Na sexta-feira, 5 de dezembro, a Netflix anunciou que estava negociando a compra do pacote Warner Brothers/HBO/HBO Max por US$ 72 milhões. Na segunda-feira seguinte, a Paramount anunciou que cobriria a oferta com o apoio de um grupo de investidores do Oriente Médio. O valor da compra pela Paramount subiria para US$ 82,7 bilhões.
No atual panorama, a Netflix parece muito mais sólida para vencer a concorrência: a empresa do tudum tem um valor de mercado de US$ 400 bilhões. A Paramount vale US$ 15 bilhões. E acabou de perder o homem com o toque de Midas, o produtor/roteirista Taylor Sheridan (de Yellowstone, Lioness etc.) para a NBCUniversal.
Nesta quarta, 17, a Netflix aparentemente teve um final feliz. Pelo menos até agora. A Warner Bros recomendou aos seus acionistas que rejeitem a aquisição da empresa pela Paramount por conter lacunas, “brechas e limitações que colocam você, nossos acionistas, e nossa empresa em risco”. Com o anúncio, as ações da Paramount caíram mais de 4%.
Não é apenas uma questão comercial entre gigantes da mídia. Essa movimentação tem profundos significados na guerra cultural em que o mundo está envolvido. Nada é simples como pode parecer. A Netflix é considerada uma empresa “progressista”, profundamente marcada pela ideologia woke. Teoricamente, pessoas de esquerda deveriam apoiar sua expansão, certo?
Errado. “As preocupações com a concorrência são profundas”, declarou o advogado David Balto, ligado ao Partido Democrata, ao Los Angeles Times. “Isso enfrentará muita oposição no Departamento de Justiça. O que mantém a Netflix honesta é saber que existe uma HBO Max logo atrás. Mas, uma vez que se livrem disso, poderão levar uma vida fácil, e a necessidade de reduzir preços, fornecer melhores serviços ou licitar agressivamente por conteúdo cinematográfico, tudo isso diminuirá.”

Contra e a favor
Entre os opositores da compra da Warner pela Netflix estão alguns dos mais radicais políticos de esquerda do Partido Democrata — como os senadores Elizabeth Warren e Bernard Sanders.
Já entre os apoiadores da fusão está o republicano Scott Fitzgerald, supostamente “de direita”. “Quase 50% dos consumidores de streaming afirmam que a quantidade excessiva de serviços torna cada vez mais difícil encontrar o conteúdo que desejam assistir”, escreveu Fitzgerald para o Wall Street Journal. “Famílias que antes comemoravam o fim da assinatura da TV a cabo agora enfrentam custos mensais crescentes apenas para acessar assinaturas sobrepostas e catálogos inconsistentes. É por isso que a consolidação é benéfica. Quando serviços de streaming — como Netflix e HBO Max, da Warner — se unem, eles compartilham seus catálogos de conteúdo, eliminam despesas redundantes e criam um modelo de negócios mais estável que beneficia tanto os espectadores quanto as empresas. Os consumidores têm mais opções pagando por menos assinaturas, e as empresas operam com mais eficiência. É uma situação vantajosa para todos.”
E se a Netflix comprar mesmo a Warner e resolver fazer novas e “definitivas” versões de seus clássicos?
Mas a situação não envolve apenas um movimento de mercado. Estão em jogo visões de mundo diferentes. A Netflix tem uma maneira de operar muito característica — falamos sobre isso na coluna da edição 288 da Revista Oeste. A empresa produz os filmes e as séries mais superficiais e é a mais comprometida com políticas woke (ao lado da Disney). Além disso, é um streaming sem memória. A história do cinema e das séries para a Netflix começou lá por 2010. Daí para trás, parece que nada foi produzido.

O tesouro cultural da Warner
Se a Netflix comprar a Warner, teremos um choque de perspectivas, pois a companhia tem uma das histórias mais gloriosas de Hollywood, repleta de grandes clássicos: Casablanca (1942), Um Bonde Chamado Desejo (1951), Rastros de Ódio (1956), Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), Laranja Mecânica (1971), O Exorcista (1973), O Iluminado (1980), Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982), Batman (1989), Os Bons Companheiros (1990), Os Imperdoáveis (1992), Um Sonho de Liberdade (1994), Matrix (1999), a trilogia O Senhor dos Anéis, os filmes da saga Harry Potter, as séries Friends e Game of Thrones.
O que a Netflix poderá fazer com esse tesouro cultural? Como a empresa dos filmes cheios de clichês que a gente esquece depois de dez minutos vai lidar com a monumental tradição da Warner?
Os filmes estão prontos e nada vai poder mudá-los? Lembre-se de que a própria Warner sumiu com seus desenhos animados (de Pernalonga, Patolino etc.), hoje considerados machistas, violentos e racistas demais para permanecerem disponíveis às indefesas crianças do mundo. A Disney estraçalhou o clássico Branca de Neve, estrelado pela atriz militante Rachel Zegler. Mas vamos pegar um exemplo mais atual. Que nem pertence ao acervo da Netflix, mas ao da Apple TV.

