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As celebrações de fim de ano na Europa ocorrem sob o espectro sombrio e a insegurança gerada pelo terrorismo islâmico | Foto: REUTERS/Ronen Zvulun
Edição 302

Fim de festa

A passagem do ano na Europa já está marcada pelo medo do terrorismo islâmico

“Meu medo de comemorar o réveillon em Londres não é apenas por eu ser judia, mas por estar em um lugar aberto, que pode se tornar um alvo fácil para um atentado.” A frase da brasileira Natasha Laniado, de 58 anos, é um retrato do porquê de a comemoração do Ano Novo na Europa ser, neste ano, marcada por cerimônias discretas e até cancelamentos.

O evento cancelado de maior impacto é o de Paris. Em 2024, o grande show da noite reuniu cerca de um milhão de pessoas. Neste ano, não acontecerá. A Champs-Élysées, considerada a avenida mais bonita do mundo, será palco de um espetáculo de luzes, a ser visto apenas pela TV. Nada de abraços a céu aberto. O temor de um atentado assola a Europa.

Em Overath, na Alemanha, o mercado de Natal, típico da Europa nesta época, não ocorreu em 2025 porque os organizadores concluíram que as exigências de segurança (barreiras, vigilância, polícia extra) eram financeiramente inviáveis, e a prefeitura não subsidiou o orçamento. Na Bélgica, que tem sido um núcleo para células terroristas, o grau de ameaça está em “sério”, entre níveis 3 e 4 (o mais elevado). Nas fronteiras, são esperadas longas filas neste fim de ano, já que será preciso registro, com foto e impressão digital, para cidadãos que não fazem parte da União Europeia.

Em Belgrado, na Sérvia, as comemorações de Ano Novo foram canceladas por razões de segurança. Praticamente todas as cidades europeias começaram a adotar restrições a fogos de artifício e apelam para que a população tome precauções. Muitas delas proíbem a passagem de pessoas em determinadas áreas no Ano Novo. É o caso da Tower Bridge, em Londres.

Pró-Palestina

Natasha mora há mais de 30 anos na Europa. Ela atua como professora de inglês para imigrantes e percebeu uma mudança clara nos últimos anos. A ameaça maior tem como origem o radicalismo islâmico. A população muçulmana no continente cresceu cerca de 16% entre 2010 e 2020. Na França e no Reino Unido, representa entre 7% e 9% dos moradores, com projeção de chegar a 17% em 2050, segundo o Pew Research.

Não se trata de generalização. Mas se, entre 100 mil refugiados ilegais muçulmanos que entram em um país, cinco deles forem suscetíveis ao doutrinamento terrorista, o perigo já será enorme. Natasha resume: “Moro a 45 minutos de Londres e os muçulmanos que vivem na minha região são gentis e educados”. Ciente de uma onda antissemita que tomou conta do país, ela tomou precauções. Colocou a mezuzá — objeto sagrado presente no umbral da porta de cada lar judaico — para o lado de dentro. E esconde a Estrela de Davi, que leva em um colar, quando sai de casa.

“Fico desconfortável ao usar transporte público perto de pessoas que sei que são muçulmanas, pois não conseguimos distinguir entre os bons e os radicais”, afirma ela. “Muitas mulheres usam hijab ou burca. A vestimenta dos homens, com barbas, dificulta determinar quem apoia o quê. Já foram divulgados inúmeros vídeos de agressões a crianças judias. Escolas judaicas solicitam que as crianças tirem a kipá [solidéu] ao caminhar nas ruas.”

Durante o período da crise migratória iniciada em 2015, por causa da guerra na Síria e de crises humanitárias no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, a ameaça vinha da estrutura do Estado Islâmico (Isis), grupo terrorista que tinha se introduzido, por meio de células, na Europa. O objetivo era aproveitar a onda de refugiados para alimentar a jihad (guerra santa).

Atentados como o do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, e o da casa de espetáculos Bataclan, em novembro do mesmo ano, em Paris, simbolizam esse período. Depois da derrota do Isis, na Síria e no Iraque, o grupo se desmantelou, mas o perigo passou a existir nos lobos solitários (radicais que agem sozinhos) que buscavam dar prosseguimento à causa.

Mesmo sem ligação operacional com o Isis, eles agem inspirados na chamada propaganda residual, feita por líderes remanescentes que mantêm bases em países como o Afeganistão e utilizam a internet como ferramenta para ataques. O 7 de outubro se tornou um grande gatilho. A incursão do Exército de Israel a Gaza, para se defender do ataque do grupo terrorista Hamas, reacendeu o antissemitismo e espalhou o slogan “Globalize a Intifada”, que serviu de estímulo para jovens radicais islâmicos agirem por conta própria.

Antes desta data, Natasha diz que se sentia apenas como uma mulher judia a interagir nos países em que residiu e trabalhou. Como professora, ela conviveu muito com imigrantes. Hoje, dá aulas somente online, em função dos problemas de segurança. “Nosso objetivo não é apenas ensinar a língua inglesa, mas também auxiliá-los a se integrarem à sociedade inglesa.”

