Alguns serviços de inteligência são tão famosos que ganham séries e filmes em homenagem a eles. Os casos mais conhecidos são, obviamente, a CIA americana e o Mossad israelense. E quem nunca ouviu falar do MI6, o lugar onde James Bond trabalha sob as ordens de M? O Seal Team volta e meia está na tela. No mundo real, a realidade é muito mais complexa. Cada país tem sua quantidade maior ou menor de serviços de inteligência e operações especiais. Aqui vai uma pequena mostra das forças secretas dos países mais significativos nesta era de permanentes conflitos. Você provavelmente nunca ouviu falar da maioria dessas organizações. Elas operam nas sombras. (Os nomes foram traduzidos para o português. As siglas estão em inglês.)
Estados Unidos
Dezoito organizações compõem a mais sofisticada e poderosa coleção de serviços de inteligência do mundo. Elas são coordenadas pelo ODNI, o Escritório do Diretor da Inteligência Nacional. A diretora é Tulsi Gabbard, nomeada pelo governo Donald Trump. Teoricamente, é a pessoa mais bem informada do mundo.

Essa constelação de serviços tem como polo central a famosa CIA, ou Agência Central de Inteligência, com sede em Langley, no estado da Virginia, a poucos quilômetros da capital, Washington. Enquanto o FBI (o equivalente à Polícia Federal) atua internamente, a CIA realiza coleta de inteligência no exterior. Eventualmente realiza operações clandestinas, algumas de caráter militar.

Menos conhecida que a CIA, mas igualmente importante, é a NSA, ou Agência de Segurança Nacional, braço de inteligência eletrônica dos EUA. Sua área é a interceptação de comunicações e a defesa contra ataques cibernéticos, uma questão crucial nos conflitos de hoje.
A DIA (Agência de Inteligência de Defesa) coordena as informações dos diversos órgãos militares e a NGA (Agência Nacional de Inteligência Geoespacial) cuida da análise de imagens por satélite. Fora isso, cada uma das forças armadas possui seu próprio serviço de inteligência.

Os EUA contam também com os mais letais serviços de operações especiais, cujas ações militares cirúrgicas são realizadas por pequenos grupos de soldados altamente treinados. O mais famoso é o United States Navy SEALs, especializado em operações marítimas, aéreas e terrestres. Seu grupo mais secreto é o SEAL Team 6 (DEVGRU). Foi o Team 6 que, em 2 de maio de 2011, realizou a arriscada missão de invadir o Paquistão e executar Osama Bin Laden, líder da organização terrorista Al Qaeda.

Outra força de destaque é a 1st Special Forces Operational Detachment-Delta, conhecida como Delta Force, voltada para contraterrorismo, resgates de reféns e ações de altíssimo risco. É considerada o equivalente terrestre dos SEALs. Os Green Berets são especialistas em guerra não convencional, treinamento de forças estrangeiras e operações de guerrilha.
Israel
A sigla Mossad significa, em hebraico, Instituto para Inteligência e Operações Especiais. É responsável por operações externas, espionagem e ações clandestinas em território estrangeiro — incluindo missões de captura e eliminação de alvos considerados estratégicos. Mais do que isso, tornou-se um benchmark no mundo da espionagem, com um padrão de qualidade quase inatingível para os rivais. Entre outras façanhas, conseguiu se infiltrar amplamente no Irã, dominado por um dos mais brutais regimes do mundo.

No plano interno, o Shin Bet (ou Shabak) atua na contrainteligência, segurança doméstica e combate ao terrorismo dentro de Israel e dos territórios ocupados. Já a inteligência militar é conduzida pela Aman, que integra informações de campo, vigilância eletrônica e análise estratégica para apoiar as Forças de Defesa de Israel. Um dos destaques tecnológicos é a Unidade 8200, subordinada à Aman, especializada em interceptação de sinais, guerra cibernética e criptografia, frequentemente comparada à americana NSA.
No campo das operações especiais, a mais famosa unidade é a Sayeret Matkal, ligada à inteligência militar e especializada em reconhecimento profundo e contraterrorismo. Foi essa unidade que conduziu a célebre operação de resgate de um avião sequestrado no aeroporto de Entebbe, Uganda, em 1976. Outra força de elite é a Shayetet 13, equivalente aos Navy SEALs, que realiza operações marítimas, infiltração costeira e sabotagem. Já a Yamam é uma unidade policial de elite focada em resgates de reféns e intervenções rápidas dentro do território israelense.
O modelo israelense privilegia inteligência em tempo real, precisão cirúrgica e uso intensivo de tecnologia.
Reino Unido
Possui grande tradição e influência em inteligência no mundo, com estruturas que remontam ao início do século 20. O sistema é coordenado pelo Comitê Conjunto de Inteligência (JCC), que reúne e analisa informações estratégicas para o governo.

