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Edição 309

Ives Gandra Martins: um farol em tempos de concessões

Seu legado maior é algo difícil de transmitir: uma postura diante do mundo

Há épocas em que a coragem não se mede por gestos espetaculares, mas pela recusa obstinada em mentir. Não mentir para os outros e, sobretudo, não mentir para si mesmo. Em tempos de unanimidades fabricadas, de consensos impostos por constrangimento moral e de silêncios comprados pelo medo, dizer o óbvio passou a ser um ato de risco.

Há trajetórias que não se medem apenas por cargos ocupados, livros publicados ou títulos acumulados. Medem-se pela coerência entre pensamento e vida, pela fidelidade a princípios quando eles deixam de ser confortáveis e pela disposição de sustentar limites em tempos que preferem a exceção. 

É nesse cenário que o aniversário de Ives Gandra Martins, em 12 de fevereiro, adquire um significado que vai muito além das homenagens protocolares. Não porque ele seja — como de fato é — um dos maiores juristas brasileiros, professor respeitado, autor prolífico, referência no Direito Constitucional e Tributário. Isso tudo será lembrado, repetido, celebrado. No entanto, para mim, profunda admiradora de seu trabalho e de sua coragem, e honrada pela amizade que ao longo dos anos se construiu entre nós, não é aí que reside o essencial. 

'As Forças Armadas não participariam nunca de um golpe de Estado', acredita Ives Gandra Martins | Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Ives Gandra Martins | Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

O que distingue Dr. Ives não é apenas o que ele escreveu, mas o que ele se recusou a abandonar quando muitos decidiram que era mais confortável ceder. Sua trajetória recente, especialmente, é a de alguém que escolheu permanecer fiel a princípios quando eles deixaram de ser bem-vistos; quando passaram a ser tratados como anacronismos morais ou, pior, como ameaças.

Em uma época em que a fé foi empurrada para o terreno do folclore ou da conveniência retórica, ele nunca a escondeu e nem a transformou em instrumento. Sua fé cristã não aparece como slogan, mas como estrutura intelectual: uma compreensão profunda de que o homem é limitado, falível e que, exatamente por isso, o poder precisa ser contido. Não por desconfiança abstrata, mas por realismo moral.

Esse ponto é decisivo. Onde muitos veem a Constituição como um organismo maleável, pronto para ser moldado conforme a “sensibilidade do tempo”, o Dr. Ives sempre viu um pacto. Um limite. Um texto que não pertence aos intérpretes, mas à sociedade que o instituiu. Não por acaso, essa visão o aproximou de um dos maiores juristas do século 20, o juiz da Suprema Corte americana Antonin Scalia.

A amizade entre Ives Gandra Martins e Scalia não foi circunstancial nem protocolar. Foi o encontro de duas inteligências jurídicas que compartilhavam algo raro hoje: a convicção de que o Direito não existe para satisfazer vontades morais momentâneas, mas para proteger a ordem contra o arbítrio — inclusive o arbítrio travestido de boas intenções.

Essa afinidade entre Ives Gandra Martins e Antonin Scalia não se explicava por coincidências biográficas nem por alinhamentos ideológicos superficiais. Tratava-se de algo mais raro: uma convergência moral sobre o papel do jurista em tempos de desordem. Ambos entendiam que interpretar a Constituição não é um exercício de criatividade política, mas um ato de humildade intelectual. O intérprete não é o autor da norma; é seu servidor.

Antonin Scalia, juiz da Suprema Corte americana, um dos maiores juristas do século 20 | Foto: Wikimedia Commons

Scalia costumava dizer que uma Constituição que muda conforme a vontade dos juízes deixa de ser Constituição e passa a ser opinião. Ives, em contextos diferentes, sustentou a mesma tese com igual clareza: quando o Direito abandona seus limites, o que se instala não é progresso — é arbitrariedade. E a arbitrariedade, ainda que bem-intencionada, sempre cobra um preço alto das sociedades que a toleram.

Essa postura se tornou especialmente incômoda em um mundo jurídico cada vez mais seduzido pela ideia de “resultados justos”, ainda que obtidos por meios juridicamente frágeis. O problema dessa lógica é simples e devastador: quem decide o que é justo? E com base em qual autoridade? Quando o critério deixa de ser a lei e passa a ser a consciência do intérprete, o Direito se dissolve em moral pessoal.

