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Enterro coletivo das vítimas dos ataques de 25 de dezembro de 2023 no estado de Plateau, na Nigéria | Foto: Reprodução
Edição 302

A esperança movida pela fé

A violência contra cristãos na Nigéria não se limita a confrontos diretos. Ela se manifesta por meio de sequestros, destruição sistemática de vilarejos e ocupação territorial

Às 10h30 da manhã do primeiro domingo do Advento — início do ano litúrgico católico, no final de novembro —, começava a missa na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no centro de São Paulo. Quem entrava encontrava um ambiente que não correspondia ao movimento quase inexistente da praça do lado de fora, no Largo do Paiçandu. A luz natural atravessava os vitrais coloridos e se misturava à iluminação branca dos lustres. Não havia ruídos externos, a cidade ficava do lado de fora. A celebração ocorria na capelania Santa Josefina Bakhita, dedicada à primeira santa africana. A missa era conduzida em inglês, idioma da comunidade reunida ali. Apenas a homilia passava ao português quando havia brasileiros presentes. Os cânticos eram animados, acompanhados por palmas e pelo som de um tambor. Tratava-se de uma missa inculturada: o rito católico tradicional mesclado com elementos musicais africanos.

Os fiéis estavam vestidos de maneira formal e elegante. A fala do celebrante era didática, a voz calma, marcada por sotaque. Ao final, a dispersão foi lenta. Não se falava de perseguição naquele momento, nem de política internacional. Ainda assim, tais fatos ajudavam a explicar por que aquela comunidade se reunia ali, todos os domingos, em inglês, no centro de São Paulo: tratava-se de um espaço de organização social, religiosa e linguística para pessoas que compartilham uma mesma origem nacional e uma experiência comum de deslocamento. 

Nigéria distante, mas presente

Do Largo do Paiçandu às áreas rurais da Nigéria, a distância não se mede apenas em quilômetros. Ela envolve fusos horários, idiomas, paisagens e rotinas completamente distintas. Enquanto os fiéis deixam a igreja no centro de São Paulo, cristãos em diversas regiões do país africano começam mais um dia sob a expectativa de ataques que não obedecem ao calendário ou à lógica. Na Nigéria, a violência não representa exceção ou ruptura, é uma rotina. Aldeias cristãs são atacadas em ciclos imprevisíveis: incursões noturnas, casas incendiadas, igrejas destruídas, mortos enterrados às pressas, deslocamento forçado dos sobreviventes. Quando o dia amanhece, o ataque terminou, mas a ameaça permanece.

Na Nigéria a fé resiste entre casas incendiadas e a certeza do próximo ataque | Foto: REUTERS/Temilade Adelaja

Esse padrão se repete especialmente no Norte e no chamado Cinturão Médio do país, área de transição entre comunidades majoritariamente muçulmanas e cristãs. Com o passar dos anos, a violência deixou de ser localizada e avançou para regiões antes consideradas mais estáveis. O deslocamento interno se tornou uma constante. O resultado é um país com milhões de deslocados internos vivendo em acampamentos improvisados ou abrigos temporários, onde a vida se reorganiza em torno da sobrevivência. A fé não desaparece, mas passa a ser exercida sob risco permanente. Relatórios identificam a atuação de organizações jihadistas, como Boko Haram e ISWAP, além de milícias armadas ligadas a conflitos agrários e religiosos. Não se trata de um grande massacre único, capaz de chocar o mundo por alguns dias, mas de centenas de episódios menores que, somados, produzem um cenário contínuo de horror, instabilidade e medo. 

O que dizem os documentos e as vozes que os produzem

De acordo com Marco Cruz, da organização Portas Abertas, “a Nigéria é o sétimo país que mais persegue cristãos (atrás apenas de Coreia do Norte, Somália, Iêmen, Líbia, Sudão e Eritreia) e o mais violento”. Em média, morriam cerca de 5 mil cristãos por ano no país. Este número caiu para 3 mil, mas a perseguição continua a mesma. “Do total global de quase 4,5 mil cristãos mortos por motivos religiosos, cerca de 70% são da Nigéria”. Doze estados do Norte adotam a sharia (conjunto de princípios e normas do direito islâmico) como base legal, o que cria um ambiente de restrições adicionais à liberdade religiosa. “Há um movimento de grupos radicais para implantar um califado, com a conversão ou extermínio dos cristãos”, afirma Cruz. 

