Os termômetros em São Paulo marcam 34ºC numa tarde de março. Sob um céu com poucas nuvens, o Aeroporto de Congonhas registrará, entre às 6h e às 23h, quase 700 pousos e decolagens — uma média de 35 procedimentos por hora, um a cada minuto e meio. Ao menos 60 mil passageiros passam por lá diariamente. Todo esse tráfego intenso nos ares é administrado pela torre de controle.
A cabine de 126 metros quadrados, localizada a 44 metros de altura — o equivalente a um prédio de 15 andares — na lateral da pista de pousos e decolagens, é equipada com 17 computadores. A mesa do coordenador fica na entrada da sala. Outros sete funcionários, todos militares da Força Aérea Brasileira (FAB), permanecem frente a uma parede de vidro, o que garante visão ampla da pista, do céu e dos prédios da capital paulista.
Às 15h, a tensão toma conta da torre: é preciso priorizar o pouso de um avião militar com órgãos para transplante. Ao mesmo tempo, se aproxima um helicóptero da Polícia Civil, encarregado de levar os órgãos com urgência ao Hospital das Clínicas. “O avião precisa arremeter”, dizem os controladores. “A aeronave sofreu uma pane.” A comunicação com o piloto é intensa. O coordenador levanta-se e acompanha o processo com atenção, enquanto os outros permanecem com os olhos fixos no céu e nos monitores. O helicóptero muda a rota rapidamente e o avião segue para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. A apreensão dá lugar ao alívio. “Deu certo”, comemoram os controladores. O episódio ocorreu num dos horários de maior movimento no aeroporto.
Enquanto parte da equipe celebra, outra funcionária autoriza os próximos pousos e decolagens. A controladora ouve pelo rádio a informação de que um piloto não está preparado para aterrizar. Sem perda de tempo, viabiliza o pouso de outro avião. “Gol 3142, vento de 200 graus a 8 nós, pista à direita, autorizado para pouso”, diz ao rádio. Em menos de cinco minutos, a aeronave surge entre os prédios da zona sul de São Paulo, passa a 100 metros acima dos carros que transitam na Avenida Washington Luis antes de pousar na pista que tem menos de dois quilômetros de extensão. Enquanto a aeronave aterrissa, a controladora já autoriza a decolagem de outra. “Latam 3456, vento de 140 graus a 10 nós, pista à direita, autorizado para decolagem.” Segundos depois, confirma a chegada do próximo avião.

O trabalho é intenso. Os controladores dividem a atenção entre a pista, o céu e os monitores que indicam os aviões se aproximando. O rádio não silencia. As vozes se sobrepõem, intercaladas por códigos e números, em uma rotina que não permite pausas. A cada duas horas, os funcionários são obrigados a descansar uma hora, em razão da intensidade das atividades. O turno é de oito horas.
A rotina na torre evoluiu muito nas últimas décadas. Nos anos 1950, por exemplo, os radares eram menos precisos. Os controladores dependiam mais da coordenação por voz para administrar os voos. Naquela época, a cidade de São Paulo tinha pouco mais de 2 milhões de habitantes, em relação aos 12 milhões atuais. A região do Aeroporto de Congonhas ainda estava em processo de urbanização, com poucos prédios e muitos terrenos vazios. O movimento no terminal era muito menor e a comunicação com os pilotos limitada. O avanço tecnológico — GPS, sistemas digitais e navegação por satélite — reduziu os riscos, mas não eliminou a pressão sobre os profissionais.
Hoje em dia, os aviões são controlados por três setores. A torre do aeroporto é responsável pela Zona de Controle, que abrange um raio de 8 a 10 quilômetros de distância da pista. Neste perímetro, válido tanto para pousos quanto para decolagens, as aeronaves se encontram numa altitude entre 0 e 2 mil pés (cerca de 600 metros). A partir daí, a comunicação com a tripulação é de responsabilidade do Controle de Aproximação, até a aeronave se estabilizar a 10 mil pés (3 mil metros), a chamada altitude de cruzeiro. Deste ponto em diante, passam para o radar do Controle de Área.

