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Edição 309

Quem mesmo deveria estar preso?

Uma brasileira em fuga de um poder tirano — e a cada dia mais desmoralizado

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
(Chico Buarque)

A via crucis percorrida por Raquel de Souza Lopes, deportada dos Estados Unidos ao Brasil na quinta-feira (5) da semana passada, é uma história que dispensa adjetivações para chacoalhar consciências adormecidas do Brasil, e sensibilizar — se algum prurido tiverem — autoridades que ainda fecham os olhos para a tragédia moral do 8 de janeiro de 2023.

Cozinheira em Joinville, Raquel partiu para Brasília em um dos tantos ônibus fretados que, de diferentes partes do país, tomaram o rumo da capital federal em 6 e 7 de janeiro para protestar contra o desfecho da eleição presidencial. Nas caravanas, assim como nas redes sociais, as conversas giravam sobre a parcialidade das autoridades eleitorais para reentronizar no poder Luiz Inácio Lula da Silva, o cacique político que a Suprema Corte retirou do cárcere, onde cumpria pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e autorizou a disputar a Presidência, ainda que não tivesse sido inocentado das acusações que lhe foram imputadas por juízes de todas as instâncias do Judiciário brasileiro.

Das primeiras às últimas poltronas, tomadas por gente comum, como Raquel, sem pedigree político e com uma vida dedicada ao trabalho, o assunto eram os abusos cometidos contra conservadores pelo árbitro eleitoral, o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E, sobretudo, a frase insolente proferida pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Surpreendido quando caminhava na rua ao lado de Moraes, em Nova York, Barroso não teve a mesma educação demonstrada pelo brasileiro que o interceptou para perguntar se a Justiça Eleitoral concederia às Forças Armadas acesso ao código-fonte das urnas eletrônicas que deram vitória a Lula por 1,8 ponto percentual. 

“Perdeu, mané. Não amola”, safou-se Barroso, com a mesma empáfia com que, posteriormente, proclamaria, diante de um congresso de estudantes liderado pelo PCdoB: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. Naquele momento, o Supremo Tribunal Federal (STF) se colocava, como corte, abaixo da percepção de neutralidade que torcedores brasileiros têm sobre o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), instância máxima da justiça desportiva. As cenas de Barroso são inimagináveis até mesmo para um júri de desfile de escolas de samba, em que qualquer mínima demonstração de parcialidade faz explodir a pólvora da comoção popular. Mas não era de beligerância a índole de Raquel, e de milhares de manifestantes que acorreram à Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro.

Raquel, então com 51 anos, estava no meio do povo, tragada pelo êxtase de conhecer a capital da República e de tomar parte em uma catarse coletiva, um redemoinho de gente como ela, ordeira e inflamada pelo civismo. Empolgada, começou a filmar tudo para compartilhar aquela torrente de emoções com seus dois filhos e suas duas netinhas.              

Então, as bombas.

Na correria, só pensava em se salvar do gás e das balas de borracha disparadas pelos policiais, ao mesmo tempo em que tentava achar a irmã com problemas de pressão alta. Tinham chegado juntas à manifestação diante do Palácio do Planalto, mas Raquel a perdera de vista no meio da confusão. 

Correu em direção ao Palácio do Planalto.  “Entrei no prédio sem pensar, bem ingênua, sem maldade”, disse ela à jornalista Ana Maria Cemin, criadora do projeto Vozes do 8 de Janeiro. “Inclusive, tinha um policial com roupa do Exército que me chamou para entrar e eu perguntei se precisava ser revistada. Ele respondeu prontamente que não. Achei até normal, porque eu não estava com mochila ou bolsa, e tinha comigo apenas o meu celular, documento e cartão de crédito. Mostrei a ele.”

Ao ingressar no prédio, Raquel se sentiu segura, e com toda razão. Logo na entrada, foi cumprimentada por um solícito militar de alta patente, que dias depois as imagens reveladas pela CNN Brasil mostrariam tratar-se de ninguém menos que o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo Lula, Marco Edson Gonçalves Dias, conhecido como o general G. Dias. “Um funcionário do Planalto me ofereceu uma garrafa com água como se já me conhecesse, e eu me senti como se eu fosse bem-vinda ali”, contou Raquel, no depoimento a Ana Maria Cemin. “Depois disso, eu encontrei eles várias vezes nos corredores.”

