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Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 314

A era dos supercentenários

Chegar aos cem anos de idade já não é tão raro. Chegou a vez dos que passam dos 110

Dependendo do cálculo, hoje existem cerca de 700 mil a 900 mil pessoas com cem anos ou mais no mundo. Para uma população global de 8 bilhões de pessoas, isso significa que, a cada grupo de 12 mil habitantes, poderá haver um centenário. Em 1950, havia apenas 23 mil pessoas com idade nos três dígitos. Cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que esse número pode chegar a 3,7 milhões até 2050.

A longevidade dos humanos hoje já é medida em supercentenários — pessoas que chegam aos 110 anos. O cálculo é que existam de 100 a 150 supercentenários, o que não é fácil de determinar por falta de documentação precisa. A pessoa mais longeva registrada na História é Jeanne Calment, francesa que viveu inacreditáveis 122 anos e 164 dias e faleceu em 1997. Os segredos de sua longevidade? Fumava todos os dias, comia chocolate, tomava uma taça de vinho do Porto de vez em quando e tinha uma dieta rica em azeite de oliva.

A francesa Jeanne Calment, oficialmente a pessoa mais velha do mundo, comemorou seu 122º aniversário com um bolo de chocolate. O Guinness Book of Records lista Calment como a pessoa mais velha que já viveu e possui uma certidão de nascimento datada de 21 de fevereiro de 1875 para comprovar a afirmação | Foto: Reprodução/Reuters

Se você é homem, não tenha tanta esperança de chegar tão longe quanto Jeanne — 90% dos supercentenários do mundo são mulheres. Todas as dez pessoas mais longevas já registradas são mulheres. As mulheres têm dois cromossomos X; os homens têm um X e um Y. Se um gene defeituoso aparece em um dos X, a mulher ainda pode compensar com o outro. Homens não têm essa “cópia de segurança”. Esse duplo X reduz a incidência de várias doenças genéticas e aumenta a resiliência biológica feminina ao longo da vida.

Mulheres têm níveis mais altos de estrogênio, o que protege o sistema cardiovascular e melhora o metabolismo de gorduras. Mulheres produzem respostas imunológicas mais fortes e podem sobreviver melhor a infecções. Por outro lado, homens historicamente fumaram mais, beberam mais álcool, trabalharam em ocupações mais perigosas e participaram mais de guerras.

A importância dos micróbios

Ilustração: Shutterstock

Agora, segundo matéria da revista Science Focus, foi descoberto mais um fator que vai determinar se a pessoa vai viver muito ou não. O fato ocorreu em 2024, quando faleceu a mulher mais velha da época: a americana de origem espanhola Maria Branyas, com 117 anos. Antes de morrer, Maria doou seu corpo para estudos. Pesquisadores descobriram que, além de uma genética favorável, seus intestinos estavam povoados por micróbios conhecidos como Bifidobacterium — encontrados em suplementos por suas propriedades desinflamatórias e sua capacidade de aumentar os sistemas de imunidade.

Um estudo chinês de 2023 examinou os intestinos de 297 centenários. Descobriu que “centenários possuem uma assinatura do microbioma diferente, que permite a longevidade”. Quando envelhecemos, as barreiras contra a invasão de micróbios “exóticos” vão se enfraquecendo.

E, além de micróbios saudáveis, o que devemos cultivar? Músculos. A fraqueza dos músculos gera uma série de problemas que levam à deterioração de nossas vidas. Com músculos fracos, ficamos limitados em nossas escolhas e dependentes. Pior — músculos enfraquecidos levam a tombos. A fratura da bacia leva a uma condição difícil de reverter.

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Bons músculos para idosos também dependem de micróbios. Segundo a geriatra Mary Ni Lochlainn, da King’s College de Londres, “o microbioma do intestino metaboliza os aminoácidos — absorve proteínas, importantes para o crescimento muscular — e desempenha um papel no equilíbrio da insulina e da glicose, o que é fundamental para os músculos”.

Outro desafio para uma boa velhice é óbvio: o cérebro. Doenças como Alzheimer e Parkinson afetam mais de 65 milhões de pessoas pelo mundo. E os intestinos também têm participação nesse panorama. Segundo a matéria da Science Focus, “o estômago possui seu próprio sistema nervoso, que está conectado ao cérebro pelo nervo vago. Por meio desse chamado eixo intestino-cérebro, a saúde intestinal influencia a função cerebral e o humor. De forma semelhante, mas seguindo na direção oposta, o estresse pode causar dores de estômago”.