A violência não se limita a confrontos diretos. Ela se manifesta por meio de sequestros, destruição sistemática de vilarejos e ocupação territorial. Ao relatar sua visita à Nigéria, Cruz descreveu “vilas fantasmas, casas e igrejas queimadas” como resultado de ataques de radicais ligados à etnia fulani e ao Boko Haram. A Portas Abertas presta auxílio a 16 milhões, diz Cruz. Já Rodrigo Arantes, da organização Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), faz uma distinção importante. “Nós nem chamamos esses grupos de islâmicos, mas de islamistas, porque eles se apropriam de uma religião para espalhar o terror”. Arantes cita o caso de uma jovem cristã que “ficou presa durante um ano em uma jaula, como se ela fosse realmente um animal”. Segundo o relato, “esquartejaram seu irmão mais novo na frente dela”. A jovem conseguiu fugir e chegou a Maiduguri, onde a ACN mantém um centro de recuperação de traumas. Arantes comenta que, embora a Constituição do país preveja a laicidade e a liberdade religiosa, “o governo não consegue oferecer isso na prática”. 

O governo falha em proteger cidadãos tratados como animais por terroristas que usam a religião como pretexto para o extermínio | Foto: Reprodução

Trump entra em cena

No final de outubro, Donald Trump usou sua rede social para enquadrar o que ocorre na Nigéria como um problema de escala internacional. “Quando cristãos, ou qualquer outro grupo semelhante, são massacrados como está acontecendo na Nigéria, algo precisa ser feito”. Trump concluiu que está “pronto, disposto e apto a salvar” cristãos ao redor do mundo. No Congresso americano, o discurso encontrou eco. O senador Ted Cruz retomou números que já circulam em audiências e relatórios paralelos, afirmando que mais de 50 mil cristãos teriam sido mortos na Nigéria desde 2009. Sunday Dare, porta-voz do presidente nigeriano, Bola Tinubu, classificou as declarações como “retórica irresponsável que alimenta mal-entendidos”. Segundo ele, “a Nigéria não está testemunhando um genocídio cristão; está enfrentando o terrorismo que atinge a todos”. 

No Largo do Paiçandu, depois da missa, Hajinus conversou com Oeste. Ele vive no Brasil há nove anos. Quando deixou a Nigéria, a violência já era parte do cotidiano. “O problema é realmente a formação do país”, analisa. “Temos religiões diferentes, crenças diferentes, tribos diferentes, culturas diferentes.” Enquanto autoridades insistem que a violência atinge todos igualmente, ele descreve um país em que a convivência entre diferenças nunca foi plenamente pactuada. “Sobre a declaração do presidente Trump, não acho que uma guerra vai acabar com o problema da Nigéria, já tivemos essa guerra antes e ela não foi a solução.” Para ele, manter algo à força, quando isso causa medo e morte, não resolve o problema — apenas empurra o fim inevitável para depois. “Se realmente não conseguimos viver juntos, então podemos nos separar e viver como bons vizinhos.” 

Naquela missa

O padre Chinaka usa batina com colarinho clerical, óculos pretos de armação redonda e mantém um cavanhaque bem delineado com bigode. Quando sorri, aparecem discretamente os aparelhos nos dentes, detalhe que quebra a formalidade do traje e aproxima a figura sacerdotal do cotidiano. A voz é calma, didática, com leve sotaque nigeriano. Chinaka Justin Berry nasceu e iniciou sua vida religiosa na Nigéria, onde cresceu em uma paróquia administrada por dominicanos. “A convivência com aqueles frades no modo que celebravam a liturgia, a profundidade de suas homilias e o amor deles pelo estudo da palavra de Deus me marcaram profundamente.” O pai, embora católico, inicialmente hesitou diante da escolha. “Mas ele foi vendo minha perseverança e serenidade e acabou compreendendo que esse chamado não era um impulso juvenil, mas um propósito firme.”

