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Edição 303

O fim da era da imprensa velha

Quem banca mesmo o bom jornalismo é o leitor, o telespectador, o ouvinte. O assinante continuará fazendo isso se receber em troca, seja na plataforma que for, a verdade — e não versões que interessam a quem está no poder. Isto é algo que tecnologia alguma irá substituir

Os primeiros 25 anos do século 21 foram de desafios imensos e transformações profundas no universo da comunicação. Revistas e jornais impressos perderam leitores e anunciantes com a migração do público para a internet e para as redes sociais. O modelo de negócios baseado em publicidade impressa tornou-se cada vez menos sustentável. Rádios e TVs passaram a disputar atenção com plataformas de streaming e serviços sob demanda. A TV por assinatura fragmentou a audiência e tirou público das emissoras abertas. Com o YouTube, qualquer pessoa passou a produzir e distribuir conteúdo. As redes sociais aceleraram a circulação de notícias.

Os avanços tecnológicos e a fartura de opções mudaram um cenário que por bastante tempo se manteve estável. Até meados da década de 1990, quem procurava informação e entretenimento diários dispunha de jornais e revistas, emissoras de rádio e canais de TV aberta. A imprensa — expressão que abrangia todos, impressos ou não — gozava de grande prestígio junto à população, era considerada “o quarto poder” e contava com a integralidade das generosas verbas de propaganda. 

No caso do Brasil, vinha sendo assim desde que surgiram os primeiros jornais no início do século 19, as primeiras revistas no início do século 20, as rádios pioneiras na década de 1920 e a primeira TV em 1950. Às vésperas da virada do milênio, as principais transformações já começavam a ocorrer. Os adventos da internet/redes sociais, TV por assinatura e serviços de streaming mudariam de forma radical o relacionamento do público com a informação e o entretenimento. 

Desenvolvida pelos EUA a partir de 1969, inicialmente para uso militar, a internet foi liberada para o público em geral em 1995, tanto lá quanto aqui. Aos poucos, computadores ligados à rede mudaram a rotina e o visual das empresas e, em seguida, dos lares. A informação e o entretenimento passavam a estar disponíveis a qualquer momento, ainda que por rede discada, mas já era um avanço e tanto. Praticamente na mesma época, surgiu a TV por assinatura, a cabo e por satélite. Na primeira década do novo milênio nasceram as redes sociais: Orkut (2004), Facebook (2006) e Instagram (2010), entre outras. Finalmente, veio o streaming. A pioneira Netflix, lançada em 2007, popularizou-se na década seguinte. 

Ao longo dos últimos 25 anos, a oferta tornou-se cada vez mais ampla e diversificada. Os veículos tradicionais tiveram de se adaptar, buscar novos modelos e linguagens, mas isto nem sempre bastou. A começar pelos impressos. Vários jornais de larga tradição tiveram o número de páginas reduzido drasticamente, as redações encolheram de tamanho e, em muitos casos, a solução foi acabar com a edição impressa e passar a existir somente  online. Em outros, nem isso. 

O Jornal do Brasil, por exemplo, fundado em 1891, outrora um êxito nacional em circulação e prestígio, hoje sobrevive apenas no mundo digital e se tornou irrelevante. A Folha de S. Paulo, de 1921, que no auge chegou a uma circulação de 1,5 milhão de exemplares, hoje fica na casa das dezenas de milhares, incluindo as assinaturas digitais. A situação ainda é melhor do que a da maioria dos sobreviventes. Jornais de centenas de páginas — incluindo cadernos especiais e de classificados — como o gaúcho Zero Hora, vão às bancas em edições minguadas. Nas bancas — que se tornaram uma espécie de loja de conveniência — os jornais que resistem dividem espaço com pacotes de “jornal para pet”, muitas vezes edições anteriores do próprio. Jornais velhos sempre foram usados para este fim, mas ao menos eram lidos e apreciados antes de cumprir tal função.

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A banca de Agnaldo vende carrinhos de brinquedo e chocolates | Foto: Anderson Scardoelli/Revista Oeste
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Edições antigas da Folha de S.Paulo viram ‘jornal para pet‘ | Foto: Anderson Scardoelli/Revista Oeste

Mudanças no layout, promoções especiais e melhoria no conteúdo ajudam a impulsionar os sites, mas pouco podem fazer pelos impressos. Os jornais, que já tinham de lutar contra a instantaneidade da TV e, mais ainda, do rádio, viraram vítima indefesa da agilidade da internet. Some-se a isso o fato de que os leitores se acostumaram a consumir notícias online, principalmente pela facilidade de tê-las na palma da mão por meio de um smartphone, por exemplo. Por isso, mesmo as revistas, que produzem conteúdo mais analítico e menos perecível, acabam se rendendo à inviabilidade do produto impresso. Das três principais revistas semanais de informação no século passado, IstoÉ e Época encerraram as edições impressas, sendo que a primeira tem edição online própria e a segunda virou seção no site de O Globo. Somente Veja ainda sobrevive. No entanto, os mais de 1,5 milhão de exemplares que imprimia na era de ouro sob o comando de J. R. Guzzo (um dos fundadores da Oeste), atualmente estão reduzidos ao mínimo apenas para manter a circulação.