Quem sofre de Parkinson tende a apresentar um déficit de bactérias benéficas, ainda segundo o artigo. O microbioma no intestino de pacientes com Alzheimer costuma ser um ambiente propício à proliferação de bactérias que causam a inflamação do cérebro.

As zonas azuis

Os estudos sobre longevidade vão além das bactérias nos nossos intestinos. Eles dizem respeito ao modo de vida de cada um. Calcula-se que a genética influencie de 20% a 30% na longevidade. O resto é determinado pelo estilo de vida de cada pessoa. Uma base para esse estudo é o conceito de “Zonas Azuis” — cinco regiões da Terra onde viver além dos 90 anos é relativamente comum: Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Ikaria (Grécia), a península de Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Califórnia, EUA).

A partir do estudo dos mais idosos nessas regiões, chegou-se a algumas conclusões para que as pessoas vivam muito — e bem.

Foto: Reprodução/Freepik

Alimentação. Muitas verduras, legumes, frutas, leguminosas, grãos integrais, pouca carne (especialmente a vermelha), azeite, nozes. E não se empanturrar. Em Okinawa, existe o princípio chamado Hara Hachi Bu, que significa “comer até estar cerca de 80% satisfeito”.

Movimento constante. O que não quer dizer academia. Centenários não são sedentários, mas também não são atletas. Caminham diariamente, sobem escadas, fazem atividades físicas leves e constantes. Não buscam picos de esforço ou recordes pessoais.

Controle de estresse. Estresse crônico aumenta a inflamação e os riscos de doenças. Níveis elevados de cortisol — conhecido como o “hormônio do estresse” — estão ligados ao envelhecimento acelerado. Os mais idosos nessas Zonas Azuis cultivam atividades de desaceleração. Tiram cochilos curtos em Ikaria, rezam em Loma Linda.

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Relações sociais fortes. Centenários mantêm a família próxima, têm amigos regulares, participam de atividades comunitárias. O isolamento social geralmente leva à depressão e chega a aumentar o risco de morte precoce.

Propósito de vida. Também conhecido como Ikigai em Okinawa. Em resumo, é ter uma razão para acordar. Pode ser escrever um livro, ou cuidar de um jardim, ou ser voluntário em um abrigo de animais. O importante é não acordar e ficar olhando para o vazio do teto do quarto, sem um rumo.

Sono regular. Já se foi o tempo em que se dizia que “gente velha dorme umas quatro ou cinco horas por noite e fica satisfeita”. Hoje, qualquer farmácia vende melatonina, o hormônio do sono, que vai rareando conforme a idade avança. O certo é dormir de 7 a 8 horas — e, se for durante a noite, melhor. Um bom sono é essencial para a memória, a imunidade e o equilíbrio hormonal.

Evitar o risco. Consumir pouco ou nenhum álcool, controlar o peso e não fumar. Madame Jeanne Calment foi uma exceção, beneficiada por uma genética privilegiada.

Resumindo: a longevidade não é um “truque” de última hora. É um estilo de vida acumulado. Contar com a vantagem genética é para os privilegiados. O resto de nós tem que se cuidar.

Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

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5 comentários
  1. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    Como assim?! “Não pode beber”, “não pode comer carne vermelha”… Qual o “sentido da vida”, então?!!! Kkkkk!!!
    (brincadeiras à parte, muito bom o artigo “Dagô”!)

  2. Bárbara Lacerda Nunes Da Silva
    Bárbara Lacerda Nunes Da Silva

    Meu sonho é apagar a velinha dos 100.✨
    É uma construção diária.🙏

  3. Felipe Douglas Pereira
    Felipe Douglas Pereira

    Excellent artigo, este ano completei 40 anos e me sinto bem e confiante para mails 70 anos de vida e vivencias, ja tenho grande parte dos bons habitos citados. Felipe Pereira – Limerick – Ireland.

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Excelente artigo Dagomir Marquezi, os idosos tem sim chance de viver bem. Sigam essa regras,não é tão difícil assim. Ser independente na velhice é a maior conquista que você pode alcançar.

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