O principal órgão externo é o Serviço Secreto de Inteligência (MI6), responsável por espionagem fora do país e operações clandestinas. Sua atuação inspirou a criação do personagem James Bond. O Serviço de Segurança (MI5) atua na contrainteligência, combate ao terrorismo e proteção da segurança nacional dentro do território britânico.
No campo das operações especiais, a unidade mais famosa é o Serviço Especial Aéreo (SAS), referência mundial em contraterrorismo, reconhecimento e ações de alto risco. O Serviço Especial de Barcos (SBS) é o equivalente naval, especializado em operações marítimas e anfíbias. Essas forças operam sob o comando conjunto das Forças Especiais do Reino Unido (UKSF). O modelo britânico combina tradição, discrição e forte cooperação internacional.
Rússia
A Federação Russa mantém uma das mais antigas e sofisticadas tradições de inteligência do mundo, herdada da era soviética, principalmente da sinistra KGB. Hoje, o sistema é fragmentado em várias agências com funções específicas, mas altamente coordenadas.
O principal órgão de atuação externa é o Serviço de Inteligência Externo (SVR), responsável por espionagem no exterior, coleta de informações políticas e operações clandestinas fora do país. No plano interno, o Serviço de Segurança Federal (FSB) exerce funções amplas de contrainteligência, combate ao terrorismo e segurança doméstica, sendo frequentemente comparado ao FBI, mas com poderes mais extensos. É a “polícia política” do regime.

A inteligência militar russa é conduzida pela Direção Principal do Estado-Maior (GRU), envolvida em operações militares, espionagem tática e ações encobertas no exterior. No campo das operações especiais, a Rússia conta com unidades de elite altamente treinadas.
A mais conhecida é a Spetsnaz, um termo genérico que engloba diversas forças especiais ligadas principalmente à GRU, especializadas em reconhecimento, sabotagem e ações diretas. Entre essas unidades, destacam-se grupos de elite como Alpha e Vympel, vinculados ao FSB, voltados para contraterrorismo e operações de alto risco. O modelo russo privilegia sigilo, ação indireta e integração entre espionagem clássica e operações militares.
China
Assim como ocorre na Rússia, o aparelho de segurança chinês está voltado para a proteção do Partido Comunista, no poder há 76 anos. A China construiu, nas últimas décadas, um sistema de inteligência altamente eficiente e em rápida expansão. Diferentemente do modelo ocidental, suas agências operam de forma mais centralizada e integrada ao aparato político do Estado.

O principal órgão de inteligência externa é o Ministério da Segurança do Estado (MSS), responsável por espionagem no exterior, contrainteligência e segurança interna. O MSS combina funções que, em outros países, estariam divididas entre várias agências. No campo militar, a inteligência é conduzida pelo Exército Popular de Libertação (PLA), especialmente por meio de seus departamentos estratégicos voltados à guerra eletrônica, vigilância e coleta de informações.
Unidades ligadas ao PLA, como a Força de Apoio Estratégico, atuam em guerra digital, espionagem industrial e operações de influência online — áreas em que a China se tornou uma das maiores potências globais. O outro componente da inteligência chinesa é o que já conhecemos: a falta de limites entre o público e o privado. Redes informais e empresariais são usadas para coleta de dados, envolvendo universidades, empresas de tecnologia e cidadãos no exterior.
A China mantém unidades de elite dentro do PLA, frequentemente agrupadas sob o termo “forças de operações especiais” (SOF). Essas unidades são treinadas para reconhecimento profundo, sabotagem, contraterrorismo e ações rápidas em cenários de conflito regional. O modelo chinês combina inteligência estatal, poder militar e controle tecnológico em larga escala.
Irã
A Revolução Islâmica de 1979 redefiniu suas estruturas de poder. O sistema é voltado tanto para a defesa interna do regime, como para a repressão a dissidentes e a projeção de influência no Oriente Médio. O principal órgão civil é o Ministério de Inteligência (MOIS), responsável por espionagem, contrainteligência e segurança interna. Ele atua dentro e fora do país, monitorando opositores e coletando informações estratégicas.