Dr. Ives nunca aceitou essa confusão. Não por rigidez dogmática, mas por compreensão histórica. Ele sabe, como poucos, que todas as experiências de poder sem freios começam com discursos virtuosos. Nenhum arbítrio se apresenta como tal. Ele sempre chega acompanhado de uma causa nobre, de uma emergência moral, de uma promessa de correção histórica.

É aqui que sua fé reaparece, não como ornamento, mas como antídoto contra a soberba. A tradição cristã que molda sua visão de mundo parte de uma premissa incômoda para o espírito moderno: o homem não é perfeito. E, justamente por não ser perfeito, não deve concentrar poder absoluto — nem político, nem jurídico, nem moral. Essa ideia, que parece simples, tornou-se revolucionária em um tempo que flerta abertamente com a noção de juízes iluminados e instituições infalíveis.

Talvez por isso ele tenha se tornado, nos últimos anos, uma figura tão atacada quanto respeitada. Não porque tenha mudado, mas porque o ambiente ao redor mudou. O que antes era visto como prudência passou a ser rotulado como conservadorismo retrógrado. O que era rigor jurídico passou a ser acusado de insensibilidade. E o que era defesa da Constituição passou a ser descrito como obstáculo ao “avanço”.

Mas há um ponto decisivo: o Dr. Ives nunca respondeu ao ataque com ressentimento. Sua coragem não é ruidosa, não busca plateia nem aplauso. É a coragem tranquila de quem sabe que ceder no essencial pode até garantir conforto momentâneo, mas cobra um preço alto demais no longo prazo — o preço da própria integridade.

Em um país como o Brasil, marcado por ciclos recorrentes de exceção travestida de normalidade, essa postura não é apenas admirável. É necessária. Ives pertence a uma geração que entendeu que instituições não se defendem com retórica inflamada, mas com coerência ao longo do tempo. Que a Constituição não se protege com interpretações elásticas, mas com fidelidade — inclusive quando essa fidelidade se torna impopular.

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Constituição não se protege com interpretações elásticas, mas com fidelidade — inclusive quando essa fidelidade se torna impopular | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Há também a lealdade intelectual. Ives Gandra Martins nunca tratou adversários como inimigos morais. Nunca aderiu à lógica da desumanização do outro, hoje tão comum no debate público. Para ele, discordar não implica destruir. Divergir não autoriza silenciar. Essa postura, cada vez mais rara, é talvez uma de suas maiores contribuições à vida pública brasileira.

Num ambiente em que muitos juristas passaram a medir suas palavras pelo humor das redes sociais, o Dr. Ives manteve uma relação quase ascética com a verdade. Disse o que pensava quando isso custava prestígio. Manteve posições quando manter posições significava isolamento. E fez isso sem estridência, sem espetáculo, sem recorrer ao vitimismo que hoje se tornou moeda corrente.

É por isso que seu legado não cabe em listas de títulos nem em homenagens protocolares. Ele está em algo mais difícil de transmitir — e mais difícil ainda de imitar: uma postura diante do mundo. A ideia de que há coisas que não se negociam; de que há momentos em que o silêncio não é prudência, mas omissão; e de que a função do jurista, em última instância, não é agradar ao poder, mas contê-lo. Seu legado recoloca um critério essencial no debate público: o poder não é virtude quando se afasta da lei. 

Em tempos de confusão deliberada entre legalidade e legitimidade, entre vontade e norma, entre justiça e desejo, figuras como Ives Gandra Martins funcionam como pontos de ancoragem. Não porque ofereçam respostas fáceis, mas porque lembram perguntas fundamentais — aquelas que o nosso tempo prefere evitar.

Celebrar o aniversário do doutor Ives Gandra Martins é, portanto, mais do que homenagear um homem. É reafirmar a importância da Constituição, da responsabilidade institucional e da coragem intelectual em uma era que frequentemente tenta substituí-las por atalhos.

Em épocas de exceção, a história costuma ser generosa com quem resistiu — ainda que o presente não seja. E é exatamente por isso que Ives Gandra Martins permanece. Não como unanimidade. Mas como referência.

Obrigada, mestre. 

zanin stf
O jurista Ives Gandra Martins | Foto: Divulgação

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11 comentários
  1. Flavia Salzano Caspary
    Flavia Salzano Caspary

    Que texto! Parabéns, Ana Paula, pela escrita e parabéns para o Dr. Ives Gandra Martins. Ser humano incrível e de reputação ilibada. Por mais pessoas assim no nosso Brasil.