A nova Revolução dos Bichos
O (excelente) ator Andy Serkis passou 14 anos adaptando o clássico A Revolução dos Bichos, de George Orwell, para uma nova versão animada. O resultado foi descrito em detalhes pelo empreendedor Mario Nawfal na sua conta no Instagram:
“Napoleão — o alter ego de Stalin em Orwell — é rebaixado a antagonista coadjuvante dublado por Seth Rogen. O novo vilão dirige uma réplica da Cybertruck. Os produtores alegam que a semelhança com Elon Musk é ‘não intencional’. Claro. Então, Serkis reescreveu o final. O original de Orwell: os porcos se tornam indistinguíveis dos humanos, a revolução é traída, o totalitarismo vence. A versão dele: os animais derrubam os porcos e planejam um ‘futuro melhor’. Explicação do diretor: ‘Queríamos alguma esperança’.
Eis o problema: A Revolução dos Bichos não era sobre capitalismo. Orwell o escreveu como uma alegoria direta da Rússia Soviética — como os ideais revolucionários são corrompidos por autoritários sedentos de poder. Os porcos SÃO os comunistas. Essa é a questão principal. Hollywood simplesmente inverteu a mensagem. Pegou o alerta de um socialista sobre o socialismo se tornar tirania e o transformou em ‘corporações são más’. Adicionou um vilão capitalista externo para que a corrupção interna dos animais — a verdadeira história — se tornasse secundária… Orwell passou a vida alertando sobre o totalitarismo vindo da esquerda. Agora Seth Rogen dubla Napoleão como se fosse uma comédia, enquanto os verdadeiros vilões são os bilionários da tecnologia.”
Agora pense no seu filho assistindo a essa nova versão de Revolução dos Bichos. Qual a chance de ele ler o livro de George Orwell e procurar entender o contexto da época? Muito provavelmente, essa versão 2025 vai ser a definitiva. Até que surja outra, talvez ainda pior.
Os clássicos, versão Netflix
E se a Netflix comprar mesmo a Warner e resolver fazer novas e “definitivas” versões de seus clássicos? Podemos imaginar algumas sinopses que veremos na telinha entre um tudum e outro.
Casablanca (2026)
Numa cidade que está sendo dominada por uma grande corporação, o divertido Rick (Eddie Murphy) é o dono de um bar badalado chamado Casablanca. Sua ex-amante Ilsa (Jennifer Lopez) aparece no bar com seu marido Victor (Leonardo Di Caprio), que luta para transformar a cidade num parque destinado a aliviar os efeitos das mudanças climáticas. O dono da corporação, Heinrich (Christoph Waltz), um fabricante bilionário de carros elétricos e naves espaciais, consegue expulsar Victor da cidade. Ilsa deve se decidir entre ficar com o ex-amante divertido lutando contra a corporação ou seguir o marido idealista na próxima reunião da COP.
O Iluminado (2026)
Jack Torrance (Bill Skarsgard) é o autor de um podcast de extrema direita e resolve passar um tempo num hotel abandonado com sua mulher Maria (Ana de Armas) e seu filho Danny (Miles Ekhardt). Enquanto produz seu podcast, Jack descobre que o filho está num processo de transição de gênero e enlouquece, tentando matar Danny. Maria, que apoia o filho, decide defender Danny dos ataques do pai, usando as aulas de Muay Thai que aprendeu num seminário de empoderamento feminino.
O Exorcista (2026)
Chris (Jennifer Aniston) é uma atriz de séries infantis e descobre que sua filha Regan (Sophia Lillis) aparentemente sofre de possessão demoníaca. Chris chama o padre Damien (William Dafoe) para exorcizar Regan. Durante o ritual, o suposto demônio, Pazuzu, revela que é apenas o espírito de um nativo americano atormentado por padres e freiras no século 18. E que o padre Damien é a verdadeira encarnação do mal, um cristão beneficiário do privilégio branco estrutural.
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O fato é que os grandes estúdios de Hollywood, do alto de sua arrogância, menosprezaram empresas que viviam de suas sobras e migalhas ( vamos lembrar que a Netflix começou como locadora de filmes VHS dos grandes estúdios de Hollywood), e não acompanharam a evolução do público consumidor e as preferencias das novas gerações . Não adianta chorar o leite derramado. Too late!
Cada vez me assusta mais e mais como valores, caraters e éticas mudam e se transformam conforme a vontade e o prazer dos que se acham Donos do Poder!! A história vai provando isso conforme o tempo caminha!!
Excelente artigo.
E assim caminha a humanidade, resignificando suas histórias conforme os interesses dos “porcos” de plantão.
Parabéns pelo artigo.
Há mais ou menos um mês cancelei minha assinatura da Netflix, justamente por não aguentar mais esse progressismo irritante em quase todas as produções.
Espero que a Netflix não consiga efetivar a compra da Warner. Mas caso consiga, será mais uma derrota para o consumidor.