Seja com camisetas ou pacotes de viagens, o socialismo brasileiro também gosta de ganhar uma grana. Mesmo que a sumidade para a esquerda seja o filósofo Karl Marx, um dos maiores críticos do capitalismo na história, entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) têm apostado em produtos com ares capitalistas para se autofinanciar.
A mais recente dessas iniciativas surgiu no formato de colaboração. A marca de roupas Chico Rei, com receita estimada de R$ 35 milhões no ano passado e que foi destaque na revista Forbes, criou uma coleção com estampas do MST. Camisetas e bonés são vendidos em várias cores e tamanhos, cobrindo uma faixa de preço que vai de R$ 79,90 a R$ 169,90. Depois do anúncio da collab (“colaboração comercial”) nas redes sociais, seguidores do movimento e da empresa criticaram os valores, a contradição. “O preço que não é bem popular né kkkkkk (sic)”, comentou uma pessoa no X. Outra, no Instagram, reclamou que uma das camisetas com estilo futebolístico tem o número 13 nas costas, uma clara alusão ao número eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT). “Apoio o MST, mas não apoio o PT.”
Apesar da presepada partidária, o movimento alegou que a parceria surgiu para ajudar o MST a vencer a “batalha das ideias” com uma estratégia de “aproximar o campo da cidade”. Ou seja, quer vender suas roupas com acabamentos estilosos para o arquétipo do “socialista de iPhone”, ignorando o tal do trabalhador rural, que supostamente deveria ser seu foco.
Se a campanha do MST com a Chico Rei aponta o uso de conceitos como marketing pela esquerda, outras iniciativas mostram que ela também adota modelos de grandes empresas internacionais para fazer sua boquinha. O site de esquerda Revista Fórum, por exemplo, criou um streaming chamado OMPlay. Com conteúdos audiovisuais que ensinam ideias de Marx, Vladimir Lênin e Antonio Gramsci, a plataforma cobra de seus assinantes uma mensalidade de R$ 69,90 — valor superior ao plano padrão da Netflix no Brasil.

Outra iniciativa é a da marca Copunista, que comercializa uma paródia dos copos térmicos da marca Stanley. Alguns de seus modelos, vendidos a R$ 100, trazem imagens de figuras como o ditador Josef Stalin, o educador Paulo Freire e o ativista Malcolm X. Até aqui, os valores praticamente irrisórios dos produtos esquerdistas sustentam a iniciativa. Afinal, ela demonstra ter como principal objetivo arrancar risadas com a piada pronta do “copo Stalin”.
Contudo, o socialismo gourmet atinge outro patamar quando se chega à esfera das agências de viagens. Criada por militantes ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Estrela Vermelha oferece roteiros para países como China, Rússia e até o Irã, que atualmente protagoniza um conflito com Estados Unidos e Israel. Os pacotes não são baratos. Um roteiro de 15 dias pelo Irã, chamado “Irã da Civilização Persa e da Revolução Islâmica”, custa quase 2,5 mil euros. O valor pode ser parcelado em até dez vezes ou pago com desconto de 10% no Pix. A viagem inclui hospedagem em hotéis de quatro estrelas, visitas a atrações turísticas e acompanhamento de guias especializados em história política.
Outra opção da agência é levar viajantes à China em uma jornada de 17 dias chamada “Os caminhos da Revolução Chinesa”. O preço é ainda maior: quase 2,6 mil euros. O plano inclui visitas a cidades como Pequim, Xangai e Xi’an, além de locais históricos ligados à trajetória do Partido Comunista Chinês. Convertido para reais e já com taxas de câmbio, o pacote custa cerca de R$ 17 mil — o equivalente a quase 11 salários mínimos. Seria essa uma das formas mais acessíveis de socialismo?
O nascimento do MarxGPT
O socialismo do capital (ou seria o capital do socialismo?) também chegou ao campo da inteligência artificial. No ano passado, a ferramenta Chat Marx foi lançada pelo portal trotskista Esquerda Diário. Trata-se de um assistente virtual treinado para responder perguntas com base em textos marxistas. O projeto nasceu na Casa Marx, um espaço mantido pelos militantes ligados ao Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT). Ele fica na Vila Madalena, na Zona Oeste de São Paulo, em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Vale notar que a criação do local contou com financiamento coletivo organizado pelos trotskistas, levantando mais de R$ 190 mil de pouco mais de mil apoiadores.
Desde sua abertura, o espaço abriga debates políticos, cursos e venda de livros. Em uma das iniciativas promocionais, a casa chegou a fazer uma versão própria da Black Friday, rebatizada com o nome de “Semana do Desconto Camarada” e dedicada à venda de livros marxistas. É nesse ambiente com práticas capitalistas que surgiu o tal do Chat Marx. O acesso ao assistente virtual exige o pagamento de uma mensalidade de R$ 15. Usuários sem assinatura podem fazer apenas cinco perguntas gratuitas. Segundo os organizadores, a cobrança serve para pagar custos de infraestrutura digital e manter a ferramenta funcionando.

Questionado sobre a aparente contradição entre crítica ao capitalismo e iniciativas comerciais, o próprio Chat Marx ofereceu uma resposta reveladora a Oeste: “Enquanto a sociedade não for radicalmente transformada e a lógica de mercado não for abolida, os movimentos revolucionários precisam encontrar maneiras de sobreviver e se financiar dentro do sistema existente, mesmo que isso envolva certas concessões táticas”. Ao admitir que precisa das ferramentas do “inimigo” para sobreviver, o Chat Marx confessa o que a militância evita dizer em voz alta: o socialismo brasileiro não está mais tentando derrubar o capitalismo, está apenas tentando negociar uma comissão melhor dentro dele.
O que Marx diria
A junção entre essa visão de mundo e iniciativas com ares de capitalismo é, no mínimo, curiosa. A retórica revolucionária convive com ferramentas típicas do capitalismo contemporâneo: branding, colaborações comerciais, assinaturas digitais e pacotes turísticos premium. E tudo isso tem tons de algo muito além de simples “concessões”.
O Karl Marx de carne e osso não pregava que os trabalhadores devessem viver na pobreza. Em sua visão, a superação do capitalismo deveria libertar os trabalhadores da exploração econômica. Em um de seus textos mais conhecidos, ele escreveu que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Ainda assim, é difícil imaginar que o filósofo alemão pensasse em um cenário no qual suas ideias seriam usadas para justificar a venda de camisetas temáticas, assinaturas de streaming ou pacotes de viagens de milhares de euros.
No primeiro volume de O Capital, Marx descreveu um fenômeno que chamou de fetichismo da mercadoria. Segundo ele, no capitalismo, relações sociais podem assumir a aparência de relações entre coisas (leia-se “produtos”). Este conceito foi ampliado no século 20 pelo filósofo húngaro György Lukács. Em História e Consciência de Classe, ele afirmou que, na sociedade capitalista, até relações humanas podem adquirir “o caráter de uma coisa”, processo que chamou de “reificação”.
Aplicadas ao cenário atual, essas ideias genuinamente marxistas ajudam a explicar este fenômeno curioso da esquerda brasileira: a transformação da própria crítica ao capitalismo em mercadoria. Entre copos divertidos e viagens de luxo, ser socialista hoje parece um negócio camarada.

Leia também “A República de Gilmar”




A elite brasileira “progressista” sempre viveu no capitalismo explorando “causa sociais”.
de qqr modo, na minha casa não entra quem usar um pano de chão desses como camiseta!…