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Pessoas protestam perto do local do crime em Golders Green, noroeste de Londres, após dois homens judeus - um na casa dos 70 anos e outro na casa dos 30 - terem sido esfaqueados | Foto: PA via Reuters
Edição 321

Antissionismo letal

Primeiro, os judeus são obrigados a ver seus irmãos serem esfaqueados; depois, a assistir aos que demonizam sua pátria derramarem lágrimas fajutas em solidariedade

Cansei das lágrimas de crocodilo dos antissionistas. Depois de cada atrocidade persecutória contra judeus, vem o luto fingido dos israelofóbicos. As feridas dos judeus mal foram tratadas, ou seus corpos ainda nem esfriaram, e seus algozes já exibem descaradamente seu lamento hipócrita. “É tão triste”, dizem as pessoas que ganham a vida difamando a nação judaica de forma covarde. “Devemos nos opor a isso”, dizem os sujeitos de kaffiyeh que não defendem nada além da aniquilação do Estado Judeu. Indignados, perguntam: “Por que isso está acontecendo?”. Façam o favor de comprar um espelho.

Aconteceu de novo após o esfaqueamento de dois judeus em frente à sinagoga do bairro de Golders Green, em Londres. A classe ativista fez uma pausa de dois minutos na sua rotina de denunciar o Estado Judeu como o mais perverso que já existiu — e todos que o apoiam como uma escória monstruosa — para se perguntar por que judeus estão levando facadas no pescoço. Eles são como elefantes em uma loja de cristais, perguntando quem quebrou as taças. “O ódio aos judeus é inaceitável”, dizem eles, antes de terminarem seu matchá e voltarem a chamar a terra natal dos judeus de lixo demente, genocida e desumano que usa cães para estuprar palestinos.

A polícia britânica investiga a cena do crime com o apoio de unidades antiterroristas após duas pessoas terem ficado feridas em um ataque a faca em um bairro com uma grande comunidade judaica na área de Golders Green, no norte de Londres, Reino Unido, em 29 de abril de 2026 | Foto: Reprodução/Reuters

Eis a situação dos judeus na Grã-Bretanha do século 21: primeiro, eles são obrigados a ver seus irmãos serem esfaqueados; depois, são obrigados a assistir àqueles que demonizam sua pátria derramarem lágrimas fajutas em solidariedade. Eles veem seu povo sendo espancado por racistas bárbaros que os chamam de “assassinos de bebês” e, em seguida, veem ativistas que passam cada minuto do dia acusando o Estado Judeu da mesma coisa, dizendo: “Ah, isso não é legal”. Ou seja, é um gaslighting de proporções nunca antes vistas.

Ontem, enquanto se recuperavam do horror em Golders Green, os judeus tiveram que engolir a visão de Mothin Ali, vice-líder do Partido Verde, lamentando essa “notícia devastadora”. Um homem que descreveu o pogrom do Hamas em 7 de outubro — no qual judeus não foram apenas esfaqueados, mas mutilados e decapitados — como um “contra-ataque” de “habitantes nativos”. Ele deve ter ouvido uma nota breve e tímida lamentando o ataque em Golders Green no podcast da Novara Media — um veículo cujos funcionários chamaram o 7 de outubro de um “dia de celebração” e um ato de “resistência”. Imagine o tamanho da cara de pau do sujeito para dizer que é legítimo, em certas circunstâncias, usar uma faca para matar judeus e depois se fingir de inocente quando algum canalha em Golders Green tenta fazer exatamente isso.

J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, colocou todos esses falastrões moralistas em seu devido lugar num embate digital com Zarah Sultana, deputada do Partido Trabalhista (Your Party). “O esfaqueamento de dois judeus em Golders Green hoje é profundamente chocante”, disse Sultana. Com um post no X, Rowling interrompeu sem cerimônia o exibicionismo barato da deputada: “Presumo que esta seja uma Zarah Sultana diferente daquela que foi filmada recentemente aplaudindo gritos de ‘intifada’ em um alto-falante, em uma rua em Surrey”. Medalha de ouro para a mulher que sabe o que é uma mulher.

Rowling levanta uma questão seríssima: o que aqueles imbecis carniceiros que gritavam por intifada achavam que estavam invocando? O que eles achavam que intifada significava? Uma moda? Um manifesto? Existe literalmente um evento histórico chamado Intifada das Facas (ou Intifada de Jerusalém). Entre 2015 a 2016, houve uma onda de esfaqueamentos de judeus por militantes palestinos, que deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. Isso sem mencionar a Segunda Intifada, de 2000 a 2005 — um putsch islamofascista contra o Estado Judeu liderado pelo Hamas, no qual mil judeus na Terra Santa foram explodidos, incinerados, mortos a tiros e, claro, esfaqueados.

