Li nos jornais do primeiro dia do novo ano que reacende a esperança para 2026. Lembro da peça teatral “Brasileiro, Profissão Esperança”. Essa esperança que nos resta parece uma pergunta balbuciada no corredor da UTI: “Doutor, ainda tem esperança?”. Mais da metade dos brasileiros entregou o futuro a Deus e a Trump. Já desistiram de Trump. E ainda não descobriram que Deus nos usa para fazer milagres. Como temos livre arbítrio, o milagre divino só será realizado se tivermos vontade de agir. Os beneditinos seguem a regra básica: “Ora et labora“. Sem laborar, as orações ficam nas nuvens e a Terra fica à espera do labor.
O que nos espera neste 2026? Desde o primeiro dia do ano, empresários terão que conviver com novos impostos, o primeiro deles enganosamente chamado de Contribuição. Contribuição sobre Bens e Serviços. E outro que também é sobre bens e serviços, mas é imposto… como todos os tributos que nos impõem. Imposto sobre Bens e Serviços. Conviverão com os velhos conhecidos ICMS, IPI et caterva. Hoje, segundo o Banco Mundial, as empresas brasileiras gastam por ano 1,5 mil horas só para calcular o pagamento dos impostos. E tempo vale mais que dinheiro. Claro que os pagadores de impostos terão que pagar mais, pois o governo cada vez gasta mais. Vamos entrar o ano trazendo o rombo do ano anterior, inclusive nas estatais povoadas de incompetências indicadas por partidos políticos.

As instituições funcionam envernizadas por fingimentos, para enganar o distinto público pagador de impostos, eleitor e origem do poder. O Executivo não sai do palanque e da propaganda. Se a gente fosse ler e ouvir o que os nossos milhões de tributos pagam, acreditaríamos que o governo vai bem e é a fonte de todo bem-estar, num país recordista de desemprego, que não conta a multidão que não trabalha porque recebe Bolsa Família dos impostos dos que trabalham. (E chamam isso de justiça social.) A cleptocracia roubou R$ 6 bilhões de idosos da Previdência. O Legislativo é atropelado pelo Supremo, mas não tem a ficha-limpa necessária para se impor como legítimo representante do poder do povo. O fisiologismo das emendas é o princípio que rege as relações — felizmente, ainda resiste uma razoável parte de efetivos representantes da vontade popular.
De 1995 até hoje, num período de 30 anos, só tivemos um interregno de quatro anos sem governos de esquerda.
O nosso Supremo é um case para o mundo jurídico. O contrato de R$ 3,6 milhões por mês com o Master é o retrato que resume tudo. Nem mesmo o discurso do Doutor Ulysses na promulgação da Constituição abala a indiferença dos afastados do país real. “Traidor da Constituição é traidor da Pátria”, lapidou Ulysses. O ex-decano Celso de Mello, preocupado com a queda da Suprema Corte, ensinou, no último Natal, em artigo no Estadão: “A democracia começa pela ética de juízes”. Mas a ética sumiu. Diante do arbítrio e do descumprimento da Constituição, a OAB e o Senado têm ficado calados. Não parece que acordarão em 2026.
Se na eleição deste ano houver uma maioria maciça sem “rabo preso” no Senado, pode acontecer de se fazer o Supremo voltar à Constituição e à ética. Mas se houver empates na eleição para senador, presidente, governador, como poderá haver recontagem, se não há comprovante em papel do voto digital? Contar bytes? Apertar o botão recontar? O presidente Fachin quer um código de conduta, como uma rede para aparar o Supremo em queda. Mas os trapezistas da Corte, que podem voar, tiraram a rede há tempos, e agora parece ser tarde, pois a Lei da Gravidade não consegue modificar nem declará-la inconstitucional.

E o jornalismo, a mídia, vai continuar como nos tempos de pandemia, quando escondia que havia tratamento fácil, rápido e barato para a covid-19? Quantos milhares de brasileiros morreram porque acreditaram que não havia tratamento? E quantas vezes a Constituição ainda precisará ser maltratada ante o silêncio do “armazém de secos e molhados”, como definiu Millôr Fernandes o jornalismo áulico, cortesão, vitaminado não pelo respeito e pela admiração do povo, mas pelas verbas publicitárias dos impostos de todos? Será que os soluços de agora sobre o escândalo supremo são prenúncio de que a mídia voltará ao caminho que abandonou para anular Bolsonaro? Como acreditar, depois de tudo?
E o povo, eleitor, pagador de impostos, fonte do poder? Não acordaremos em apenas um ano. Mas é o mesmo povo brasileiro que, pelo otimismo e entusiasmo, fez o país crescer uma média de 11,2% ao ano na primeira metade de 1970. Em 1973, o crescimento do PIB foi de 14%. Ou seja, somos capazes. E temos a natureza, o principal fator que move a economia. A senhora Thatcher certa vez lembrou que, se fosse por riquezas naturais, Suíça, Singapura, Bélgica… seriam países miseráveis, e a Rússia teria o maior bem-estar do planeta. O Brasil é como a Rússia, em riqueza natural.
Mas a Dama de Ferro lembrou que há um fator mais forte: o sistema econômico. Com livre mercado, liberalismo econômico, a consequência é riqueza e bem-estar. De 1995 até hoje, num período de 30 anos, só tivemos um interregno de quatro anos sem governos de esquerda. E nesses quatro anos, metade foi de pandemia, numa estrutura estatal minada pelos 23 anos anteriores de apropriação do Estado e da formação de corações e mentes. E de escândalos de corrupção desde o Mensalão. Parafraseando Dante, deixai toda esperança, vós que entrais no Brasil de 2026. Enfim, esperança é a última que morre. Está moribunda.
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Lideranças de DIREITA! Nos convoquem para uma manifestação contra essa injustiça dessas prisões. JUSTIÇA!!!!!!!
E eu queria saber como podemos repassar para amigos e potenciais assinantes alguns desses textos, reportagens e matérias que esse brilhante time da revista Oeste produz…
Obrigada mestre pelo texto brilhante, esclarecedor, objetivo.
Alexandre Garcia este artigo é o retrato do Brasil e dos brasileiros que possuem no mínimo dois neurônios funcionando.
Quando criança ouvia meus pais comentarem sobre as dificuldades e a resposta era sempre a mesma: Deus é brasileiro.
Em 136 anos de República apenas 12 presidentes terminaram seus mandatos e 3 vices concluíram o período dos eleitos.
Com esse histórico não é seguro colocar expectativas na classe política tupiniquim.
Parabéns Alexandre! Artigo mais que fantástico, resume todas as mazelas que vivemos nesses tempos mais que sombrios! Mas sempre aparece uma chama de esperança, mesmo que não seja a nossa própria…Quem sabe a prisão do narcottaficante e ditador venezuelano, já não nos dê essa chama que algo possa efetivamente mudar pra melhor em 2026? Queremos apenas um país HONESTO e JUSTO! Será que é pedir demais?
Parabéns Mestre Alexandre Garcia artigo fantástico para mim o melhor da semana. Acho que a peça citada “Brasileiro Profissão Esperança”é o retrato do povo brasileiro trabalhador que nunca desiste da vida.Obrigada Mestre.