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Raquel sentou perto da porta de entrada do Palácio e ficou esperando o cessar das bombas lá fora para voltar ao hotel onde se hospedara, depois de suportar 30 horas de viagem desde Joinville. Em vão. A tropa de choque entrou no prédio, e o efeito de bombas de gás lançadas em um ambiente fechado instalou o caos. Raquel ouviu gritos de “Vamos fuzilar todo mundo”, viu coronhadas e agressões contra duas senhoras, incluindo uma ameaça de disparo. Entrou em desespero e tossiu até perder as forças, mas lembra de ter escutado os policiais localizarem alguns manifestantes entre os que estavam sentados, rendidos, e avisarem aos integrantes da tropa: “Este é nosso”. Naquele momento, começou a fazer sentido a cordialidade com que foi recebida ao abrigar-se no inferno, digo, no prédio.

Levada com os demais para a delegacia de Polícia, implorou, durante o trajeto, para ir ao banheiro do ônibus. Sem autorização, teve de urinar na roupa, mesmo. Esperava prestar depoimento e ser liberada. Nada. Teve o celular apreendido, fez exame de corpo de delito e passou, na madrugada de 9 de janeiro, por todas as humilhações que jamais imaginou passar na vida. Às 6h, foi levada à Colmeia, o presídio feminino de Brasília.

Aquelas humilhações seriam modestas, perto do que aguardava Raquel nos longos sete meses em que ficou na Colmeia — o que incluiu privação de medicamentos controlados dos quais é dependente, usar a mesma roupa por 16 dias e fazer necessidades em sacos plásticos, entre outros detalhes de pura sordidez. Cozinheira de profissão, ela define a comida que era servida às presas como “lavagem para porcos”. Condutor dos inquéritos dos atos do 8 de janeiro, Alexandre de Moraes fez pouco caso das denúncias de maus-tratos. “Não achem que a prisão seja uma colônia de férias”, desdenhou.

Por decisão de Moraes, foi para casa em agosto de 2023 com uma tornozeleira eletrônica. Tinha certeza de que seria absolvida. “Não quebrei nada. Não é da minha índole fazer isso.” Já considerava um castigo severo demais, e imerecido, os sete meses de presídio por ter participado de uma manifestação “ordeira e pacífica” em Brasília.

Sua confiança foi arrefecendo à medida em que os julgamentos do 8 de janeiro foram se sucedendo com um desfecho próprio de um sistema “copia-e-cola” de sentenças. Pessoas como ela, inclusive idosos, vulneráveis por condição de saúde ou de renda, estavam sendo julgadas de baciada. E a todos era aplicado um padrão de pena cruel, mesmo que não houvesse provas individualizadas de que cometeram algum dano ao patrimônio ou que portassem arma.

O pior dos prognósticos se confirmou: Raquel foi condenada a 16 anos e meio de prisão por “tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito”, “associação criminosa armada” e “dano qualificado ao patrimônio público”. Estremeceu ao conhecer a sentença e viu as portas do inferno se abrirem novamente. Se lhe doíam as feridas causadas pela tornozeleira e a humilhação de expor a geringonça no restaurante onde trabalhava,  além de se apresentar toda semana no Fórum de Joinville, o que a esperava era, certamente, muito pior. A volta à prisão se tornava uma certeza quando via a absoluta inutilidade dos recursos apresentados a Alexandre de Moraes por outros réus, inclusive em casos de grande comoção popular, como o de Débora Rodrigues dos Santos, a moça do batom.

Raquel de Souza Lopes | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Adiantava cobrar do STF uma mísera prova de que tinha quebrado algo ou ameaçado alguém? A presunção de inocência, para ela e para os outros como ela, convertera-se em presunção de culpa. Se alguém agiu como vândalo, todos pagam. É o tal crime de multidão, que não entra na cabeça dela. De ninguém, em verdade. E como justificar acusação de golpe sem arma nenhuma? Tempo de correr, não de buscar explicações que não virão porque não existem.

Raquel ainda cumpria pena provisória de prisão domiciliar quando, em março de 2024, decidiu romper a tornozeleira eletrônica. Fugiu para a Argentina e, poucos meses depois, assustada com as prisões de um grupo de compatriotas que faziam parte da lista enviada pelo Brasil às autoridades de Buenos Aires, iniciou uma nova rota de fuga. Peru. Colômbia. E, etapa final para chegar aos Estados Unidos, México.