O Controle de Aproximação administra as filas de aviões que se aproximam do destino. Quando uma aeronave precisa de prioridade para pousar, a cabine de controle coordena a espera dos outros aviões. “Enquanto aguardam, precisam voar em círculos, o chamado de ‘procedimento de espera’”, afirma Charles do Nascimento, especialista de controle de tráfego aéreo. “O objetivo é priorizar a aterrissagem de outro avião que vem na sequência.”
Trabalhar na torre de controle do Aeroporto de Congonhas exige atenção redobrada. Rodeado de prédios, o campo de aviação é o segundo mais movimentado do país (atrás apenas do Aeroporto Internacional de Guarulhos). Fica a pouco mais de 10 quilômetros do centro da capital paulista, razão pela qual é o predileto da maioria dos passageiros. A pista é curta, com menos de 2 quilômetros de extensão. Para efeitos de comparação, a faixa de pouso Guarulhos tem quase 4 quilômetros.
A responsabilidade da torre de controle vai além de pousos e decolagens. À direita da cabine, um funcionário revisa o plano de voo, a matrícula e a rota de uma aeronave. Ele valida o documento em menos de 30 segundos. O avião deixa a posição de embarque e se dirige ao ponto de espera. Nesse período, o controlador responsável por gerenciar a pista ordena a fila das aeronaves que estão a ponto de decolar. Um terceiro observa se há helicópteros sobrevoando a Zona de Controle. Esse controlador exerce uma função importante: São Paulo possui a maior frota de helicópteros do mundo, com mais de 400 aparelhos e 260 helipontos, dos quais 139 estão na região que coincide com a rota de aproximação da pista principal de Congonhas.

A sargento Krízia França, da FAB, trabalha na torre de Congonhas. “Algumas aeronaves precisam de socorro. Nesse caso, as coordenações ficam bastante intensas. Houve casos que nos obrigaram a parar as operações no aeroporto. Uma pessoa que estava dentro do avião precisava de socorro médico imediato. Priorizamos o pouso e indicamos onde o piloto deveria posicionar a aeronave para o desembarque rápido. Fizemos contato com a administração do aeroporto e com o corpo de bombeiros para iniciar o atendimento médico.”
No Brasil, o controle do espaço aéreo é feito majoritariamente por militares da FAB, sob o comando do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). Em 2025, o país registrou mais de 3 milhões de pousos e decolagens. Os números evidenciam a dimensão das operações. Em média, cerca de 8 mil aeronaves pousam ou decolam todos os dias no território nacional.
Para ser um controlador, é necessário fazer o Curso de Formação de Sargentos, com especialidade em Controle de Tráfego Aéreo, na Escola de Especialistas da Aeronáutica. Durante o curso, o aluno aprende regras do tráfego aéreo, meteorologia, navegação aérea, comunicação por rádio e procedimentos de emergência. O curso dura dois anos. Depois de formados, os sargentos passam a fazer parte de um efetivo de 4,5 mil controladores em todo o país. Ao todo, os profissionais controlam aproximadamente 22 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo, entre terra e mar — uma das maiores áreas de controle do mundo.

Mesmo todo o treinamento e a tecnologia não conseguem impedir tragédias como a ocorrida em 2007, em Congonhas, com um Airbus A-320 da TAM. A aeronave não conseguiu parar depois do pouso sob forte chuva, atravessou a pista e atingiu um prédio da própria companhia aérea situado do outro lado da avenida. O desastre, que causou a morte de quase 200 pessoas, evidenciou os riscos de um aeroporto localizado no meio da cidade, a despeito do esforço e da eficiência da torre. A pista passou por reformas depois da tragédia, com melhorias no escoamento da água e novo pavimento para melhorar a aderência dos pneus.
Importância mundial
Já houve situações dramáticas em que a atuação dos controladores ajudou a evitar tragédias ainda maiores. Durante os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, por exemplo, os controladores norte-americanos tiveram de coordenar pousos imediatos de milhares de aeronaves nos Estados Unidos e no Canadá depois do fechamento do espaço aéreo do país, numa das operações mais complexas da história da aviação. As decisões eram tomadas em segundos. Os controladores tinham a missão de pousar em poucos minutos todos os aviões que se encontravam no ar no momento do atentado. Acreditava-se que poderia haver um ataque terrorista nos ares. O cenário era incerto.
Em situações-limite ou em dias normais, nas torres de controle não há margem para hesitações. Cada pouso e decolagem depende de decisões tomadas em segundos. Enquanto a cidade segue o ritmo no chão, o céu exige precisão absoluta.
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Uma das melhores reportagens de Oeste, mas faltou o salário dos controladores.
Bela reportagem.