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A extensão do prazo solicitado pela PF funciona como etapa comum em inquéritos de maior complexidade | Foto: Gustavo Moreno/STF
Edição 311

Não se intimide, ministro

Para livrar o Brasil da ditadura, Mendonça só precisa cumprir a lei

Entre o começo de 2019 e o fim de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) mandou às favas a Constituição, decidiu que um dos Poderes era mais igual que os outros e valeu-se da grande chicana batizada de Inquérito das Fake News para confiscar atribuições do Legislativo e do Executivo. Em 2022 e 2023, em parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a bancada majoritária do Pretório Excelso passou a conjugar compulsivamente os verbos prender, proibir, censurar e punir, garantiu a vitória de Lula na eleição presidencial e intensificou a perseguição aos que ousaram exercer o direito de discordar. “Nós derrotamos o bolsonarismo”, gabou-se o então ministro Luís Roberto Barroso num minicomício do Partido Comunista do Brasil. Prisões em massa, castigos medievais e a disseminação do medo pelo território nacional comunicaram o encerramento dos trabalhos de parto da ditadura do Judiciário.

Nascida e criada sob os cuidados de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, a versão togada do Ato Institucional nº 5 (13 de dezembro de 1969 a 1º de janeiro de 1979) ainda parecia, no começo do ano passado, suficientemente musculosa para ultrapassar o tempo de vida do modelo adotado pelo regime militar. Neste fevereiro, sem ter completado a infância, o horizonte que se contempla do STF escureceu subitamente. O monstrengo está morrendo de velhice, de ganância e de amadorismo. Certos de que estavam condenados à eterna impunidade, os doutores desprezaram a lição reiterada desde 2002: é impossível conviver com o PT no poder mais de três meses sem se tornar testemunha ou praticante de algum ato criminoso. E ignoraram a advertência de Tancredo Neves: “A esperteza, quando é muita, fica grande e come o dono”. 

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli têm relações pessoais com Daniel Vorcaro, dono do banco em liquidação | Foto: Reprodução/X
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli têm relações pessoais com Daniel Vorcaro, dono do banco em liquidação | Foto: Reprodução/X

“Os idiotas perderam o pudor e estão por toda parte”, informou Nelson Rodrigues nos anos 1970. Imbecil é o que nunca faltou no País do Carnaval, mas a espécie nunca foi tão prolífica (nem tão rara a figura do brasileiro capaz de caminhar e chupar sorvete ao mesmo tempo). As coisas pioraram extraordinariamente com a mudança da capital para Brasília. No Rio, o prédio do Congresso no fim da Avenida Rio Branco estava exposto à oscilação dos humores do eleitorado. Previsivelmente, o arquiteto comunista Oscar Niemeyer desenhou uma cidade pouco gentil com multidões. Brasília não tem esquinas. Sem esquina, não existe o bar da esquina. Sem bar da esquina, não há povo. Sem povo vigiando, a ladroagem é livre. 

Pelo menos nos primeiros anos no Planalto Central, a Câmara e o Senado continuaram sob o comando dos “cardeais”, que decidiam o que seria aprovado pelo “baixo clero”. Na maior parte dos anos 1960, por exemplo, o Congresso foi presidido pelo senador Auro Soares de Moura Andrade. Filho da aristocracia rural paulista, formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, um dos mais influentes comandantes do Partido Social Democrático (PSD), ele seguia em situações de perigo a lição enunciada na República Velha pelo senador gaúcho Pinheiro Machado. Num início de tarde, o motorista de Pinheiro Machado avistou uma manifestação hostil ao senador e perguntou-lhe o que deveria fazer. Resposta: “Continue avançando. Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça medo”. 

Em 1961, ao receber de um emissário de Jânio Quadros o bilhete que comunicava a renúncia à Presidência, Auro precisou de alguns segundos para oficializar a vacância do cargo. “A renúncia é um ato unilateral de vontade”, informou a voz de tenor. Portanto, não comportava discussões. Em seguida, promoveu a presidente interino o deputado Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, e juntou-se ao grupo que, uma semana depois, implantaria o regime parlamentarista incluído pelos chefes militares entre as pré-condições para a entrega da Presidência a João Goulart, vice de Jânio. Em 1964, Goulart ainda estava no Rio Grande do Sul quando Auro declarou a vacância do cargo “porque o presidente havia abandonado o cargo”. 

