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Edição 300

O que a economia da inveja não consegue responder

A redistribuição forçada domina o discurso público sobre a desigualdade de riqueza, mas grande parte do debate ignora como as pessoas ganham, comercializam, inovam e criam valor

As objeções à desigualdade de renda são lugar-comum. Ouvimos opiniões sobre isso de todo o espectro ideológico, incluindo, por exemplo, o coletor de dados da extrema esquerda Thomas Piketty, o provocador da extrema direita Tucker Carlson e o Papa Leão XIV.

Nada é mais fácil — e, aparentemente, poucas coisas são tão emocionalmente gratificantes — do que esbravejar contra “os ricos”. A principal qualificação para proferir — e celebrar — denúncias de desigualdade de renda é a aritmética de primeira série: US$ 1 bilhão é uma soma de dinheiro maior do que US$ 10 mil, e assim subtrair alguns dólares da primeira soma e adicionar esses fundos à segunda soma tornará as rendas mais iguais. E, como a renda é o que as pessoas gastam para alcançar seu padrão de vida, tal “redistribuição” também resultaria em pessoas tornando-se mais iguais. O que poderia ser mais óbvio?

Inúmeros pesquisadores cuidadosos demonstraram de modo convincente que as narrativas populares sobre a magnitude das diferenças de renda monetária são amplamente exageradas. Vamos fazer uma concessão aqui, para fins de argumento, que as diferenças de renda monetária nos Estados Unidos sejam realmente amplas. E então, vamos fazer algumas perguntas incisivas aos defensores do uso do Estado para tributar e “redistribuir” altas rendas.

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  • Você ensina seus filhos a invejar o que outras crianças têm? Você encoraja seus filhos a formar gangues com seus colegas para “redistribuir” brinquedos de crianças mais ricas no pátio da escola para crianças menos ricas? Se não, por que você supõe que a inveja e a “redistribuição” se tornam aceitáveis quando realizadas em larga escala pelo governo?
  • Suponha que Jones escolha uma carreira como poeta. Jones valoriza o tempo que passa caminhando na floresta e passeando pelas ruas da cidade em reflexão tranquila. Suas reflexões o levam a compor poemas críticos ao materialismo capitalista. Trabalhando como poeta, Jones ganha US$ 40 mil anualmente. Smith escolhe a carreira de médica de pronto-socorro. Ela trabalha em média 60 horas semanais e raramente tira férias. Seu salário anual é de US$ 400 mil. Essa “distribuição” de renda é injusta? Smith é responsável pelo salário relativamente baixo de Jones? Smith deve dinheiro a Jones? Se sim, quanto? E qual fórmula você usaria para determinar a dívida de Smith com Jones? Em suma, qual é o valor “justo” pelo qual a renda de Smith deveria ser reduzida para aumentar a renda de Jones?
  • Enquanto a Dra. Smith ganha mais dinheiro que o poeta Jones, o poeta Jones ganha mais lazer que a Dra. Smith. Você acredita que o lazer tem valor para aqueles que o possuem? Se sim, você se sente incomodado pela desigualdade de lazer que separa o Jones rico em lazer da Smith pobre em lazer? Você defende políticas para “redistribuir” o lazer de Jones para Smith — digamos, forçando Jones a lavar a louça do jantar de Smith ou a levar e buscar Smith do trabalho? Se não, por que não?

Nas economias de mercado, mais riqueza para os ricos significa não menos, mas mais riqueza para outras pessoas.

  • O economista laureado com o Nobel, William Nordhaus, descobriu que inovadores empreendedores nos EUA, de 1948 a 2001, capturaram, em média, apenas 2,2% do valor social total de suas inovações tecnológicas. Como Nordhaus afirmou, quase 98% “dos benefícios da mudança tecnológica são repassados aos consumidores, e não capturados pelos produtores”. O fato de que a concorrência de mercado obriga os empreendedores a compartilhar a vasta maioria de sua criação de riqueza com os consumidores faz você hesitar em suas exigências de “redistribuir” a riqueza que esses empreendedores conseguem reter para si mesmos?
  • Pesquisas mostram que os americanos, em geral, não se incomodam tanto com a desigualdade de renda quanto acadêmicos e comentaristas da mídia. Será que os muitos americanos que não sofrem de uma inveja ardente das rendas monetárias alheias são estúpidos, ingênuos ou desinformados? Os professores e comentaristas que se angustiam incessantemente com a desigualdade de renda sabem algo que a maioria dos americanos não sabe? Se sim, o quê?
  • Você alega que grandes diferenças de renda são psicologicamente prejudiciais para pessoas relativamente pobres, mesmo que essas pessoas pobres sejam, pelos padrões históricos, bastante ricas. Como, então, você explica a grande demanda de imigrantes muito pobres para vir para a América, onde são relativamente muito mais pobres do que em suas terras natais?
  • Você acredita que alguém a quem o governo concede, digamos, US$ 100 mil anuais, ano após ano, simplesmente porque essa pessoa é cidadã do país, sente tanta satisfação psicológica quanto sentiria se aprendesse um ofício ou uma profissão em que ganhasse um salário anual de, digamos, US$ 80 mil?
Imagem: Anton Vierietin/Shutterstock
  • Você preferiria viver em uma sociedade onde a renda anual de todos é de US$ 50 mil ou em uma sociedade com uma renda anual média de US$ 75 mil, mas na qual as rendas anuais variam de US$ 30 mil a US$ 3 milhões, e em que nenhuma ocupação é obstruída por barreiras de entrada erguidas pelo governo? E, independentemente da escolha que você faria, você acha que outros que escolhem de forma diferente de você estão errados?
  • Você frequentemente fala da desigualdade de renda como sendo uma falha de mercado. Você pode identificar uma teoria econômica que preveja que toda economia de mercado bem-sucedida gere rendas iguais ou próximas da igualdade? Eu sou economista e nunca encontrei tal teoria, então ficaria encantado se você expandisse meus horizontes intelectuais.
  • Você também alerta que grandes diferenças de renda tornam a sociedade instável — ou, como Paul Krugman insiste, comprometem “toda a natureza de nossa sociedade”. Você pode indicar evidências históricas que corroborem essa afirmação? Mas lembre-se: para ser válida, a evidência deve vir de economias de mercado nas quais a grande maioria das pessoas — ricas e não ricas — obtém suas rendas por meio de atividades de mercado voluntárias e onde o tamanho do bolo econômico não é fixo.

