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Aeronave pulverizando agrotóxicos, fertilizantes e sementes em uma plantação de soja em uma fazenda na Amazônia | Foto: Shutterstock
Edição 314

A aviação e o agronegócio

Os aviões eram a ligação do sertão com a civilização

Ainda será preciso escrever sobre o papel importante do avião no agronegócio nesse continente chamado Brasil. Para a nossa família, sempre foi o meio de transporte pioneiro, pois, com fazendas abertas no Norte do país, os monomotores eram a única maneira de se chegar em regiões distantes e sem acesso por terra. São histórias que, embora hoje possam parecer estranhas, contam um pouco desta jornada dos desbravadores do Norte do Brasil.

A primeira coisa a se fazer, depois da derrubada da mata, era achar uma lugar plano para a construção da pista de pouso para os Cessna 172 “pé duro”. Como não havia máquinas, após a abertura no machado e um acerto dos desníveis do chão na enxada, usava-se um couro de vaca seco para a “terraplanagem”. Passando várias vezes e em sentidos diferentes, o couro ia acertando as arestas do terreno e o resultado era uma “pista” para os monomotores. A partir daí, os aviões eram a ligação do sertão com a civilização, transportando de doentes a mantimentos, ou até mesmo animais vivos.

O Cessna 172, avião utilizado no desbravamento do agronegócio no interior do Brasil dependeu da aviação pioneira para conectar fazendas isoladas à civilização na base do suor e do trabalho duro | Foto: Shutterstock

Com o caminhar história, a família resolveu adquirir um dos primeiros bimotores Seneca, ainda importados e que foram uma verdadeira revolução nesses sertões brasileiros. Um dos episódios mais pitorescos da chegada dessas novas máquinas aconteceu em uma de nossas fazendas localizadas no Pantanal mato-grossense.

A fazenda era de pecuária de cria e tinha vários vaqueiros, entre os quais se destacava uma dupla de homens extremamente fortes e atarracados chamados de “Mirto” e “Nino”.   Dedicados, eram trabalhadores simples, rudes e bem acostumados com as lides pantaneiras, mas que desempenhavam de maneira exemplar as suas funções de campeiros.

Foi numa manhã de segunda-feira que o primeiro bimotor pousou na pista da Fazenda Peixe de Couro, no coração do Pantanal. O ronco diferente dos dois motores já anunciava que algo novo estava chegando.

Durante todo o dia, ainda acanhados com a sensação diferente daquele avião com dois motores, nenhum vaqueiro fez qualquer comentário. Após uma jornada exaustiva de trabalho com uma vacada parida bem ligeira, como de costume, peões se dirigiam à varanda da sede da fazenda para a sessão de “causos” da noite.

O primeiro a chegar foi o Nino. Aproximou-se de nosso piloto, cujo apelido era “Comovac”, pois, pela dificuldade de mão de obra, era um verdadeiro curinga: comandante, motorista e vaqueiro. Nino se ajeitou de cócoras e perguntou como ele conseguia sair da cidade e chegar até a fazenda, sem erro de cálculo. O piloto abriu o mapa e explicou que traçava a rota, sendo possível chegar ao destino sem erros. Passado algum tempo, outros vaqueiros foram chegando, dentre eles o Mirto, que fez a mesma pergunta.  Antes que o piloto tivesse tempo de pronunciar uma simples palavra, Nino retrucou:

— Oh, Mirto, ocê não sabe? (Como se ele fosse uma autoridade em aeronáutica.)

Como o Mirto ficou surpreso com o conhecimento do companheiro, veio a resposta de maneira curta e grossa:

— É fácil, o Comovac sai de Rio Preto e vem “rotando” até a fazenda!!!

Com um estrondosa gargalhada de meu pai pelas “indisposições gástricas” de nosso piloto, ele interveio e corrigiu:

— Avião é algo muito bom, ajuda muito… mas é somente para trabalhar. Ainda é muito caro e não dá para ficar passeando.

Houve um silêncio geral na plateia de campeiros e caseiros com a explicação do patrão. Que continuou e reforçou:

— Vejam bem, cada vez que eu desço nesta fazenda, “morrem três bois”… (uma referência aos gastos com a viagem.)

O silêncio continuou, mas o Nino, sempre ele, perguntou espantado:

— Nossa, Sô Antonio, não sabia que os bois tinham tanto medo desse novo avião assim!!!!

Foi em situações como essa, por este imenso continente chamado Brasil, que o avião foi abrindo matas e formando novas cidades. É uma belíssima página da história de um país que tem uma das agriculturas mais vibrantes do planeta. Portanto, nada mais justo do que a homenagem do agronegócio à aviação brasileira.

O reconhecimento do agronegócio à aviação nacional faz justiça às máquinas que abriram caminho aéreo para o desenvolvimento bruto no campo | Foto: Shutterstock

Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera

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