Em 1967, o aliado dos articuladores do golpe de Estado incomodou-se com a arrogância exibida por um chefe militar no trato com assuntos parlamentares. “Japona não é toga”, resumiu. Com apenas quatro palavras, o grande orador ensinou que não cabia a um oficial das Forças Armadas agir como se fosse ministro do Supremo Tribunal Federal — seria algo tão absurdo quanto instalar um magistrado no comando de uma divisão de infantaria. Se ainda estivesse em ação, Auro hoje inverteria a advertência antes de remetê-la aos Alexandres e Toffolis, que andam fazendo o diabo na Praça dos Três Poderes: “Toga não é japona”.

Já não existem cardeais no Parlamento — e estão em falta até sacerdotes do baixo clero minimamente conhecidos. O Congresso está sob o domínio do centrão, esse gelatinoso agrupamento de medíocres que, a cada dois anos, sacramenta a nulidade que vai comandá-lo. Ressalvadas algumas elogiáveis exceções, todo senador tem cara de Alcolumbre. Também é desprezível a distância que separa um Hugo Motta de qualquer deputado recém-chegado de alguma Câmara de Vereadores sertaneja. A mediocridade reina no Congresso, há um ladrão no principal gabinete do Planalto e o ministério é um dos piores da história. Mas, pela primeira vez, o Judiciário entrou na disputa por melhores colocações no ranking da roubalheira.

Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Hugo Motta, Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e Presidente do Senado Federal, Senador Davi Alcolumbre, em encontro no Palácio do Planalto, Brasília, DF (3/2/2025) | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Hugo Motta, Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e Presidente do Senado Federal, Senador Davi Alcolumbre, em encontro no Palácio do Planalto, Brasília, DF (3/2/2025) | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Embora seja essencialmente um desinformado, o brasileiro é provido de uma sabedoria subjacente que lhe permite distinguir com nitidez um gatuno de um inocente. Convencidos de que vivem acima da lei, os larápios da classe executiva nem se dão ao trabalho de esboçar álibis que os ajudem a tentar justificar o injustificável. Toffoli, por exemplo, tem de gaguejar alguma explicação para as quantias movimentadas no estranhíssimo caso do Tayayá Resort. Também precisa encontrar razões que justifiquem a devolução aos bandidos das fortunas que prometeram pagar nos acordos de leniência.

Como não recitou nem mesmo desculpas esfarrapadas para os R$ 129 milhões pagos à sua mulher, Viviane Barci, advogada incumbida de garantir o socorro do marido caso o naufrágio do Master se tornasse iminente, Alexandre de Moraes faz o de sempre: persegue quem denuncia os abusos que coleciona há mais de seis anos, repete que ainda há muita gente a engaiolar e segue percorrendo a rota do abismo. Para livrar o Brasil destes tempos soturnos, André Mendonça só precisa cumprir a lei e respeitar a Constituição. Não se intimide, ministro.

Leia também “Desunidos de toga”

19 comentários
  1. Wagner Cosme Morhy Terrazas
    Wagner Cosme Morhy Terrazas

    Excelente artigo que nos leva um pouco ao passado para nos permitir entender a realidade do presente. Japona não é toga servia para questionar o posicionamento de militares em 1967, naquela época, não seria possível imaginar que o reverso da frase “toga não é japona” serviria para questionar o posicionamento do judiciário (STF) nos dias atuais. Parabéns Augusto Nunes pelo excelente texto, o que demonstra que ainda temos um jornalismo de qualidade para nos informar sem distorção dos fatos.

  2. Adauto Levi Cardoso
    Adauto Levi Cardoso

    Sempre ele, Augusto Nunes , que texto Maravilhoso.

