O resumo do primeiro quarto do século 21 é o seguinte: surgiu um movimento antifascista que usa métodos fascistas. Mais que um resumo, essa excrescência histórica constitui um emblema: as sociedades passaram a usar, ou pelo menos aceitar que se usasse, o aparato intelectual acumulado em séculos e séculos de civilização para contrabandear o humanismo.
O contrabando intelectual do humanismo é possivelmente a maior chaga da civilização. Ou, melhor dizendo: é a anticivilização. Toda a bagagem de consciência e cultura que veio trazendo, através dos tempos, as sociedades da barbárie para o legalismo passou a ser usada em modo reverso. A “descoberta” fatal do ser humano no século 21 foi a possibilidade de usar o poder da conceituação à margem da boa-fé. Espelho, espelho meu: posso substituir os princípios por retórica?
A resposta do espelho foi o começo do fim da civilização como a conhecemos: pode sim — disse o reflexo assombroso do homem contemporâneo —, vai fundo.
Foram 25 anos ensaiando a desumanidade de boa aparência. No final do século 20, não seria possível projetar uma máquina de propaganda capaz de inverter sinais civilizatórios. Mas o advento da comunicação total concretizou essa possibilidade. Sim, movimentos violentos e discriminatórios puderam se travestir de “antifascistas”. Sim, a indústria do proselitismo pôde subverter a causa das minorias sexuais para oprimir e excluir a mulher. Sim, diversas matrizes demagógicas puderam utilizar a luta histórica contra o racismo como pretexto para a censura.

Se as sociedades não sucumbirem definitivamente a esse impressionante tráfico de virtudes, os historiadores do futuro próximo não terão dificuldades em classificar o primeiro quarto do século 21 como o período mais reacionário da história da humanidade. E por que não há outro tão reacionário? Porque não há, em nenhum lugar do passado, nenhum período em que o ser humano tenha tido tanto acesso ao conhecimento. A atenuante da ignorância foi abolida. Quando o nível médio de esclarecimento das sociedades se eleva a um ponto em que a maioria com certeza tem instrumental suficiente para um discernimento razoável da realidade que a cerca, desaparece a fronteira entre ignorância e má-fé.
Os críticos da “razão cínica” se destacaram na segunda metade do século 20 com seus postulados sobre o niilismo e os perigos iminentes para sociedades excessivamente materialistas. Era uma exploração teórica. Mal sabiam eles que o século seguinte traria a encarnação real do monstro: o século da razão cínica. Os pensadores da encruzilhada moral certamente não imaginavam um cenário de degeneração institucional como o que passamos a viver. Nenhum deles diria que uma Organização Mundial da Saúde — quase um totem da sacralização do conhecimento humano — poderia se desmantelar nas mãos sujas dos vendedores de utopia.
A pergunta final é: a humanidade vai ter força para se descomprometer com a farsa?
A ética é uma convenção. De certa forma, até uma convenção frágil. Nós, humanos, reunidos aqui neste coletivo, fazemos um acordo. Combinamos que a nossa organização será garantida por determinadas regras e princípios, nos quais todos nós declaramos confiar. A regência desse acordo não é a inteligência, nem a justiça. É a boa-fé. A ética é uma convenção frágil porque, se desaparece a boa-fé, as regras e os princípios viram geleia. O ser humano não tem como erradicar a subjetividade. E, por menor que ela seja, sempre haverá espaço de manobra para o transformismo conceitual. Vale o escrito — mas cada um lê como quiser.
Num dos momentos mais dramáticos do primeiro quarto do século 21, o músico Eric Clapton resumiu a desfiguração do seu tempo. Declarou que uma das razões que o haviam tornado um artista do rock era a reação aos sistemas opressivos — e agora ele recebia, inclusive de muitos dos seus pares, a reprovação por se colocar contra um sistema opressivo. A pandemia foi o estandarte da infâmia.

O grito de Clapton foi, e ainda é, um fio de esperança na dignidade. Um fio, porque cercado por um oceano de impostura. Não só dos roqueiros, que foram transformando docemente rebeldia em colaboração interessada. Artistas em geral toparam de bom grado o embarque em causas cosméticas com boa recompensa pecuniária — dando o combustível emocional para o sistema das cartilhas persecutórias. Todo mundo é horrível e desumano — fora os que recitam o glossário salvacionista bancado pelas megafundações “humanitárias”. O século 21 falsificou o humanismo.
Artistas, jornalistas, cientistas, juristas, economistas — de todos os lados vieram os colaboracionistas. Dar lastro para censura em massa acusando meio mundo de “desinformação” se tornou lucrativo? Vamos nessa. Estamos dentro! Negacionistas são os outros.
Infelizmente, é preciso constatar: a coisa funcionou. O que parecia — e era — um esquema tosco de autoritarismo branco virou norma. Na Inglaterra, um cidadão pode ser preso por criticar um grupo terrorista nas redes sociais. Funcionou ou não funcionou?
A pergunta final é: a humanidade vai ter força para se descomprometer com a farsa? E se tiver força: vai querer? E se quiser: quando? E quando quiser: como? E considerando-se que as respostas sejam todas positivas, quanto tempo isso leva? Uns 25 anos dá? A gente conversa em 2050.
Leia também “Dois pés na jaca”




Fiuza, parabéns, excelente artigo!
Parabéns Fiuza. O texto é maravilhosamente verdadeiro.
Grande Fiuza está de volta.
Fiuza o mais singular e objetivo, jornalismo puro
Os artistas , estudantes, políticos, jornalistas antifascistas fascistas, já encheram o saco demais, a hipocrisia deles é assustadora , se forem espertos pode ser que mantenham um pouco de audiência ainda mas o futuro próximo será bem diferente.
2050? Quanto otimismo…
Texto de tirar o fôlego. Caso a sociedade não seja esfacelada, esse texto será referência no futuro. Isso é lógico se o mundo não se converter em um grande império islâmico socialista.