No caso das TVs abertas, o quadro é ainda mais desalentador. Streamings como Netflix e Amazon Prime, para ficar só nos dois maiores, oferecem catálogo diversificado de filmes e séries que podem ser assistidos a qualquer momento, pelo tempo desejado e em qualquer plataforma. No caso do Prime, há ainda a opção de assinar incontáveis canais e serviços de pay-per-view, entre outras comodidades. A maior ameaça, contudo, é o YouTube, que, ao contrário dos streamings, pode ser assistido de graça (embora tenha versão premium paga). No universo democrático da plataforma, qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdos dos mais variados gêneros, e veículos independentes podem transmitir sua programação ao vivo, como a Oeste tem feito com grande sucesso (e em breve estará também na TV por assinatura).

A Globo, maior rede do país, durante décadas liderou com folga o segmento da TV aberta. Nos áureos tempos, exibia índices de audiência inimagináveis hoje em dia. O último capítulo da novela Vale Tudo — versão original do “quem matou Odete Roitman”, de 1989 —, por exemplo, alcançou 81 pontos de audiência — o desfecho da nova versão, exibida recentemente, ficou em torno dos 30 pontos na Grande São Paulo, região utilizada como referência. A final da Copa do Mundo de 2002, na qual o Brasil derrotou a Alemanha por 2 a 0 e se tornou tetracampeã, rendeu à emissora uma audiência de 67 pontos. A Globo segue sendo a líder absoluta das TVs abertas. O problema é que o inimigo agora é outro. Ou melhor, são outros — muitos e mais atraentes.

O capítulo final de uma novela de prestígio costumava parar o país até mais do que a final de uma Copa. Hoje, esse tipo de entretenimento ainda tem uma audiência cativa, mas precisa brigar com canais por assinatura, streamings, YouTube e conteúdo de todo tipo — do melhor ao pior — disponível nas redes sociais. Sem contar, no caso da Globo, com o fogo amigo da Globoplay. A questão é bem mais complexa. Além de se reinventar em termos técnicos e no perfil meramente estético dos conteúdos, é preciso, mais do que nunca, estar sintonizado com o público o tempo todo. Se antes algum programa não agradava, mudava-se de canal. Hoje, muda-se de plataforma. E muitos que saem acabam não voltando. Muitos também, em especial os mais jovens, nem chegam a entrar na TV aberta.

Dinheiro não tem sido problema para alguns. De acordo com informações divulgadas pelo site Poder 360, os canais do Grupo Globo ficaram com a metade das verbas de publicidade em TV no governo Lula 3. Mais precisamente, 49,4% dos anúncios da Secretaria de Comunicação (Secom), dos ministérios e órgãos do Poder Executivo — estatais não estão incluídas. Isto representa R$ 462 milhões, mais do que o dobro recebido pelo grupo nos três primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro. Consequentemente, as demais emissoras abertas, como Record, SBT e Band, tiveram os valores reduzidos. As verbas publicitárias do governo são parte de um contexto ao qual muitos veículos da velha imprensa se veem presos. Por isso não enxergam o que deveriam enxergar sobre a realidade do país. Quando enxergam, é muito pouco e muito tarde.

Foto: Reprodução/Poder360

Saindo do âmbito do governo e da Globo, e examinando os números do mercado publicitário brasileiro como um todo, de acordo com o Cenp-Meios, levantamento realizado pelo Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão), em 2024 a internet ficou com uma fatia de 39,8%, enquanto a TV aberta levou 36,5%. Os demais segmentos vêm bem abaixo: mídia exterior (11,8%), TV por assinatura (5,7%), rádio (4%), jornais (1,4%), revistas (0,4%) e cinema (0,3%).

Como as inovações não vão parar de surgir e as opções aumentarão em ritmo vertiginoso, num mundo hiperconectado em que cada cidadão pode “ser” um canal de TV, um jornal, uma revista e tudo que a criatividade permitir, o que importará cada vez mais é a qualidade da informação, a confiabilidade. Já não basta às empresas de comunicação ter poderio econômico — embora fazer jornalismo de qualidade custe caro —, é preciso mostrar eficiência na curadoria das notícias, apresentar um trabalho confiável e, sobretudo, ser independente de verbas oficiais. Quem banca mesmo o bom jornalismo é o leitor, o telespectador, o ouvinte. O assinante continuará fazendo isso se receber em troca, seja na plataforma que for, a verdade — e não versões que interessam a quem está no poder. Isto é algo que tecnologia alguma irá substituir.

Leia também “O STF como ele é ao longo de 300 edições”

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4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Mas isso é óbvio com a tecnologia vai ficando tudo pra trás. Esses jornalistas sabem disso e ficam mentindo por dinheiro dos bandidos ladrões terroristas torturadores narcotraficantes assassinos comunistas que roubam a nação brasileira

  2. Paulo Monteiro Martins
    Paulo Monteiro Martins

    Em 2002 o Brasil foi penta. O Tetra foi em 94.

  3. Cícero Ruggiero
    Cícero Ruggiero

    A revista oeste para mim era um exemplo, porém, a falta de explicação sobre a demissão do Silvio Navarro me deixou muito chateado com a falta de transparência.

  4. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Assistindo a tantos anuncios , de divs orgaos do governo federal, especialmente em TVs com forte telejornalismo, desacredito na imparcialidade e independencia que deveriam seguir, praticar.

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