  3. orozimbo arthur de lima campos
    orozimbo arthur de lima campos

    Perfeito. Só tem 1 erro. O AI5 foi em 13/ 12/68. Eu vivi este sombrio período

  4. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Augusto, se o Estado de São Paulo fosse representado na Câmara Federal proporcionalmente aos seus 35 milhões de eleitores e se o Senado que representa os Estados tivesse apenas 1 senador por Estado, nosso CONGRESSO NACIONAL não estaria melhor representado?
    Vale dizer que levantamento que fiz com o eleitorado em 2022, nosso Estado com 35 milhões de eleitores tem 70 deputados e 16 Estados que somam 34 milhões de eleitores tem 146 deputados federais. Como pode ser CONSTITUCIONAL tamanha desproporcionalidade, que torna o eleitor paulista desigual dos eleitores dos outros Estados?. Pude observar ainda que os demais Estados tem uma representação aproximadamente igual ao seu eleitorado.
    Sugiro a Revista Oeste que faça um levantamento atualizado de nossa representação na Câmara Federal, bem como, do elevado crescimento do eleitorado entre 2022 e 2018 nos Estados do MARANHÃO (11,15%), PARA (10,60%), BAHIA (8,64%), PARAIBA (7,81%), PIAUI (8,56%), RGN (7,6%), em comparação com o reduzido crescimento nos Estados de MINAS GERAIS (3,76%), RIO DE JANEIRO (3,38%), RGSUL (2,86%) e SÃO PAULO( 4.93%). Não é estranho esse crescimento da população eleitoral entre 2022 e 2018?

  5. Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira
    Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira

    Prezado Sr Augusto Nunes,
    A comparação das atuais figuras com a o

  6. COLETTO ASSESSORIA EM SEGURANÇA DO TRABALHO LTDA
    COLETTO ASSESSORIA EM SEGURANÇA DO TRABALHO LTDA

    ..MENDONÇA ACREDITAMOS EM VOCE !11
    QUE RETORNE A JUSTIÇA JUSTA.

  7. Joubert Borges de Almeida
    Joubert Borges de Almeida

    Augusto Nunes nos atualiza e faz refletir enquanto dá uma aula de História. Sempre muito bom ler seus textos!

  8. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    André Mendonça, a esperança da vez.
    Parabéns pelo artigo ágil – porque temos pressa -, alicerçado em fatos do passado e do presente – porque precisamos só da lei e da determinação em cumpri-la.

  9. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    Seja o DAVI, Ministro! O SUPREMO TAYAYÁ MASTER FEDERAL ATOLADO EM INIQUIDADES, MAIS DIA, MENOS DIA, SERÁ CONFRONTADO POR SUA DESCABIDA FANTASIA JURÍDICA COM “SABOR” DE ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. TOMARA QUE A HISTÓRIA SEJA IMPIEDOSA COM A CORTE!
    É imperioso lembrar o Presidente Bukele de El Salvador. “SE VOCÊ NÃO DESTITUIR OS JUÍZES CORRUPTOS, VOCÊ NÃO CONSEGUE CONSERTAR O PAÍS. ELES FORMARÃO UM CARTEL – UMA DITADURA JUDICIAL – E BARRARÃO TODAS AS REFORMAS, PROTEGENDO O SISTEMA CORRUPTO QUE OS COLOCOU NO PODER “ O dinheiro que a IMPRENSA ESTATIZADA recebe do LULA já não blinda as iniquidades do STF. Eis que surge, laxantemente, o Ministro Gilmar Mendes, ARBITRARIAMENTE, CRIATIVAMENTE, CALHORDAMENTE resgatando um Processo contra a BRASIL PARALELO arquivado há TRÊS ANOS, tirou partes do Processo e emprenhou nele o caso TOFFOLI e imediatamente mandou novamente arquivar o mesmo Processo contra a Brasil Paralelo. Laxantemente, como sempre, Gilmar Mendes cravou. “Determino o desentranhamento dos eDOCs 62 a 76, bem assim a autuação como HABEAS CORPUS e distribuição por prevenção ao presente MS. Após, arquivem-se, novamente, os autos do MS 38.187/DF. Publique-se. Brasília, 27 de fevereiro de 2026” O Juiz aposentado Wálter Maierovitch, em coluna no UOL, fez uma firula chinfrim mas não foi ao cerne da canalhice. Talvez o UOL, filho bastardo do Grupo Folha de São Paulo, não deu ao senhor Wálter Maierovitch AUTORIZAÇÃO para suas medíocres letras sobre o ESCÂNDALO parido pelo notório Gilmar Mendes. Candidamente, covardemente, servilmente, o JUIZ ajoelhou-se ao arbítrio. “Na sua decisão monocrática, o ministro Gilmar Mendes entendeu não poder uma CPI quebrar sigilos, sem autorização judicial. A jurisprudência do STF está orientada no sentido da desnecessidade de autorização judicial. Lógico, por se tratar de ato do poder Legislativo, constitucionalmente independente e autônomo” Senhor JUIZ Maierovitch, falar a verdade lhe é muito penoso, ou é covardia moral mesmo? Não ajuda o Brasil, o fato de as duas Casas do Balcão de negócios, pardieiro, chamado Congresso Nacional serem presididas pelos CORRUPTOS Hugo Motta e Davi Alcolumbre, que têm seus felpudos rabos presos em supremas e fétidas gavetas. “Corrêa: “Decisão anormal de Gilmar Mendes mostra que STF ultrapassa todos os limites para se proteger” “Lana: ‘Decisão de Gilmar contra CPI só vai aprofundar a impressão de que o STF tem muito a temer” O SUPREMO TAYAYÁ MASTER FEDERAL tem muitíssimo a esconder, IMPRENSA ESTATIZADA. Brígido: “‘Jeitinho processual’ leva ação sobre quebra de sigilos de empresa de Toffoli a gabinete de Gilmar” “Gilmar Mendes destrói credibilidade da Justiça, diz Joaquim Barbosa” “Vossa Excelência [Gilmar Mendes] não está na rua não, vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. Vossa Excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas de Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite! “STF está envolvido em “enorme escândalo”, diz The Economist. Artigo da Revista Britânica narra questionamentos sobre a atuação de ministros da Suprema Corte, incluindo Dias Toffoli e Alexandre de Moraes” Sobram ESCÂNDALOS e falta VERGONHA ao SUPREMO TAYAYÁ MASTER FEDERAL. Alcolumbre é apenas um CORRUPTO servil. Vamos a Rui Barbosa. “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. Vamos a BUKELE. “SE VOCÊ NÃO DESTITUIR OS JUÍZES CORRUPTOS, VOCÊ NÃO CONSEGUE CONSERTAR O PAÍS. ELES FORMARÃO UM CARTEL – UMA DITADURA JUDICIAL – E BARRARÃO TODAS AS REFORMAS, PROTEGENDO O SISTEMA CORRUPTO QUE OS COLOCOU NO PODER “

