo, Vladimir Putin. Essa aproximação, com diálogo, tem evitado conflitos ainda maiores em outras frentes, como a do Irã. “Os EUA redirecionaram prioridades para o teatro do Oriente Médio e para a contenção da China”, afirma o coronel Montenegro. “Nesse contexto, Washington passou a considerar necessária uma Rússia relativamente estável no front europeu, o que ajuda a explicar a consolidação das posições russas em vez de avanços rápidos na Ucrânia.”
O prolongamento da guerra fez o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, perder poder de barganha. No início, ele era visto como um personagem que ajudaria os países da Otan a atingirem seus interesses. Além das questões geopolíticas, eles buscavam alternativas para deixar de lado a dependência da Rússia em relação à energia. A Ucrânia sempre foi uma rota fundamental de trânsito de gás natural russo para a Europa. Antes da guerra, cerca de 40% do gás europeu vinha da Rússia, grande parte passando por gasodutos que cruzam território ucraniano. Controlar essas rotas sempre teve peso estratégico para a política energética europeia.
Além disso, a Ucrânia possui grandes reservas de minerais como lítio, titânio e manganês, importantes para baterias, indústria aeroespacial e defesa. Tudo isso tornava atraente a inclusão da Ucrânia na Otan. Tal possibilidade, para a Rússia, sempre foi vista como uma declaração de guerra. Isso, segundo Putin, foi determinante para a invasão russa à Ucrânia em 2022. Em 2021, Zelensky deu várias declarações em favor da entrada da Ucrânia na organização. A cúpula da entidade, em junho daquele ano, reiterou a decisão de incluir a Ucrânia, tomada em 2008, sem mencionar prazo.
Uma eventual entrada da Ucrânia na Otan sempre foi vista pelo presidente russo como uma ameaça, porque colocaria uma aliança militar rival diretamente em sua fronteira. “Para os EUA e seus aliados, é a chamada política de detenção da Rússia, com óbvios dividendos políticos”, disse Putin ao anunciar a invasão. “E para nosso país, é uma questão de vida ou morte, é uma questão do nosso futuro histórico como povo. Não é exagero. É uma ameaça real não só aos nossos interesses, mas à própria existência do nosso Estado e sua soberania.”
Um falso boicote
No decorrer da guerra, porém, os interesses se acomodaram. O discurso dos integrantes da Otan, marcado por um posicionamento contrário à Rússia, perdeu força. Na prática, as condenações constantes à invasão da Ucrânia e as sanções anunciadas como instrumento de pressão não se concretizaram. Os interesses econômicos satisfeitos, segundo Montenegro, contribuíram para isso. A escassez de combustíveis, como gás e petróleo, deixou de ser uma ameaça. Primeiro, por causa da diversificação de fontes, com fornecedores do Oriente Médio, como Catar e Emirados Árabes, sendo acionados. Depois, porque a própria Rússia continuou fornecendo os produtos, a despeito do dito boicote.
“Apesar da retórica de boicote total, o fornecimento de gás natural e petróleo russo para a Europa nunca foi interrompido por completo”, diz o especialista. “Depois da forte diversificação iniciada em 2022, a dependência foi drasticamente reduzida, com o gás russo representando cerca de 12% a 13% das importações europeias, e o petróleo em torno de 2% a 3% em 2026. Ainda assim, importações residuais por meio de GNL e algumas rotas remanescentes continuaram. Houve, inclusive, um aumento no primeiro trimestre de 2026, provocado pelas disrupções associadas à guerra no Irã e ao bloqueio do Estreito de Ormuz.”
Os recursos recebidos pela Rússia, inclusive, têm sido fundamentais para que o país mantenha sua máquina de guerra. Conforme relatou a BBC, até maio de 2025, a Rússia recebeu mais de 883 bilhões de euros com a exportação de combustíveis fósseis desde o início da guerra. Estavam incluídos 228 bilhões de euros dos países que impuseram sanções à Rússia, de acordo com o Centre for Research on Energy and Clean Air.
Esta acomodação de interesses tem isolado cada vez mais a Ucrânia. Zelensky perdeu o apelo midiático do início dos combates. Ao mesmo tempo, o número de mortos e os bombardeios só aumentam. Os discursos do líder ucraniano têm sido ofuscados pelo barulho das explosões. Trump, que já se incomodou com as exigências do ucraniano, admitiu em mais de uma ocasião que a maioria dos territórios conquistados pela Rússia não será devolvida. Esta é uma demanda antiga do governo russo. Putin se aproveitou da aproximação da Ucrânia com a Otan para consolidar o controle sobre áreas de maioria russa.
“Recuperar os territórios perdidos em 2014 e depois de fevereiro de 2022 é agora considerado impossível por todos”, resumiu o ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, no fim de 2025. O próprio Zelensky, nesta mesma época, admitiu, pela primeira vez, a realização de um plebiscito para que a população decida ou não pela cessão dos territórios.
Atualmente, Moscou controla cerca de 75% de Donetsk e 99% da vizinha Luhansk. As duas regiões integradas são conhecidas como Donbas. Zelensky já nem fala mais em entrar na Otan. Os países da entidade, afinal, já não o tratam como prioridade estratégica. Eles também começam a se esquecer da guerra.
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Esse articulista parece ser bem favorável ao Putim.
E o Trump continua dando cabeçadas para todos os lados, perdendo credibilidade em nível mundial.
Zelensky tem sido um exemplo de coragem, patriotismo, caráter e resiliência. Assim como o povo ucraniano. A Rússia não tem o direito de exigir territórios de outros países. Assim como trump não tem direito de anexar a Groenlândia.
Sem procuração, defendo o autor: ele expôs fatos e concluiu logicamente. Agora, dou minha opinião: Zelensky foi acusado de corrupção o ano passado. Podem ser acusações falsas, mas não poria a mão no fogo pelo caráter do ex comediante.