Depois da formação inicial, foi enviado ao Brasil para fortalecer a presença dos Oblatos de São José, ordem da qual faz parte, no país e permitir a formação teológica em um contexto cultural distinto. “Em 2014, embarcamos nessa nova etapa da vida religiosa”, lembra. Desde então, sua atuação se concentrou na comunidade africana, especialmente nigeriana, em São Paulo. A missa em inglês, autorizada pela arquidiocese, tornou-se um ponto de referência para imigrantes que enfrentam barreiras linguísticas e sociais. Chinaka cursa mestrado e desenvolve uma dissertação sobre a situação dos cristãos na Nigéria. “O trabalho tem a ver com a perseguição pelo Boko Haram à luz do livro do Apocalipse.” 

Trump “sinaliza a postura firme e a defesa da liberdade religiosa, principalmente a defesa dos cristãos, que têm sido esquecidos por muitos governos no mundo”. 

Ao acompanhar imigrantes nigerianos, Chinaka relata exclusão social, barreiras linguísticas, pobreza e isolamento. “Para alguns, a vida se limita às suas casas e ao trabalho, na Galeria do Rock [uma das mais famosas da região central de São Paulo].” Nesse contexto, a Igreja aparece como espaço de mediação. “A igreja em São Paulo está nos dando bastante apoio”, diz. “Já nos deu espaço, oportunidade, e estamos criando essa união para nos fortalecer.” Para Chinaka, o papel do sacerdote ultrapassa o âmbito ritual. “Hoje, vejo que Deus me chamou não apenas para o sacerdócio, mas para ser uma ponte entre culturas.”

Outra igreja, mesma vivência

O espaço onde o pastor Israel Sunday lidera sua comunidade cristã no bairro do Butantã, em São Paulo, é simples e acolhedor. As paredes brancas não exibem símbolos decorativos. Bancos de plástico vermelho ocupam o salão. À frente, um púlpito divide o espaço com instrumentos musicais e caixas de som. Acima dele, uma televisão acompanha o culto. Israel iniciou sua trajetória religiosa na Nigéria. Tornou-se cristão convertido em 1993 e, poucos anos depois, passou a atuar como obreiro na igreja local. “Diplomei-me em missões transculturais e comecei o trabalho ministerial em tempo integral em 1998”, conta. “Quando eu ainda era missionário na parte norte da Nigéria, escapei da morte duas vezes.” Israel detalha o cenário. “Fanáticos muçulmanos estão causando problemas. Eles são terroristas e estão forçando as pessoas a aceitar o Islã.” A recusa, segundo Israel, tem consequência imediata. “Quando as pessoas não aceitam o Islã, eles matam. Especialmente os que são cristãos, pastores, padres e bispos, queimam igrejas e as casas dos cristãos, sequestram e matam”, relata. “Eles não querem que o cristianismo cresça na parte norte da Nigéria e querem que toda a região seja islâmica. Gradualmente, estão se movendo para o sul e começaram a matar pessoas lá também.” 

O pastor alerta que a perseguição religiosa avança do norte para o sul com sequestros e assassinatos de quem se recusa a se converter ao islamismo | Foto: Reprodução

Em 2012, Israel foi enviado ao Brasil como missionário da Redeemed Christian Church of God. A transferência não ocorreu como fuga, mas como deslocamento institucional dentro da estrutura da igreja, após anos de atuação em áreas de risco. “Como cristãos, não lutamos, não carregamos armas”, declarou. “Acreditamos em Deus. A única coisa que fazemos é orar.” Para ele, a sobrevivência da Igreja na Nigéria se explica por isso. A liderança do pastor Israel em São Paulo se constrói a partir desse percurso. Sua autoridade nasce da experiência direta. “Apesar da perseguição, a Igreja na Nigéria continua firme”, disse. 