Mas a maior concentração de poder hoje no Irã está no IRGC, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que possui sua própria estrutura de inteligência, muitas vezes mais poderosa e influente que o próprio MOIS. A inteligência do IRGC está profundamente envolvida em operações externas e na segurança do regime. Um dos seus braços mais importantes e conhecidos é a Força Quds, responsável por operações no exterior, apoio a grupos aliados e ações clandestinas em diversos países do Oriente Médio. Atua como unidade de elite para missões externas, incluindo treinamento de milícias, logística e ações indiretas.
O modelo iraniano privilegia operações indiretas, uso de intermediários e guerra assimétrica. Essa estratégia permite ao país ampliar sua influência regional mesmo com recursos limitados. Hoje, toda essa rede de guerra e repressão interna enfrenta um momento de incerteza com os ataques dos EUA e de Israel.
Coreia do Norte
O país mantém um sistema de inteligência altamente fechado, centralizado e subordinado diretamente ao regime liderado pela dinastia Kim e ao Partido dos Trabalhadores da Coreia. O objetivo principal é garantir a sobrevivência do regime, controlar a população e conduzir operações externas de influência e espionagem.
O principal órgão de inteligência externa é o RGB, o Departamento Geral de Reconhecimento, responsável por espionagem, operações clandestinas e ações encobertas no exterior. O RGB também está ligado a operações cibernéticas e campanhas de desinformação.
No plano interno, a segurança e contrainteligência são conduzidas pelo Ministério da Segurança do Estado, que exerce controle total sobre a população, monitorando dissidências e prevenindo ameaças ao regime comunista. Outro órgão relevante é o Ministério da Segurança Popular, que atua como força policial e auxilia no controle social e na repressão interna.
Um dos pontos fortes da Coreia do Norte é sua atuação em guerra cibernética, com grupos ligados ao RGB — como o Lazarus Group — conduzindo ataques digitais, espionagem financeira e operações de hacking em escala global.
As forças especiais estão subordinadas ao Exército Popular Coreano e incluem brigadas aerotransportadas, unidades navais e comandos de reconhecimento profundo. Há também unidades especializadas em infiltração por túneis e submarinos, refletindo a geografia e a estratégia da península coreana.
Coreia do Sul

A Coreia do Sul desenvolveu um sistema de inteligência moderno e altamente profissional, moldado pela constante tensão com a Coreia do Norte e pela necessidade de cooperação com aliados ocidentais, especialmente os Estados Unidos.
O principal órgão é o Serviço de Inteligência Nacional (NIS), responsável por inteligência externa, contrainteligência e segurança nacional. O NIS atua tanto na coleta de informações sobre o regime norte-coreano quanto na prevenção de ameaças internas.
No campo militar, a inteligência é conduzida pelo Comando de Inteligência de Defesa, que apoia as Forças Armadas com análise estratégica e monitoramento de atividades militares da Coreia do Norte. A Coreia do Sul também investe fortemente em inteligência tecnológica, incluindo vigilância eletrônica, satélites e capacidades cibernéticas, muitas vezes em parceria com os EUA.
No campo das operações especiais, a unidade mais conhecida é o 707º Grupo de Missões Especiais, uma força de elite do exército especializada em contraterrorismo e resgate de reféns. Outra unidade de destaque é a Flotilha de Guerra Especial da Marinha da República da Coreia (UDT/SEAL), focada em operações marítimas e anfíbias. O modelo sul-coreano combina tecnologia avançada, disciplina militar e integração com parceiros estratégicos. Diante da ameaça constante do Norte, a Coreia do Sul mantém um dos sistemas de inteligência e operações especiais mais bem preparados e vigilantes do mundo.
Brasil
O Brasil possui um sistema de inteligência voltado para a defesa do Estado, combate a ameaças internas e apoio à política externa. A coordenação geral é feita pelo Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), que integra diversos órgãos civis e militares.

O principal é a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), responsável pela produção de inteligência estratégica e assessoramento direto ao governo federal. No campo militar, destaca-se o Centro de Inteligência do Exército (CIE), que coleta e analisa informações de interesse do Exército, além de atuar em contrainteligência. O Centro de Inteligência da Marinha (CIM) e o Centro de Inteligência da Aeronáutica (CIAer) estão voltados para suas respectivas áreas estratégicas.
O Exército Brasileiro conta com o Comando de Operações Especiais, sediado em Goiânia, que reúne unidades de elite como os “Comandos” e as Forças Especiais. Os chamados “Kids Pretos” são especializados em operações de alto risco, reconhecimento profundo e ações não convencionais. A Marinha mantém o GRUMEC (Grupamento de Mergulhadores de Combate), voltado para operações subaquáticas e ações especiais marítimas. Já a Aeronáutica possui o PARA-SAR, especializado em busca, salvamento e operações especiais aerotransportadas. Esses serviços de operações especiais brasileiros sempre tiveram muito prestígio, inclusive no exterior.
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Muito interessante.