Os primeiros 25 anos do século 21 não foram marcados apenas por avanços tecnológicos ou mudanças nos hábitos de consumo. O período foi de reorganização simbólica: novas formas de comunicação passaram a moldar o debate público, fronteiras entre vida privada e exposição política se dissolveram, e temas antes restritos a círculos acadêmicos ou militantes migraram para o centro da vida cotidiana.
Nesse ambiente, surgiu um novo vocabulário político. Palavras, gestos e posicionamentos passaram a carregar peso ideológico imediato, e a adesão pública a determinadas causas passou a funcionar como sinal de virtude social. É nesse contexto que o wokismo se afirma como um fenômeno tipicamente contemporâneo, sendo um produto das redes sociais, do ativismo digital e de uma cultura que transformou engajamento em identidade.
Entre 2016 e 2022, nada era tão bem-visto quanto a bondade performada.
Embora existam registros do uso do termo woke anteriores aos anos 2000, especialmente entre afro-americanos, a expressão ganhou projeção global com a criação do movimento Black Lives Matter e a adesão ao movimento #MeToo, que se tornariam cruciais para o progressismo nos anos seguintes. Com o tempo, woke deixou de circular apenas dentro da comunidade negra e passou a ser adotado por grupos mais amplos, como sinal de alinhamento a pautas progressistas.
Apesar da ampla adesão inicial, o wokismo já apresenta sinais claros de desgaste. A expansão do discurso identitário para a política institucional, o entretenimento e o mercado produziu não apenas engajamento, mas também saturação. Em vez de consenso moral, o wokismo passou a despertar resistência, ironia e cansaço — abrindo espaço para uma reação que hoje atravessa governos, empresas e parte expressiva da opinião pública.
As raízes se espalham

A partir de 2016, com a eleição de Donald Trump nos EUA, o discurso identitário deixou de ocupar apenas o espaço do ativismo e passou a se infiltrar de forma consistente na cultura pop, nas universidades e no mercado. O woke começou a funcionar como uma identidade que deveria ser performada e reconhecida. A noção de engajamento ganhou valor simbólico: posicionar-se tornou parte do capital social, especialmente entre jovens.
Na música e no entretenimento, essa virada foi visível. Artistas como Kendrick Lamar e Beyoncé transformaram temas raciais em narrativa cultural de massa. No cinema, produções como Pantera Negra, lançada em 2018, deixaram visível que a diversidade e a representatividade passaram a ser não apenas pauta, mas também produto de sucesso comercial.
Nas universidades e nas redes sociais, o vocabulário identitário se expandiu rapidamente. Termos como “microagressão”, “lugar de fala” e “machismo estrutural” foram levados ao debate cotidiano, enquanto discussões sobre linguagem inclusiva e autocorreção discursiva ganharam força. A exigência por alinhamento moral tornou-se mais explícita: errar passou a ter custo reputacional, e o silêncio começou a ser interpretado como conivência.
Foi também nesse período que o discurso identitário chegou de forma organizada ao mercado, inaugurando o chamado capitalismo woke. Marcas globais passaram a incorporar causas sociais em suas campanhas, associando valores progressistas a estratégias de branding.
Em 2018, a Nike lançou uma campanha com Colin Kaepernick, atleta conhecido por protestar contra a violência policial ao se ajoelhar durante o hino nacional. No ano seguinte, a Gillette apostou em um comercial sobre “masculinidade tóxica”, colocando a marca no centro do debate cultural. A lógica era clara: engajar-se em causas passou a ser visto não apenas como posicionamento moral, mas como ativo econômico.
O auge do wokismo
O terreno já estava preparado quando o mundo entrou em colapso. A consolidação do discurso identitário encontrou, em 2020, seu ponto alto: a pandemia de covid-19 e a morte de George Floyd transformaram o woke em hegemonia moral. Em poucos meses, o engajamento social deixou de ser apenas desejável — passou a ser exigido.

O lockdown empurrou o debate público quase integralmente para as redes sociais, que se converteram em arenas permanentes de julgamento. A chamada cultura do cancelamento ganhou centralidade: artistas, executivos, jornalistas e acadêmicos tornaram-se alvos de campanhas de ostracismo por falas consideradas “inadequadas”, muitas vezes fora de contexto ou retiradas do passado por progressistas.
A pandemia também contribuiu para o enfraquecimento momentâneo das liberdades individuais. Comportamentos passaram a ser enquadrados como deveres éticos coletivos — do uso de máscaras ao vocabulário empregado em público. Discordâncias passaram a ser interpretadas como falha moral.