A fé enquanto vida em comunidade

Tanto a missa no Largo do Paiçandu quanto o culto no Butantã não funcionam apenas como celebração religiosa. Eles organizam um território simbólico. A cena observada no interior da igreja — a língua inglesa dominante, a presença constante de crianças, a circulação conjunta de homens e mulheres, a quase inexistência de brasileiros — corresponde a padrões descritos pelo pesquisador Flavio Luiz Landim, da Universidade de São Paulo, em artigo dedicado ao tema. “A convivência cotidiana dos nigerianos em São Paulo tende a se concentrar entre compatriotas ou outros africanos, com contatos limitados com a população brasileira fora do ambiente de trabalho”. A separação não aparece como conflito, mas como distância prática, construída no dia a dia.

A língua desempenha papel central nesse processo. Como muitos nigerianos dominam apenas o inglês como idioma oficial de origem, o português surge como barreira. O artigo observa que “o uso contínuo do inglês, inclusive em espaços religiosos, funciona como mecanismo de preservação identitária e, ao mesmo tempo, como fator de isolamento social”. A missa em inglês, portanto, não é exceção litúrgica, mas expressão de uma dinâmica mais ampla. As crianças aparecem como elo. Elas circulam com naturalidade entre os adultos durante os cultos, frequentam escolas brasileiras e tendem a adquirir o português com maior rapidez. Ainda assim, o estudo aponta que “a socialização das crianças também ocorre majoritariamente dentro de redes africanas, especialmente nos fins de semana e em atividades religiosas”. A igreja atua como espaço de transmissão cultural entre gerações.

A força da geopolítica

A escalada discursiva em torno da Nigéria não surgiu isolada. Para além do impacto imediato das declarações de Trump, o episódio foi interpretado por analistas como parte de um reposicionamento mais amplo da política externa norte-americana, especialmente no campo da liberdade religiosa. Ana Paula Henkel, especialista em política externa e colunista de Oeste, entende que a declaração de Trump cumpre duas funções simultâneas. “Sinaliza uma postura firme no campo internacional e também uma indicação de retomada mais ativa dos norte-americanos na defesa da liberdade religiosa”, afirma. Para ela, não se trata de um gesto simbólico nem de retórica isolada, mas de um enquadramento político deliberado. Ana Paula observa que a ênfase de Trump nos cristãos perseguidos não pode ser dissociada do contexto interno dos EUA. 

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Foto: Reprodução/Flickr
A postura de Trump sobre a Nigéria sinaliza uma retomada ativa dos Estados Unidos na defesa internacional da liberdade religiosa e marca um novo posicionamento externo | Foto: Reprodução/Flickr

A jornalista recorda a polêmica levantada por um relatório da Câmara dos Deputados dos EUA, que acusou o governo de Joe Biden de ter usado o FBI para monitorar cristãos. Um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X passou a ser alvo de uma “avaliação investigativa formal” depois de se recusar a romper o sigilo da confissão. Para os parlamentares, o episódio representa violação direta da liberdade religiosa e reforça a percepção de que, nos EUA, o tema deixou de ser apenas humanitário e passou a integrar o debate político. Em sua leitura, a reação de Trump “sinaliza a postura firme e a defesa da liberdade religiosa, principalmente a defesa dos cristãos, que têm sido esquecidos por muitos governos no mundo”. Ana Paula conclui: “As pessoas usam tanto a palavra ‘genocídio’ de maneira errônea, isso sim é um genocídio”.

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1 comentário
  1. Cícero Ruggiero
    Cícero Ruggiero

    Se a Nigeria tiver petróleo ou terras raras, Trump deve ajudar, mas esse petróleo e as terras raras tem que estar onde os cristãos vivem, caso contrário, Trump ficará do lado dos islamitas. Sinto muito.

O ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em registro institucional | Foto: Montagem Revista Oeste Anterior:
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