  2. Semiao Emediato
    Semiao Emediato

    Êta SAUDADE! Estamos Precisando com URGÊNCIA de PESSOAS assim no NOSSO STF, que virou um covil de POLÍTICOS!

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Ana Paula Henkel, deixo aqui uma homenagem merecida ao seu excelente programa:De Leste a Oeste. Para mim o melhor e mais lúcido programa sobre História, Geopolítica e atualidade.Imperdivel,,reflexões e total liberdade de expressão sobre acontecimentos que moldam as realidades que hoje vivemos. Parabéns a você, a Flávio, a Bernardo e Ivan Kleber, marcam um novo estilo ,profundidade e reflexões. Não perco um.

  4. Claudio Augusto Ciongoli
    Claudio Augusto Ciongoli

    Mesmo não pertencendo ao ramo do direito, sempre admirei a trajetória do Prof. Dr. Ives Gandra Martins. Realmente uma referência para avaliarmos o mundo de hoje. Em tempos de crise moral, devemos nos apegar no que há de mais sólido. Nada mais sólido que a honra, avaliação moral das situações e conhecimento técnico deste homem notável. Obrigado pelo maravilhoso texto. Parabéns.

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Homenagem necessária a Dr.Ives Gandra Martins. Tive a honra de conhece-lo e ter em minhas mãos um de seus grandes livros por ele autografado,A “Constituição e a Liberdade “,um convite a reflexão sobre os tempos que vivemos no Brasil. Guzzo foi convidado para participar dessa grande obra, como outros, e deixou sua marca em um belo artigo sobre liberdade de expressão. Dr Ives é um exemplo de coragem e retidão moral em tempos sombrios.

  6. Elias José de Souza
    Elias José de Souza

    Assiti várias entrevistas do Dr. Ives, o que mais surpreendeu não foi o seu conhecimento do direito,
    pois esse não é novidade, foi o fato de ele ser contra o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, apesar de criticá-lo
    em diversos momentos.
    Ana, entendo que faltou você citar esse fato no artigo acima.

  7. Emilio Sani
    Emilio Sani

    Bela e merecida homenagem, no entanto não consigo concordar com ele em manter sempre uma postura de “respeito” para com o irrespeitável ditador Moraes, que para mim sempre foi uma farsa,nunca escreveu os livros a ele atribuidos e apenas encenava repetindo o que haviam escrito para ele até conseguir o que queria, estar no STF onde mostrou o psicopata que é.

  8. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Parabéns Ana, é como penso a respeito do doutor Ives, que não carrega ódios, extremamente religioso, é sincero com relação ao convívio que já teve com vários ministros do STF, mas corajoso ao criticá-los pelos erros judiciais que cometem, especialmente com relação ao 8 de janeiro.
    Ana, com tantos doutores Ives que temos em nosso pais, não entendo como se sentem doutores esses advogados inúteis que hoje dirigem a OAB nacional e o tal GRUPO PRERROGATIVAS.
    Creio que seria importante que a Revista Oeste promovesse um encontro com grandes juristas para elaborar uma CARTA À NAÇÃO, para o restabelecimento da democracia e respeito constitucional.
    Lembro que aos 80 anos, lamento ter sido tucano desde a fundação do PSDB até 2019, ano que se revelaram sem CARÁTER figuras que respeitávamos como FHC & CIA., que por ódio a Bolsonaro fizeram o “L” e criaram esse SISTEMA que nos governa e nos destrói.
    Ana, quando quiser venha ser nossa SENADORA para ajudar a salvar nossa democracia e respeito a liberdade, os costumes, as religiões e às famílias.

  9. Urias Roberto da Silva
    Urias Roberto da Silva

    Enquanto muitos atacam ad hominem, dr Ives lembra princípios que nos devem nortear.

  10. Renato Perim
    Renato Perim

    Me permita discordar, mas eu acho esse Ives um belo vaselina, um fraco, que não dá nome aos bois, trata bandidos como excelência. Pra mim é um frouxo.

    1. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
      JOÃO RICARDO ASTOLPHI

      Aparentemente vc não entendeu absolutamente NADA do texto acima! Uma pena…

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