Ela também deu aulas em Paris, mas deixou a universidade depois dos ataques do Hamas a Israel. “Lecionei 15 anos em Paris, em duas universidades, e a maior parte dos meus alunos era muçulmana. Nunca tive problema, nunca demonstraram preferência ou desdém pelos judeus ou Israel.” Não há dúvida, segundo Natasha, de que tudo mudou depois do 7 de outubro. “A universidade ficou repleta de cartazes e bandeiras pró-Palestina. Senti um incômodo tão grande que encerrei meu contrato.”

Outro continente

Os dois fatores, imigração em massa e o 7 de outubro, levaram a uma onda de ataques terroristas que, de tão numerosos, acabaram sendo banalizados e, muitas vezes, deixaram de estampar as manchetes. A população da Europa está se acostumando a ver isso como rotina.

As autoridades têm tido dificuldades para conter ataques. Em 2025, governos europeus mantiveram o alerta máximo diante de atentados ou planos terroristas frustrados. Na França, um ataque com faca em Mulhouse, em fevereiro, deixou um morto, classificado como terrorismo pelas autoridades. Na Áustria, um esfaqueamento em Villach matou um adolescente.

No Reino Unido, em 2 de outubro de 2025, durante o Yom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico, um terrorista britânico de 35 anos de ascendência síria atropelou pedestres e, em seguida, esfaqueou pessoas na entrada da sinagoga Heaton Park Hebrew Congregation, em Manchester. Duas pessoas morreram.

As periferias de cidades como Paris têm ficado cada vez mais sobrecarregadas com a imigração ilegal. Tem surgido, com isso, um problema social.

Na Alemanha e na Áustria, prisões preventivas de suspeitos ocorreram antes de eventos públicos. Nesse cenário, a polícia de Paris pressionou a prefeitura a cancelar o concerto de fim de ano. “É evidente que isso é resultado de uma imigração muçulmana massiva e sem triagem adequada para a Europa”, afirmou Daniel Di Martino, pesquisador de imigração do Manhattan Institute, ao New York Post. “A Europa Ocidental enfrenta um problema de terrorismo há muitos anos, que se agravou com a imigração islâmica não verificada depois da crise dos refugiados de mais de uma década atrás.”

Natasha atua no Ministério do Interior britânico como intérprete. Optou, porém, por trabalhar à distância. No dia a dia, percebe esse fenômeno crescente da imigração ilegal. “Atuo em home office como intérprete, e o número de entrevistas para pedidos de asilo praticamente triplicou.”

Cidades inglesas como Londres, Birmingham e Manchester se tornaram extremamente intolerantes com os judeus. A situação tem reverberado em outro continente. Na Austrália, que faz parte da Comunidade Britânica, o ataque em Bondi Beach, Sydney, deixou mortas 15 pessoas. Elas celebravam a festa judaica de Chanucá e foram assassinadas por terroristas paquistaneses. O atentado trouxe mais preocupação para as autoridades europeias.

Problema social

O governo britânico decretou que as palavras “intifada” e “jihad” não podem mais ser usadas, por serem consideradas discurso de ódio. Isso, no entanto, ocorreu somente depois que tragédias aconteceram. “As pessoas ficaram gritando durante dois anos essas palavras, nas cidades inglesas, em protestos nas ruas, mas o governo só foi proibir isso depois dos atentados em Manchester e em Sydney”, diz a brasileira.

O governo francês declarou que seis atentados terroristas foram frustrados no país ao longo de 2025. Mas a violência não está restrita à questão religiosa. As periferias de cidades como Paris têm ficado cada vez mais sobrecarregadas com a imigração ilegal. Tem surgido, com isso, um problema social. O órgão oficial de estatísticas francês relata que, nestes bairros periféricos, o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos foi de cerca de 22% em 2024, mais que o dobro da média geral francesa para essa faixa etária.

A celebração do fim de ano tem sido substituída por pancadaria generalizada, na qual muitos imigrantes ilegais se envolvem como forma de protesto contra o sistema. Na passagem do ano, em 31 de dezembro de 2024, mais de 980 carros foram incendiados, e 420 pessoas, presas. A polícia definiu os episódios como “violência sem sentido e endêmica”.

A festa tradicional cedeu lugar à pancadaria generalizada que terminou com centenas de detidos e quase mil veículos incendiados nas ruas | Foto: Divulgação

“O que vemos é o resultado de uma descida à barbárie”, afirmou Bruno Retailleau, então ministro do Interior francês, que deixou o cargo em 2025, depois de se tornar líder do partido de direita Os Republicanos. Ele chamou os agressores de “covardes e delinquentes que atacam o patrimônio de cidadãos franceses, muitas vezes modestos”. Neste fim de ano, ódio e violência preocupam a Europa. Tudo o que os terroristas não querem é um feliz 2026.

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2 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    A Europa decidiu colocar em prática a tal “reparação histórica” pelo domínio que muitos países europeus exerceu sobre a África e o Oriente Médio. Abriram suas fronteiras sem critérios técnicos e seletivos e o resultado está aí.

  2. João Carlos de Souza Carvalho
    João Carlos de Souza Carvalho

    Os europeus pediram para serem escravizados e aterrorizados pelos muçulmanos ! Agora não dá para retroagir sem um holocausto deles !

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