É impossível compreender os primeiros 25 anos do século 21 sem explorar a geração Z, a primeira cujas etapas decisivas de formação ocorreram inteiramente dentro desse intervalo histórico, atravessadas por transformações que marcaram o começo do século, como a consolidação da internet e a expansão das plataformas digitais.
Essa geração cresceu em um ambiente no qual a mediação tecnológica já estava dada. Celulares e redes sociais não surgiram como novidade a ser incorporada, mas estavam presentes no cotidiano desde os primeiros anos. A infância e a adolescência transcorreram sob um fluxo contínuo de informação e interação digital, que passou a estruturar rotinas, sociabilidades e formas de acesso ao mundo.
Foi quando os primeiros integrantes da geração Z começaram a alcançar a vida adulta — como a entrada no eleitorado, no mercado de trabalho e no ensino superior — que institutos e centros de pesquisa passaram a identificar padrões e a comparar esse grupo com gerações anteriores. Um dos principais referenciais nesse campo, o Pew Research Center (PRC), enumera três elementos principais para descrever o ambiente formativo da geração Z:
- Ampla difusão de dispositivos digitais desde a adolescência, com acesso generalizado a smartphones e uso frequente de grandes plataformas online;
- Diversidade demográfica inédita, com forte presença de imigrantes, grupos étnicos e famílias não-tradicionais;
- Entrada na vida adulta em um contexto de instabilidade econômica e social, em especial pelos efeitos da pandemia de covid-19.
Nesse sentido, a geração Z deixa de ser apenas um recorte etário e permite observar, de forma concentrada, os efeitos acumulados das transformações econômicas, tecnológicas e sociais que definiram o primeiro quarto do século XXI.

Como crescer online moldou a geração Z
Para a geração Z, a internet faz parte do próprio ambiente de formação. Não se trata de uma geração que “aprendeu” a usar redes digitais ao longo da vida, mas de jovens cuja infância e adolescência se desenvolveram em meio às telas. Conforme relata a psicóloga norte-americana Jean Marie Twenge, uma das principais estudiosas de rupturas geracionais, esta é a primeira geração a entrar na adolescência “com smartphones já nas mãos”, diferença que diagnostica como um deslocamento profundo em relação às experiências vividas por gerações anteriores.
Jean Marie descreve esse processo como uma mudança na forma de ocupar o tempo. Ela observa que, diferentemente dos millennials, cuja principal diferença em relação a gerações anteriores estava ligada a valores e visões de mundo, a geração Z se distingue principalmente pela maneira como estrutura suas rotinas diárias. Atividades antes realizadas presencialmente ou em espaços físicos passaram a ser mediadas por aplicativos, redes sociais e plataformas digitais, o que produz uma experiência de socialização menos localizada e mais fragmentada.
Crescer online, para a geração Z, significa ter identidade, linguagem e relações moldadas em um espaço no qual o digital e o social se confundem. A internet, nesse contexto, não é uma ferramenta que se utiliza, mas o próprio ambiente em que se cresce e se aprende sobre o mundo e os desafios que ele proporciona.

Uma geração sem expectativa
A lógica das redes sociais, com métricas, visibilidade e instabilidade, moldou de forma significativa a percepção dos jovens quanto ao mercado de trabalho e à sua relação com o dinheiro.
Pesquisas do PRC mostram que a geração Z confia menos na estabilidade econômica quando comparada a gerações anteriores na mesma faixa etária. Esse sentimento aparece associado a insegurança no mercado de trabalho, alto custo de vida e dificuldade de planejamento a longo prazo.
No entanto, essa preocupação raramente se converte em prevenção. Levantamento da empresa Pollfish com jovens norte-americanos mostra que 60% não poupam para a aposentadoria; no Brasil, pesquisa da CNDL/SPC Brasil mostra que esse número chega a 75%.
A geração Z confia mais em novos partidos políticos como agentes de mudança do que as gerações anteriores.
A insegurança, porém, não se expressa apenas em decisões de longo prazo. No plano emocional, um terço dos jovens norte-americanos relatou sentir estresse relacionado à situação financeira. Nesse grupo, cerca de 70% afirmaram verificar com frequência o saldo bancário e mais de 60% relataram organizar seus orçamentos como forma de lidar com esse cenário.
No Brasil, a resposta à mesma pressão aparece por outra via. Levantamento realizado pela Datatempo Pesquisas em fevereiro destaca que 60% dos jovens afirmam que abririam mão da carreira para preservar a saúde mental. Os dados mostram que, em cenário de instabilidade, a geração Z prioriza limites emocionais mesmo quando isso implica em custos profissionais, traço cada vez mais perceptível no comportamento da geração.

