Três coisas nem é preciso dizer: primeiro, que confundir uma metáfora com a realidade factual tende a levar ao desastre; segundo, que traficantes de drogas não merecem qualquer simpatia; terceiro, que menos ainda se deve ter simpatia pelo regime de Nicolás Maduro.
A tentativa de reprimir o tráfico internacional de drogas não é uma guerra de espécie alguma, exceto de forma vaga e metafórica, assim como a tentativa de controlar a tuberculose ou a violência de torcidas de futebol não é uma guerra. Existem, é claro, gangues violentas que controlam, ou tentam controlar, o tráfico de drogas, mas chamar o esforço para eliminá-las de guerra é dignificá-las além do merecido e lhes conferir um status que não têm, ou não deveriam ter. Eles são simplesmente criminosos organizados, e nada mais, e é improvável que sejam eliminados de uma vez por todas, pelo menos enquanto houver demanda por drogas ilícitas. Não há guerra contra o roubo; há apenas tentativas de preveni-lo e de puni-lo onde ocorre. A própria palavra “guerra” justifica métodos que não seriam justificados em outras circunstâncias.
Não creio que precise explicar minha falta de simpatia por traficantes de drogas, ainda que, de tempos em tempos, na prisão onde trabalhei, eu tenha conhecido alguns que eram pessoalmente agradáveis e de quem, se tivessem escolhido uma forma diferente de ganhar a vida, talvez eu tivesse gostado. É claro que talvez não tivessem sido tão agradáveis se eu tivesse atrapalhado seus negócios.

Quanto ao regime do Sr. Maduro, não quero me gabar de quaisquer poderes excepcionais de clarividência, mas percebi cedo o desastre ao qual aquele demagogo odioso, eloquente e inescrupuloso, Hugo Chávez, provavelmente levaria seu país. A ocasião para minha previsão foi uma resenha de um estudo sobre Chávez, In the Shadow of the Liberator: The Impact of Hugo Chavez on Venezuela and Latin America (“À Sombra do Libertador: o Impacto de Hugo Chávez na Venezuela e na América Latina”), publicado em 2001 pelo veterano comentarista britânico de esquerda, Richard Gott, que me foi enviado por uma publicação para a qual eu costumava escrever resenhas de livros. Gott argumentou que “este experimento único poderia representar um novo caminho para a América Latina”.
Esquerdistas britânicos de classe alta têm, de fato, um histórico notável de prever futuros brilhantes para países com regimes socialistas catastróficos: o africanista Basil Davidson chegou a apontar a Guiné-Bissau como um potencial farol socialista para toda a humanidade. O criador de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle, acreditava em fadas, mas essa crença tinha um fundamento mais sólido do que a de um futuro socialista brilhante para a Guiné-Bissau.
Chegamos agora às espinhosas questões acerca da explosão de barcos em alto-mar, que supostamente transportavam drogas ilícitas da Venezuela para os Estados Unidos; da eliminação dos sobreviventes ao primeiro ataque aos barcos; e de uma possível ação militar americana contra a Venezuela.

As justificativas apresentadas pela administração americana para suas ações, passadas e futuras, são obscuras, mutáveis e inconsistentes, o que denota um certo desconforto. Ela afirma estar em estado de guerra contra o que chama de narcoterroristas, como se o simples apêndice da palavra “terrorista” a um grupo de pessoas justificasse sua execução extrajudicial. Diz, entre outras coisas, que os chamados narcoterroristas pretendem matar um número incalculável de americanos, mas isso não é estritamente verdade.
Traficantes de drogas não querem matar sua clientela, mesmo que estejam propensos a matar uns aos outros na luta por território, e mesmo que não entrem em luto profundo se parte de sua clientela morrer consumindo drogas. Eles querem que sua clientela continue a consumir drogas: um viciado em drogas morto não lhes serve para nada. Os principais responsáveis pela morte de viciados em drogas são os próprios viciados.

A Venezuela é, em todo caso (se a informação publicamente disponível estiver correta), não um fornecedor principal de drogas aos americanos, nem uma rota de entrada de drogas nos Estados Unidos. O México tem essa duvidosa honra; mas propor um ataque total ao México é muito diferente de propor o mesmo tipo de ataque à Venezuela, que é um alvo fácil.
A destruição dos barcos pela imensa força naval enviada pelos Estados Unidos, mesmo que se aceite sem contestação que esses barcos tenham sido pegos em flagrante por tráfico de drogas, gera um dilema cujas vertentes são igualmente danosas ao prestígio dos Estados Unidos.
Impotente diante da Rússia e da China, o Sr. Trump precisa ser visto como forte e poderoso em outro lugar do mundo, e uma guerra curta e vitoriosa nunca cai mal junto ao público.
Se os EUA estão genuinamente em estado de guerra, ter matado sobreviventes de um ataque a um alvo legítimo é, quase sem dúvidas, um crime de guerra. Dizer que os dois homens sobreviventes no casco flutuante de um barco que havia sido destruído e cuja tripulação restante havia sido morta estavam continuando suas atividades ilegais em vez de simplesmente tentar salvar suas próprias vidas é simplesmente descabido: nenhuma pessoa sensata poderia acreditar nisso. Quem deu as ordens para matar os dois homens, e quem especificamente executou essas ordens, ainda não está claro, mas que alguém, ou algumas pessoas, cometeram um crime de guerra é evidente — isto é, se os Estados Unidos estivessem realmente em guerra.

