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Edição 309

A conta que o populismo não mostra

Brasil precisa de debate sério sobre futuro do trabalho, produtividade e jornada laboral

Vivemos um momento crítico no debate sobre trabalho, produtividade e futuro da economia brasileira. Discursos oficiais, episódios de improviso e propostas de políticas públicas têm ocupado o centro do palco sem o suporte de dados sólidos, análises econômicas robustas e comparações internacionais que mostrem como o país se posiciona no mundo.

Recentemente, declarações de figuras políticas em tom de bravata — como a do presidente Lula se comparando com Lampião para intimidar rivalidades diplomáticas externas — ilustram essa tendência de substituir argumentos racionais por metáforas poéticas e mal escolhidas. Tal postura, além de historicamente desinformada, contribui para a degradação da credibilidade institucional e desvenda uma profunda dificuldade em enfrentar problemas estruturais com seriedade.

Produtividade: definição e realidade brasileira

Produtividade, na sua forma mais simples, é o valor produzido por unidade de tempo trabalhado. É um indicador que mede não quanto se trabalha, mas quanto valor econômico e social se gera por hora de trabalho. É importante distinguir dois conceitos que frequentemente se confundem:

  • Jornada de trabalho (tempo em horas)
  • Produtividade (valor criado por hora trabalhada)

Países mais desenvolvidos não são ricos apenas porque trabalham mais horas; são ricos porque conseguem extrair mais valor de cada hora trabalhada. Isso se reflete em salários mais altos, maior renda per capita e serviços públicos de qualidade. Os números mostram que o Brasil está, historicamente, atrás de nações desenvolvidas, e mesmo de algumas emergentes, quando se fala em produtividade por hora trabalhada.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a produtividade dos Estados Unidos pode chegar a quatro vezes a do Brasil. Dito de outra forma: são necessários quatro brasileiros para produzir o mesmo que um americano. No caso da China, embora o modelo produtivo seja distinto, a eficiência industrial e tecnológica se sobrepõe à brasileira em vários setores. Dentro do Mercosul, países como Uruguai exibem níveis de produtividade por hora superiores aos do Brasil. Essa combinação de baixa produtividade, elevado custo de capital e fragilidade institucional explica por que o Brasil tem dificuldade em crescer de forma sustentada.

Jornada de trabalho no Brasil: mito e realidade

A proposta de mudança da escala de trabalho de 6×1 para 4×3 tem circulado intensamente no debate público e legislativo. Em sua forma ideal, a 4×3 significa trabalhar quatro dias e folgar três na semana, com a ideia de equilibrar trabalho e vida pessoal — algo que ganhou atenção global nos últimos anos.

Há experiências e testes ao redor do mundo sobre semanas mais curtas ou jornadas alternativas. Países como Bélgica, Islândia, Reino Unido, Japão, Alemanha e África do Sul já testaram ou regulamentaram formas flexíveis de semanas de trabalho reduzidas, na tentativa de melhorar bem-estar e produtividade. Em alguns casos, como o da Bélgica, trabalhadores já têm o direito legal de comprimir horas para trabalhar quatro dias por semana.

No entanto, é essencial compreender que esses modelos — mesmo quando bem planejados — não são automaticamente exportáveis nem garantem resultados positivos em qualquer contexto econômico. O caso de países europeus com alta produtividade média e serviços públicos eficientes não se compara diretamente ao do Brasil sem levar em conta diferenças estruturais, tecnológicas e de capital humano.

Outro ponto frequentemente ignorado no Brasil é que a legislação atual já permite — via acordo coletivo — jornadas menores que as 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nada impede negociações entre empregadores e empregados para implementar modelos flexíveis. Essa possibilidade existe e já ocorre em setores que valorizam produtividade e equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida.

O debate internacional sobre semanas mais curtas

A discussão global sobre semanas de quatro dias ou jornadas reduzidas não é nova. Pilotos realizados em empresas ou setores em países como Reino Unido, Austrália e Canadá indicam que, sob certas condições, pode haver melhoria no bem-estar dos trabalhadores, retenção de talentos e manutenção ou leve aumento de produtividade.

Contudo, essas experiências se deram em contextos econômicos e sociais muito diferentes daqueles do Brasil, onde fatores como infraestrutura, capital humano, desigualdade de acesso à educação e pobreza têm impacto direto sobre a capacidade produtiva.

É importante destacar também que, mesmo em países que testaram pequenas jornadas, os resultados dependem de melhorias tecnológicas, reorganização de processos e capacitação profissional, elementos que o Brasil ainda precisa fortalecer — antes de qualquer redução generalizada de horas de trabalho.

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Exemplos

Islândia:  foi uma das pioneiras nesta experiência em larga escala. Após testes com a população, começou a implementar medidas de redução da jornada, adotando a semana de quatro dias de forma massiva, o que diminui a jornada de trabalho para 35 ou 36 horas sem redução do salário. Os testes começaram em 2015.

Bélgica:  desde 2022, trabalhadores podem optar por fazer suas 38 horas semanais em quatro ou cinco dias, com a possibilidade de ajustar a carga horária. É flexível, mas precisa de acordo com o empregador.

Nova Zelândia: grandes companhias foram as primeiras a adotar a semana de quatro dias, com resultados mostrando redução significativa do estresse e aumento da satisfação com o trabalho.

Reino Unido: desde 2021, dá incentivo financeiro a empresas que adotam a semana de quatro dias, visando avaliar os impactos dessa jornada na produtividade e no bem-estar dos trabalhadores

Japão: o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar oferece subsídios para incentivar a flexibilização da jornada de trabalho, mas a resistência cultural ainda mantém a questão em debate. ​A implementação em Tóquio começou em abril de 2025 e também tem outros objetivos, como o aumento das taxas de fertilidade.