Saúde mental em pauta
Com a geração Z, a saúde mental deixou de ocupar um espaço restrito ao campo médico e passou a integrar o vocabulário cotidiano. Termos como ansiedade, burnout, depressão e gatilhos emocionais, antes associados a diagnósticos clínicos, passaram a circular como formas de nomear experiências comuns.
Segundo relatório publicado pela Associação Norte-Americana de Psicologia, jovens dessa geração relatam níveis elevados de estresse e maior disposição para buscar apoio psicológico quando comparados a gerações anteriores. No Brasil, pesquisas mostram movimento semelhante: o levantamento do Datatempo Pesquisas mostra que metade dos jovens da geração Z já fez ou faz terapia, porcentual superior ao registrado entre as gerações anteriores.
Esses fatores ajudam a explicar suas escolhas profissionais. A busca por múltiplas fontes de renda, por ocupações mais flexíveis ou por caminhos fora do modelo corporativo tradicional aparece como uma estratégia de mitigação de risco. Em entrevista a Oeste, o palestrante Dado Schneider, especialista em análise de gerações, sintetiza este diagnóstico: “Eles dizem: ‘não quero trabalhar como você trabalha, mãe ou pai, quero equilibrar trabalho e vida’”, avalia. “Eles estão nos dizendo: ‘vocês trabalham demais’.”

Em busca de sentido
A centralidade da saúde mental no discurso da geração Z se conecta a uma questão mais ampla: a busca por sentido, pertencimento e orientação moral em um ambiente percebido como instável. No entanto, essa procura ocorre de maneira difusa e tensionada entre afastamento institucional e retomada religiosa.
Pesquisas do PRC mostram que esta geração apresenta, em média, níveis mais baixos de religiosidade formal quando comparada a gerações anteriores na mesma idade. Ao mesmo tempo, o estudo registra que o declínio do cristianismo nos Estados Unidos desacelerou nos últimos anos e pode ter atingido um ponto de estabilização, depois de décadas de uma queda contínua que parecia consolidada.
A pesquisa conclui que esse fenômeno demonstra que a religião não reaparece como herança automática de pais e avós, mas como escolha. Observa-se uma busca ativa por instituições capazes de oferecer continuidade, disciplina moral e sentido de pertencimento em um mundo percebido como volátil.
Schneider afirma que a transformação religiosa acompanha uma mudança mais ampla na relação com a autoridade. Ele descreve o século 20 como um mundo “vertical”, no qual a autoridade vinha “de cima para baixo”, e observa que a internet rompeu esse modelo ao multiplicar fontes de referência e interpretação. “Eles são os primeiros que foram buscar informação sem o controle dos mais velhos”, constata. Nesse novo ambiente, instituições religiosas deixam de ocupar um lugar automático, mas também passam a disputar espaço como uma entre várias respostas possíveis à demanda por sentido. Entre elas, a militância política.

A entrada na política
A reorganização política da geração Z parte da mudança de hábitos no consumo de informação. Pesquisas do PRC mostram que jovens dessa geração acompanham notícias majoritariamente por meio de redes sociais, com menor dependência de veículos tradicionais quando comparados a gerações mais velhas. O estudo observa que esse padrão contribui para alterar os critérios de participação política, que passam a privilegiar visibilidade e engajamento na internet.
Esse deslocamento do engajamento político para o espaço digital se manifesta de forma recorrente em mobilizações juvenis ao redor do mundo. A geração Z protagonizou protestos em países como Nepal, Tailândia, Chile, França, Estados Unidos, Reino Unido, Irã e Hong Kong, entre outros. Apesar das diferenças políticas, culturais e institucionais entre esses países, os movimentos compartilham características semelhantes, como organização descentralizada, articulação predominante por redes sociais, rejeição a lideranças formais e uso recorrente de referências da cultura pop.
A geração Z cresceu em um ambiente no qual promessas de estabilidade e previsibilidade perderam força.
Os dados do PRC mostram que esse engajamento tende a ser episódico e orientado por causas específicas, sem filiação partidária formal. Jovens da geração Z apresentam níveis mais baixos de identificação com partidos políticos quando comparados a gerações anteriores na mesma idade, mas maior propensão a participar de protestos, campanhas digitais, boicotes e mobilizações.
No Brasil, essa reorganização também se expressa de forma mensurável. Pesquisa realizada pelo instituto AtlasIntel em dezembro mostra que a geração Z confia mais em novos partidos políticos como agentes de mudança do que as gerações anteriores e destaca que 45% da geração acredita que o sistema político precisa de uma mudança completa. Esses dados ajudam a compreender que a menor adesão a partidos tradicionais não decorre de desinteresse, mas de uma redistribuição da confiança política.

O que a geração Z revela sobre nós
Ao longo do começo do século 21, a geração Z cresceu em um ambiente no qual promessas de estabilidade e previsibilidade perderam força. Ao vivenciar esse processo de forma mais precoce e exposta, a geração reflete um tempo marcado pelo enfraquecimento de referências tradicionais e pela reorganização constante de valores, identidades e formas de pertencimento. Schneider explica: “A geração Z é a primeira que não vem ao mundo se sentindo na obrigação de ser sucessora.”
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