Joanne Rowling, mais conhecida pelo pseudônimo J. K. Rowling, é uma escritora, filantropa, produtora e roteirista britânica | Foto: Divulgação

Intifada, no contexto do conflito Israel-Hamas, representa literalmente uma apunhalada no coração dos judeus. O enxame de socialistas abastados e de islamistas raivosos que passou os últimos dois anos e meio entoando “globalizem a intifada” ou não sabiam disso, porque são um bando de ineptos, ou sabiam, porque são nazistas. Escolham um lado. A menos, é claro, que queiram justificar: “Meu fascismo é criterioso — eu só apoio o esfaqueamento de judeus nas ruas de Tel-Aviv, não em Golders Green”. Eles certamente perceberão, mesmo envoltos pela névoa moral de sua israelofobia delirante, que essa distinção sutil tende a ser ignorada por aqueles que simplesmente querem esquartejar judeus e que interpretam as frequentes manifestações por intifada como uma permissão para fazê-lo.

É estarrecedor o ímpeto com que os antissionistas se recusam a obedecer às regras linguísticas que impõem a todo o resto. Acham que J.K. Rowling é responsável pela violência antitrans por afirmar que homens não são mulheres. São pessoas que acusam de “islamofobia” quem fala das gangues de estupro. No entanto, fazem parecer que o discurso de ódio cruel, incessante, estridente e desmedido pela única nação judaica do mundo — e por todos que a apoiam, o que inclui a maioria dos judeus britânicos — não causaria estragos. Habitaria uma dimensão superior, onde o argumento abjeto da relação entre discurso e violência feito por uma reles gentalha — nós, segundo eles — não pararia em pé. 

Aparentemente, nossas ponderações causam violência, enquanto a cultura de animosidade inflamada, meticulosamente construída e implacavelmente disseminada por eles contra a nação judaica, não causa mal algum. Ai do judeu que disser que causa. Será condenado por “usar o antissemitismo como arma” para silenciar os “críticos de Israel”. “Vejam como os judeus são cínicos! Eles vão até organizar e monetizar seu próprio sofrimento histórico” — o Holocausto, o 7 de outubro, as recentes atrocidades na Grã-Bretanha — “com o fim de proteger sua preciosa nação genocida da crítica inocente dos pacifistas britânicos.” “Eles mentem, e o fazem por razões escusas, de dupla lealdade.” Esse é o discurso dos antissionistas quando rotulam os judeus de “manipuladores” simplesmente por afirmarem algo que eles mesmos dizem todos os dias: que as palavras têm consequências.

Vamos parar com essa palhaçada. Nossa doença moral é caso de urgência. A verdade é que a indústria do ódio contra Israel está colocando em perigo o povo judeu em todos os lugares. Não é mera opinião — é um vasto sistema de doutrinação moral adotado por instituições de educação e cultura que elege o sionismo como a ideologia mais repulsiva do nosso tempo, e acusa os sionistas de promover o apartheid, a colonialismo e o genocídio. Golders Green está cheio de sionistas. Conheço alguns deles. São boas pessoas. No entanto, de acordo com a poderosa estrutura ideológica do antissionismo, eles são agentes do caos, cúmplices e fantoches de um regime cujos crimes são tão bárbaros que apenas refletir sobre eles já é como “abrir uma porta para os recantos mais sombrios do Inferno”. É simplesmente impossível dizer que o antissionismo não é a causa da violência contra os judeus.

Um judeu ortodoxo caminha perto do local onde um homem foi preso na quarta-feira após um ataque a facadas em que dois judeus ficaram feridos na área de Golders Green, que abriga uma grande população judaica, em Londres, Grã-Bretanha, 30 de abril de 2026 | Foto: Hannah McKay/Reuters

“É moralmente coerente opor-se tanto ao antissemitismo quanto ao genocídio cometido por Israel”, disseram exércitos de esquerdistas após o ataque em Golders Green. Não é. Na verdade, é o último — a difamação incessante da “entidade sionista” como uma máquina genocida sedenta do sangue de inocentes — que inflama o primeiro. Há um esforço determinado a traçar uma distinção moral entre o “antissemitismo real”, como o que motivou o ataque em Golders Green, e o antissionismo. De jeito nenhum. O antissionismo é o solo contaminado no qual a ira violenta contra os judeus criou raízes. É o movimento de ódio mais ameaçador, poderoso e influente do nosso tempo. É a ideologia da nova classe dominante. É disseminado implacavelmente nas vias digitais e na cultura popular. É um alvo pendurado no pescoço dos judeus em todos os cantos da Terra. É preciso derrotá-lo urgentemente.


Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy

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4 comentários
  1. fabio de souza arcas
    fabio de souza arcas

    Muito escalrecedor o artigo, A Europa irá pagar um preço alto por não impedir esse fanáaticos. Aliás todo europeu sofrerá.

  2. Adriano M G A
    Adriano M G A

    Parabéns a Oeste por trazer clareza a esse tema, que sem dúvida é bastante complexo!!! Seria importante o Brasil ter mais veículos de mídia independentes como esse…..

  3. Adriano M G A
    Adriano M G A

    Ótima matéria! Os judeus estão sim sendo perseguidos indiscriminadamente e o poder público não está fazendo nada, principalmente na Europa! E um dos grandes culpados é justamente a mídia tradicional, que busca apenas likes e não consegue trazer profundidade ao tema, inflamando ainda mais os ânimos. A Europa nos próximos 10 anos terá que escolher se continuará sendo um lugar pacífico, ou se tornará uma zona de guerra, e isso não tem nada a ver com os judeus….

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