Contando assim, parece simples — e de fato seria, se a cozinheira catarinense de vida pacata, mãe de dois filhos, avó de duas netinhas e uma vida inteira sem saber o que é uma delegacia, não estivesse fugindo da implacável polícia política de Alexandre de Moraes. Todo o percurso para alcançar o México foi cumprido clandestinamente. “E daí?”, dirá o leitor com gosto por aventura.

Daí que Raquel só tinha uma opção para avançar em direção ao México: atravessar a pé a selva de Darién, a rota dos desesperados. Na floresta transfronteiriça situada entre a Colômbia e o Panamá, centenas de imigrantes ilegais perdem a vida por picada de cobra, ataque de feras, malária ou dengue, desidratação, afogamento. Muitos desaparecem em meio à travessia, levados por gangues de tráfico humano. Risco altíssimo de estupros e extorsões — não raro, pelos próprios coiotes, como são chamados os guias que cobram milhares de dólares de pobres coitados sem eira nem beira que se atiram em uma jornada insana para conquistar a liberdade.

Raquel conseguiu. Em que condições, e a que custo, um dia se saberá. Mas conseguiu.  

Da América Central para o México foi outra aflição, mas depois de Darién, nada, aparentemente, seria capaz de contê-la.

Quando Raquel cruzou a fronteira do México e entrou, clandestinamente, no Texas,  em 12 de janeiro de 2025, pensou estar a salvo. Mas aquele foi seu passo em falso. Eram os últimos dias de Joe Biden no poder. Trump assumiria uma semana depois e colocaria em prática o compromisso de campanha: tolerância zero com a imigração ilegal. Raquel se apresentou às autoridades e pediu asilo político. Foi presa, e presa ficou por um ano. Todas as suas tentativas de convencer as autoridades norte-americanas de sua condição de perseguida por razões políticas foram infrutíferas.

Raquel buscou ajuda da Associação dos Familiares das Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), mas todos os esforços esbarraram na inflexibilidade das autoridades de imigração do Texas. “O caso de Raquel se complicou por se tratar de um processo de asilo defensivo, em que a pessoa entra de forma ilegal e então busca defender a sua condição”, diz a advogada Gabriela Ritter, fundadora da Asfav, que também está nos Estados Unidos, esperando deferimento de seu pedido de asilo. “Infelizmente, o que estamos vendo, com a mudança de governo nos Estados Unidos, é uma postura de não abrir precedentes para quem entra ilegalmente no país”. Por não ter entrado ilegalmente, a exemplo da jornalista Elisa Robson e de outros exilados, Gabriela tem esperanças. Mas só esperanças.

Com a rejeição de seu último recurso, em 14 de janeiro, Raquel acabou sendo deportada ao Brasil na quinta-feira, 5 de fevereiro. Foi presa pela Polícia Federal ao desembarcar no aeroporto de Confins, em Minas Gerais. Antes dela, os Estados Unidos já haviam deportado duas outras brasileiras — Cristiane Silva e Rosana Maciel.

A última esperança, para elas e todos os brasileiros sob perseguição do consórcio PT-STF, é a anulação dos processos ou, no curto prazo, medidas legislativas para livrá-los do calvário. A via congressual, porém, está obstruída pelo Supremo Tribunal Federal, hoje sob o jugo de ministros com muito poder e nenhuma autoridade moral. Quem acompanha, em Oeste, e também na imprensa tradicional, os desdobramentos do escândalo que liga ministros da Suprema Corte ao falido Banco Master, se pergunta:

— Quem, mesmo, deveria estar preso?

Leia também “Um retrato de cabeça para baixo”

15 comentários
  1. ANTONIO DE PADUA CRUZ045775823868
    ANTONIO DE PADUA CRUZ045775823868