    1. Joubert Borges de Almeida
      Joubert Borges de Almeida

      Excelente sua refrescada geral de memória, Lourival Nascimento. Espero que todos os leitores leiam sua escrita.

  10. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Excelente artigo; Elogiar os trabalhos do experiente Augusto Nunes, que não sei se nos lê, já é um lugar-comum, mas inevitável. Mas, ao ler o que escreve com humor e brilho, nos faz pensar: muitos, por algum tempo, acreditavam que o STF fazia aquilo por ter uma ideia bastante distorcida do que significa a palavra “Democracia”. Hoje se sabe, que não era disso que se tratava. Era apenas dinheiro. Nada mais, nada menos que dinheiro. Não há, nunca houve vestais vestindo togas.

    1. Osmar Martins Silvestre
      Osmar Martins Silvestre

      O festejado comunista Niemeyer está para a arquitetura como o igualmente festejado comunista Paulo Freire está para a educação: duas estupendas nulidades.

    2. Joubert Borges de Almeida
      Joubert Borges de Almeida

      Puríssima verdade, prezado Osmar. Desde a redemocratização, lobos tomaram conta do país e o que enche suas barrigas desde então são as carnes dos pagadores de impostos. Se especializaram em roubar tudo, estando sempre os 3 poderes em harmonia para que todos dilapidem a nação sem ninguém atrapalhar ninguém.

  11. Eduardo de Xerez Vieiralves
    Eduardo de Xerez Vieiralves

    O AI-5 foi implantado em 1968 e não em 1969.

  12. Selma Rocha
    Selma Rocha

    A foto dos 3 “irmãos” metralhas, impressionante a semelhança!

  13. Patricia Bretas
    Patricia Bretas

    Brasília foi pensada exatamente para isso que o brilhante Augusto Nunes disse: distanciar os que detêm o poder decisório do restante do povo…

  14. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Apenas isso,o título do artigo de Augusto Nunes, cumpra a lei. Proteja a Constituição e puna a corrupção. Se conseguir isso, o Brasil agradece.

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