Alemanha: a conclusão dos testes com a semana de quatro dias em 2024 levou mais de 70% das empresas a decidirem manter o modelo de trabalho reduzido, destacando-se como um exemplo de adoção bem-sucedida dessa jornada.

África do Sul: desde 2022, 28 empresas testam a semana de quatro dias, principalmente no setor de tecnologia, embora setores como mineração enfrentem dificuldades para adotar o modelo.

Espanha: o governo apoia testes em empresas de médio porte, especialmente no setor de serviços, para avaliar os efeitos da nova jornada.

Portugal: teve um projeto piloto bem-sucedido com muitas empresas optando por manter o modelo.

Emirados Árabes Unidos: adotaram oficialmente a semana de quatro dias, com foco em facilitar a comunicação internacional.

Chile: implementou a “Lei das 40 Horas”, abrindo caminho para testes da jornada de quatro dias.

Impactos econômicos de reduzir jornada sem ganhos de produtividade

Reduzir a jornada de trabalho sem ganhos equivalentes de produtividade cria um problema bem conhecido na economia: menos horas trabalhadas com a mesma expectativa de produção significa, necessariamente, menos produção total.

Modelos acadêmicos sugerem que reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas exigiria um aumento substancial de produtividade — algo difícil de alcançar a curto prazo sem arranjos de capital, tecnologia e treinamento significativos. Esse cenário, quando combinado com fragilidades internas como baixo investimento em tecnologia, infraestrutura deficiente e mercado de trabalho dual, pode resultar em:

  • Redução de produção industrial e serviços;
  • Aumento de custos unitários para empresas;
  • Diminuição da competitividade global;
  • Pressão inflacionária sobre preços internos.

Em serviços públicos, nos quais a demanda é contínua e muitas vezes urgente (saúde, segurança, transporte), reduzir horas sem planejamento adequado pode piorar a qualidade do atendimento à população.

Ilustração: Revista Oeste/Feito por IA

Política social versus cultura do trabalho

O debate sobre jornadas e produtividade não existe no vácuo. Ele se insere em um contexto maior de políticas públicas que, no Brasil, muitas vezes confundem assistência social com incentivo ao não trabalho.

O fato de cerca de 94 milhões de brasileiros receberem algum tipo de benefício sem vínculo formal de trabalho cria uma narrativa perversa: a de que “não trabalhar pode ser tão recompensador quanto trabalhar”. Essa percepção, mesmo que não seja a intenção explícita das políticas públicas, é alimentada por discursos e práticas que não fazem a distinção clara entre proteção social e desincentivo à participação no mercado de trabalho.

Quando um chefe de Estado se engaja em debates que parecem romantizar a redução do esforço produtivo sem contextualização séria — ou quando comete lapsos públicos que denotam confusão conceitual —, a mensagem que chega à sociedade é ambígua. Isso não só fragiliza a confiança do setor produtivo como também contribui para um clima de incerteza institucional.

A esquerda compara peras com bananas

Quando a esquerda justifica a proposta de mudança da escala 6×1 para a escala 4×3, mostrando outros países que já implementaram a medida, omitem que esses países são desenvolvidos e o Brasil é um país em desenvolvimento

No quadro a seguir, mostramos as diferenças entre esses países e o Brasil, no que diz respeito a:

Produtividade como critério e não slogan

O Brasil precisa urgentemente de um debate sério, baseado em dados e não em slogans, sobre o futuro do trabalho, da produtividade e da jornada laboral. Produtividade não se calcula com frases de efeito. Crescimento econômico não se constrói com retórica populista. Países que hoje conseguem equilibrar bem-estar e eficiência têm um ponto em comum: foco em inovação, educação, tecnologia e instituições fortes. A proposta de reduzir a jornada antes de resolver a questão da baixa produtividade é uma reversão da lógica econômica: promete conforto sem os meios produtivos que o sustentem.

Reduzir horas sem elevar a produção é apenas dividir a pobreza com horário reduzido

Leia também “O Banco Master e o estado da credibilidade institucional: o diagnóstico que não se pode ignorar”

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5 comentários
  1. Joaquim Días do Nascimento Júnior
    Joaquim Días do Nascimento Júnior

    A questão envolve seriedade no comando da economia, revisão da estrutura social, jurídica, institucional, o que não ocorre no Brasil. Temos aqui exatamente o inverso, a começar pela insegurança jurídica e imensa corrupção, além de apoio descarado ao crime organizado. Com receita como essa a redução da jornada de trabalho sem que o DEVER DE CASA seja feito com antecendência, será exatamente desemprego, iinflação alta e desestimulo, especialmente pela questão fiscal se só faz expulsar empresas para o exterior. A mistura é literalmente explosiva.

  2. Juliana saad de carvalho
    Juliana saad de carvalho

    A CLT deveria ser extinta e essa negociação deveria ser feita entre empregadores e empregados. Assim como outros pontos. Menos estado interferindo na economia deveria ser o foco da discussão no Congresso.

  3. RODRIGO DE SOUZA COSTA
    RODRIGO DE SOUZA COSTA

    Eu sou favorável á redução da jornada, no entanto, isso envolve custos. O governo até agora não abriu mão de 1 centavo para que isso possa ser viável. Essa será a picanha de 2026, uma promessa que não vai ser cumprida e vai ser usada como chamariz da eleição. As armadilhas de 2026 são diferentes…..

  4. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Os paises que adotam a jornada 4×1 nao tem os custos do Brasil: CLT com direito a ferias, 13o.,FGTS, indenizacoes trabalhistas, E.Social, Custo Brasil, etc

  5. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Sou a favor da remuneração por produtividade. Colocar todos na mesma condição o ruim nunca melhora e o bom desanima e deixa a empresa.

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