    Embora , para quem acompanha diariamente o noticiário e as redes sociais, a monstruosidade do golpe do consórcio Lula-STF de 8 de janeiro, o relato desse artigo narrando os percalços de Raquel de Souza Lopes, nos chocam de maneira revoltante. Quero estar vivo no dia em que estes criminosos pagarão por este crime hediondo.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    A prisão de ministros do STF em razão desse filme de terror de Raquel é um café pequeno para o que o estado democrático de direito seja cumprido. Não só esse STF mas todo governo petista e congressistas de esquerda, com perpétua seria um décimo do café pequeno para o merecido por esses criminosos de ponta. Terroristas, comunistas, assassinos, ladrões, genocidas, narcotraficantes, torturadores, bandidos, filhos de uma puta, pestes bubônicas, cabras-safados, vagabundos. Todos eram para serem pendurados nessa praça dos três apodrecidos poderes de cabeça pra baixo até morrer seco perante o mundo

  3. Antonio Carlos Cavalieri DOro
    Antonio Carlos Cavalieri DOro

    Tento ter esperança, mas se até aqui, nada aconteceu; o quê podemos esperar. Só injustiças. Diante do que se vê, com que moral podem julgar e fazer sofrer, tantas famílias descentes…

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Mais um artigo brilhante de Eugênio Esber. Não conhecia o caso de Raquel, conhecia de muitos outros que sofrem até hoje as atrocidades de um STF tirano e corrupto. A história de Raquel jamais poderá ser esquecida, uma vida de sofrimento atroz apenas por ter ido a uma manifestação onde apenas desejava expressar sua opinião e mostrar o que viu para seus filhos e netas.Que crime é esse meu Deus?Novamente que crime é esse?Enquanto não tivermos anistia ampla,não teremos uma Democracia digna.

  5. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Eugênio Esber, parafraseando um.certo político comprovadamente corrupto, “nunca antes na história deste país” assistimos a episódios que nos causam total desprezo às nossas instituições. O Brasil faliu no jurídico e moralmente. A atual composição do STF já está nas páginas da história como a pior da República. A legislação deve ser atualizada e as indicações para ocupar a função de Ministro do STF devem privilegiar juízes de carreira. Enquanto tivermos na mais alta Corte do país advogados militantes e/ou de porta de cadeia o resultado será sempre catastrófico.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Sem dúvida, Donizete. É preciso um grande reset, técnico e moral, na cúpula do Judiciário brasileiro. O escândalo destes dias deixa claríssima a urgência do tema.

  6. Glauco Rodrigues Dos Santos
    Glauco Rodrigues Dos Santos

    Incomoda muito mais que o silencio do povo, juizes e juristas calados mediante tantas ilegalidades cometidas, não se aplicar a lei penal, a individualização da conduta que livrou da cadeia o presidente da Vale do Rio Doce em Mariana e em Brumadinho. Não precisamos de Anistia, precisamos de juizes juristas que defendam a bandeira da nulidade absoluta destes processos. Esses”sinistros” devem ir pra cadeia e seus patrimonios usados para pagar indenizações por suas atrocidades. Ogolpe de Estado já foi dado pelo STF.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      De acordo, Glauco. O golpe de Estado já foi dado em 2019, e a jornalista norte-americana Mary Anastasia O´Grady, do Wall Street Journal, fez esta afirmação com toda clareza, apontando o dedo para o STF.

  7. Olavo Augusto Ribeiro
    Olavo Augusto Ribeiro

    Não é possível que o Povo Brasileiro seja tão “ pacífico “ assim, ao ponto de estar assistindo tudo o que está acontecendo neste País, tal qual o avestruz com a cabeça no buraco e as partes pudicas expostas ao inevitável coito. Este calhorda do Alexandre de Moraes deveria ser empalado em praça pública e está composição de BANDIDOS TOGADOS DO STF NA CADEIA PARA O RESTO DA VIDA…

    1. Glauco Rodrigues Dos Santos
      Glauco Rodrigues Dos Santos

      Parabéns é isso mesmo que devemos proclamar e exigir!

    2. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Pacifismo é virtude, Olavo. Submissão ao intolerável, não. Pelo contrário.

  8. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Até quando a crueldade da injustiça ficará incólume no Brasil? Até quando as togas de poder absoluto atormentarão inocentes? Até quando “Alcolumbres” boicotarão a depuração do STF contaminado?

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      É a pergunta que todos nos fazemos, Lauro. Mas acho que o país caminha para uma depuração. Que ainda não sabemos bem como vai se dar.

  9. Andre mendonça
    Andre mendonça

    Não gostei. Como gostar dessa via Crucis imposta por “juiz” injusto e cruel a uma mãe e avó humilde e decente?

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      É revoltante, Andre, o suplício imposto a esta senhora.

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