Tenho pouca simpatia pelas empresas de tecnologia bilionárias, Meta e Google, que foram obrigadas a pagar indenizações que somam US$ 6 milhões a uma mulher de 20 anos. Mas tenho ainda menos simpatia pela ideia de “vício em redes sociais” que culminou nesse absurdo. Kaley (cujo nome completo não foi divulgado) convenceu um júri de Los Angeles de que se tornou viciada no YouTube (Google) aos 6 anos, e no Instagram (Meta), aos 9. Ela alegou que ambos os vícios tiveram efeitos deletérios em seu bem-estar, levando à depressão e automutilação aos 10 anos.
Essas queixas deveriam ter sido tratadas com muito mais ceticismo. Qualquer depoimento baseado nas lembranças de um adulto sobre sua infância precisa ser questionado. Além disso, estabelecer uma relação causal entre o uso de redes sociais de Kaley, que começou há 14 anos, e seus problemas psicológicos subsequentes ignora todas as muitas variáveis que também poderiam tê-la influenciado, como sua vida familiar e uma gama de possíveis experiências ruins.
O que acho mais espantoso é a relutância em perguntar por que uma criança de 6 anos foi autorizada a assistir tanto vídeo no YouTube ou rolar infinitamente a tela do celular. Onde estavam os pais dela? É difícil evitar a conclusão de que o verdadeiro problema revelado por esse caso infeliz é o papel desempenhado pela ausência de responsabilidade dos adultos.
O problema central revelado por esse caso é a aversão à responsabilidade que agora reina no Ocidente, fortemente apoiada pela narrativa do “vício”. Vivemos em um mundo onde os maus hábitos foram rebatizados, medicalizados e diagnosticados como vícios. Ainda me lembro dos dias em que esse rótulo psicológico era usado apenas em referência a álcool e drogas. Desde os anos 1980, no entanto, o termo vício vem passando por uma expansão conceitual. Do sexo às compras, praticamente toda forma de comportamento obsessivo foi patologizada como um transtorno psicológico grave que priva as pessoas de autonomia. Hoje, não apenas fumantes inveterados, alcoólatras e usuários de drogas são considerados “viciados”, mas também todos os que manifestam alguma compulsão — de usuários de celular a comedores de bolo, qualquer um pode ser enquadrado nessa definição expandida.

A evolução da indústria do vício é impulsionada em parte por indivíduos que demandam isenção de responsabilidade por seu mau comportamento. Também é alimentada pelo “Complexo Industrial da Terapia”, que visa a transformar pessoas comuns em pacientes vulneráveis.
Sem dúvida, há muitos aspectos preocupantes no uso de redes sociais entre jovens. E, sem dúvida, as plataformas de redes sociais têm pouco interesse em atuar como babás digitais de seus jovens clientes. Mas diagnosticar esse problema como “vício em redes sociais” é mistificar e medicalizar o que é, na verdade, um desafio social e cultural enfrentado pela sociedade moderna.
O que realmente me preocupa é uma sociedade viciada em vícios. Ao longo dos anos, termos conotando algum tipo de vício proliferaram, incluindo workaholic (“viciado em trabalho”), shopaholic (“viciado em compras”), viciado em pornografia, ajudante compulsivo, além de viciado em exercícios, cirurgias plásticas, chocolate etc. Pessoas que rezam demais podem ser diagnosticadas como viciadas em religião. Algumas delas podem precisar ser desmamadas da “Deusaína”. E se alguém estiver obcecado por uma pessoa, amando-a mais do que intensamente, pode muito bem estar viciado em amor.
Profissionais que promovem uma variedade cada vez maior de vícios afirmam que seu negócio consiste em fornecer tratamento e ajuda. No entanto, ao medicalizar cada dimensão do comportamento humano, eles nos transformam em pacientes e clientes. Considere o rótulo moderno de “personalidade viciada”, que encoraja as pessoas a cederem aos seus piores instintos. Ele retrata supostos viciados como vítimas de circunstâncias além de seu controle e os aconselha literalmente a aceitar a impotência como a característica determinante de sua existência. Grupos de ajuda como Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA) e Sexólicos Anônimos imitam a abordagem dos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos (AA). O primeiro deles, no caso do vício em sexo, é reconhecer a “impotência diante da luxúria”.

A promoção desse mito da impotência humana fomenta não apenas a normalização do vício, mas também a busca pelo diagnóstico. Essa condição de dependência é constantemente reforçada pelo incentivo à procura por ajuda profissional. O resultado é a contínua disseminação de uma nova cultura de dependência.
A narrativa do vício é tão poderosa que passou a ser utilizada como meio para a interpretação de problemas existenciais. Pessoas como Kaley foram doutrinadas a encarar suas dificuldades pelo prisma do vício. Agora ela acredita genuinamente que, aos 6 anos de idade, tornou-se viciada em YouTube. E que a culpa toda disso é do próprio YouTube.
Devemos resistir à narrativa do “vício” e ao senso de dependência que ela cria. Nós, humanos, somos agentes morais independentes. E se assim não fosse, então tudo nos seria permitido, porque não poderíamos ser responsabilizados por nada. É realmente nesse mundo que queremos viver?
Frank Furedi é diretor-executivo do think tank MCC-Bruxelas.
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