Se, por outro lado, a marinha estivesse apenas tentando impedir que um crime fosse cometido (um crime que, incidentalmente, não é considerado capital nem mesmo pelos Estados Unidos), ela foi culpada de cometer assassinato extrajudicial, tipo de crime do qual os Estados Unidos acusam outros países, muitas vezes como pretexto para tomar medidas contra eles, ainda que em maior escala. E isso, por sua vez, não só minará o prestígio dos Estados Unidos em outros países, que usarão esses assassinatos retoricamente, argumentando tu quoque (“vocês fazem a mesma coisa”), mas também causará ou exacerbará sérias divisões dentro do próprio país. Prestígio e autoconfiança são importantes, embora seja impossível quantificar essa importância com exatidão.
Finalmente, o possível ataque à Venezuela. Creio ser provável que uma boa porcentagem da população o receba bem; sem dúvida, o regime de Maduro não merece sobreviver. Mas seria certamente melhor se fosse derrubado pelos venezuelanos, ainda que com ajuda clandestina da CIA. Regimes que chegam ao poder por imposição externa raramente desfrutam de apoio por muito tempo: o ideal seria que os venezuelanos pudessem se libertar, mesmo que tal autolibertação fosse (como no caso da França na Segunda Guerra Mundial) parcial ou até em grande parte ficcional. Depois, é claro, há o problema das forças armadas venezuelanas. Elas simplesmente obedeceriam a novos mestres, ou abandonariam seus uniformes, mas manteriam suas armas, precipitando assim um caos ainda mais completo e criando mais milhões de refugiados? Aqui sou menos lúcido do que fui em relação a Chávez em 2001.

Minha interpretação da intervenção americana na Venezuela, puramente especulativa e sem provas, admito, é a seguinte: tendo se mostrado completamente impotente diante da Rússia e da China, o Sr. Trump precisa ser visto como forte e poderoso em outro lugar do mundo, e uma guerra curta e vitoriosa nunca cai mal junto ao público. Ele então pareceria forte e tremendamente poderoso. Mas, como já vimos em outros lugares também, os americanos contemporâneos têm pouco gosto pela longa jornada: eles vão declarar vitória e voltar para casa, não importa a bagunça deixada para trás. Mas eu não sou Nostradamus, apesar de ter acertado, muito tempo atrás, sobre o legado de Hugo Chávez.
Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
Leia também “Reflexões em ritmo de tango”




Finalmente um artigo desta revista criticando Trump. Já não era sem tempo. Mas será que isso só aconteceu pela desilusão em relação ao beiçudo topetudo bronzeado do hemisfério norte , após a aproximação com os Ptralhas?
Pergunta!!
A intervenção do Partido Democrata de OBAMA/Clinton…por favor esqueça o Biden, pois não foi ele que governou…
USAID..foram por 4 ano…5 bilhões de reais só com o BOSTIL…
Para eleger um ladrãozinho e sua quadrilha!
Agora o TACO El pollo Trump…só quer se comprometer por 6 meses de sanções!?!
NÃO NÉ!!
Os USA tem a obrigação de corrigir sua atitude, se deixaram serem roubados nas suas eleições de Biden…NÃO TEM o Direito de exportar os métodos para nós…VOCÊS TEM a OBRIGAÇÃO de retirar e processar esses NARCOTERRORISTAS que O ESTADO norte americano, ajudaram a colocar no governo brasileiro…PONTO!
Bah! MAIS um Texto Sonso e cansativo E CANALHADA da velharia GLOBALISTA hipocrita europeia….
Essa tática de “embutir “ conceitos “jurídicos e humanos “ ao longo do texto…É de GENTE CANALHICE!
“”Os traficantes Não querem Matar seus CLIENTES…” É bem Típico da retórica, CAFAJESTES, INGLESA e europeia!
Gente nojenta esses socialistas comunista e fascistas .
Querem atrair os EUA para brigar com a Rússia…como fizeram na 2 grande guerra com a Alemanha…PATÉTICO!
“Não conseguiram vencer a Rússia e a China e agora querem descontar na Venezuela…”
Bem quinta série! Coisa de Moleque escondido atrás de doutorados e Teses rebuscadas da London Schooll …a mesma da pandemia…NOJO dessa gente da pandemia viu!
A mensagem REAL deste texto e aparentemente condenando o Ditadorzinho venezuelano…É o que eu mencionei acima…
…Não quer matar…MAS assumiu o risco de fazer assassinato envenenado uma população….mesmo conceito do cara que dirige em alta velocidade e ALCOOLIZADO…
É cada um que a OESTE está dando espaço viu…
Também achei esse texto bem canhotinho.