Nesse ambiente, a linguagem tornou-se um dos principais campos de disputa. Termos neutros de gênero, pronomes inclusivos e expressões alternativas passaram a ser adotados por escolas, universidades, empresas e veículos de imprensa. O idioma, antes ferramenta de comunicação, converteu-se em marcador político. Entre 2020 e 2021, o capitalismo woke atingiu seu auge, confundindo valores morais, estratégias de mercado e reputação corporativa. Grandes empresas passaram a se posicionar publicamente em causas sociais, reformularam campanhas e anunciaram investimentos milionários em programas de diversidade. Em muitos casos, o silêncio institucional passou a ser tratado como conivência.
Os riscos dessa estratégia tornaram-se evidentes já em 2021. Naquele ano, a H&M anunciou o fim do uso de algodão da região chinesa de Xinjiang, citando denúncias de trabalho forçado. A iniciativa foi elogiada no Ocidente, mas provocou boicotes e levou à retirada da marca de plataformas digitais na China.
O wokismo também tentou reescrever conceitos básicos da biologia. A escritora J. K. Rowling, autora da saga de livros Harry Potter, foi alvo de campanhas de cancelamento ao se posicionar contra a identidade de gênero e o movimento trans em 2019. Desde então, Rowling passou a ser atacada por militantes e chegou a ser afastada de processos criativos ligados à própria obra.
O transativismo foi além das redes sociais e interferiu nos esportes, prejudicando mulheres biológicas. O exemplo mais emblemático ocorreu em 2024, durante as Olimpíadas de Paris, quando progressistas saíram em defesa do boxeador argelino Imane Khelif, que competiu na categoria feminina e conquistou medalha de ouro. Na época, a desculpa era de que Khelif seria uma mulher intersexual — ou seja, que possui características biológicas femininas e masculinas.

Desgaste público
A partir de 2022, os sinais de desgaste do wokismo tornaram-se difíceis de ignorar. A vigilância permanente, a punição pública e a exigência de alinhamento moral produziram fadiga. O discurso que se apresentava como emancipador passou a ser visto, por parcelas crescentes do público, como coercitivo e pouco tolerante à pluralidade de ideias.
Esse desconforto ganhou voz em diferentes campos. Líderes políticos passaram a criticar abertamente o fenômeno. Em 2020, Donald Trump colocou o combate ao que chamava de esquerda woke no centro de sua campanha à reeleição, classificando a cultura do cancelamento como uma forma de “fascismo de extrema esquerda”. No ano seguinte, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson também atacou os excessos do movimento, associando-o à intolerância ao dissenso.
As críticas se espalharam pelo meio cultural e empresarial. Em 2023, o ator Brian Cox, da série Succession, afirmou que o wokismo estimula uma “cultura do vitimismo”. Já em 2024, o empresário Elon Musk disse que o “vírus mental woke” havia “matado” um de seus filhos, que hoje se identifica como uma mulher trans.
ELON MUSK: "Fui induzido a assinar documentos para o meu filho tomar bloqueadores de hormônios.
— Tradutor de Direita (@TradutordoBR) July 23, 2024
Meu filho Xavier foi morto pelo vírus woke. Eu jurei destruir o vírus woke depois disso." 🇺🇸🇧🇷 pic.twitter.com/qm1SOrRTHI
O cansaço também começou a se traduzir em consequências econômicas. Em 2023, a Bud Light enfrentou uma de suas maiores crises de reputação depois de uma campanha com a influenciadora trans Dylan Mulvaney, que desencadeou boicotes organizados e perdas bilionárias. No ano seguinte, o fracasso gerado por um comercial da Doritos com a artista trans Samantha Hudson, exibido na Espanha, reforçou a percepção de que o ativismo publicitário já não rendia frutos.
O mesmo padrão se repetiu na indústria cultural. A Disney, uma das empresas que mais incorporaram pautas identitárias em suas produções, tornou-se símbolo dessa inflexão. Em 2021, Eternos introduziu o primeiro casal gay do Universo Cinematográfico Marvel e enfrentou críticas e desempenho abaixo do esperado. Em 2023, A Pequena Sereia, com uma atriz negra no papel de Ariel, gerou rejeição em parte do público internacional. Já em 2024, a Pixar retirou de uma série animada um arco envolvendo uma personagem trans antes da estreia. O ponto de inflexão simbólico veio com o remake de Branca de Neve, precedido por declarações polêmicas da atriz principal e seguido por um fracasso histórico de bilheteria.
O wokismo no Brasil
O ciclo que se encerra não é o da sensibilidade social, mas o da hegemonia identitária.

🚨URGENTE – Havaianas, com Fernanda Torres, promove campanha ‘contra o pé direito’
— SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) December 21, 2025
“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito” pic.twitter.com/r75JbtdJ1E
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Adorei o artigo.
Espero que esse movimento woke desapareça de uma vez por todas e seja lembrado como lição de uma fase ridícula e patética de uma década que tem sido a mais decadente da história
Brilhante análise 👏🏻👏🏻
Geração Z, a Geração da jumentologia
Seria bom se fosse verdade.