Evidências de agitação social em sociedades pré-industriais e não mercantis não contam. Os arranjos econômicos em tais sociedades são fundamentalmente diferentes dos nossos. E, ao contrário da nossa economia de mercado, a quantidade de riqueza nas economias não mercantis é amplamente fixa. Portanto, nas economias não mercantis, mais riqueza para algumas pessoas significa, de fato, menos riqueza para outras. Nossa economia difere categoricamente: como a quantidade de riqueza nas economias de mercado não é fixa, as pessoas enriquecem criando mais riqueza, em vez de se apoderar da riqueza alheia. Nas economias de mercado, mais riqueza para os ricos significa não menos, mas mais riqueza para outras pessoas.

Você discorda de Thomas Sowell quando ele escreve que, “quando os políticos dizem ‘distribuir a riqueza’, traduza isso como ‘concentrar o poder'”,

  • Quando você descreve o aumento da desigualdade de renda nos Estados Unidos, você geralmente olha apenas para as rendas dos ricos antes de pagarem impostos e para as rendas dos pobres antes de receberem transferências não monetárias do governo, como vale-alimentação, Medicare e Medicaid. Você também ignora as transferências não monetárias que os pobres recebem de instituições de caridade privadas. Por quê? Se você está tentando determinar se mais “redistribuição” de renda é justificada, não faz mais sentido analisar as diferenças de renda depois que os ricos pagaram seus impostos e depois que os pobres receberam todos os seus benefícios de fontes governamentais e privadas?
  • Você considerou que uma maior desigualdade de renda pode resultar de mudanças demográficas que não refletem nem fraqueza nem injustiça na economia, nem quaisquer diferenças crescentes no bem-estar econômico? Por exemplo, você leva em conta o fato de que os aposentados dependem muito do consumo de seu capital — por exemplo, vendendo suas casas grandes e caras, mudando-se para casas menores e menos caras, e usando as diferenças nos valores de venda para financiar algumas de suas despesas de vida? As rendas anuais das pessoas são tipicamente mais baixas quando estão aposentadas do que quando estavam trabalhando, mas sua riqueza — sua capacidade de manter seu padrão de vida — não é necessariamente menor.
  • Você não se preocupa que a criação de poder governamental hoje para tirar de Smith e dar a Jones — simplesmente porque Smith tem mais riqueza material do que Jones — possa eventualmente ser abusada de modo que amanhã o governo tire de Jones e dê a Smith simplesmente porque Smith tem mais influência política do que Jones?
  • Você discorda de Thomas Sowell quando ele escreve que, “quando os políticos dizem ‘distribuir a riqueza’, traduza isso como ‘concentrar o poder'”, porque essa é a única maneira de distribuírem a riqueza. E uma vez que eles conseguem o poder concentrado, podem fazer o que quiserem, como as pessoas descobriram — muitas vezes para seu horror — em países ao redor do mundo”. Questionando-se de outra forma: se você se preocupa que os abusos de poder sejam encorajados por concentrações de renda, você não deveria se preocupar ainda mais que os abusos de poder sejam encorajados por concentrações de poder?

Donald J. Boudreaux é pesquisador associado sênior do American Institute for Economic Research e membro do Programa F. A. Hayek de Estudos Avançados de Filosofia, Política e Economia Centro Mercatus da Universidade George Mason. Ele também é membro do conselho do Centro Mercatus, além de professor de economia e ex-presidente do departamento de economia da Universidade George Mason. Ele é autor dos livros, The Essential Hayek e Globalization, Hypocrites and Half-Wits. Seus artigos são publicados em veículos como Wall Street Journal, New York Times, US News & World Report, bem como em diversos periódicos acadêmicos. Ele escreve um blog chamado Cafe Hayek e uma coluna regular sobre economia para o Pittsburgh Tribune-Review. Boudreaux é formado em Direito pela Universidade da Virgínia e Ph.D. em economia pela Universidade Auburn.

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4 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Um dos melhores artigos que já li nessa revista

  2. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Este artigo é uma aula sobre a economia. A turminha da bolha das colônias parasitas deveria ler o texto para entender que a dita distribuição de renda é falha. Com o tempo enfraquece a todos. Um artigo que não vamos encontrar na velha imprensa que se abastece com o dinheiro dos pagadores de impostos, que não vai para a infraestrutura, mas serve de propaganda para o governo mentir sobre o que não faz e calar sobre os grandes escândalos, como do INSS, que enriqueceu corruptos. Outro exemplo é banco Master. Um escândalo que chega às togas e ao “tirado da cadeia”. Há uma lei na economia que afirma que a economia não dá saltos. Se isso acontecer a uma pessoa é porque ganhou na loteria, ou herdou várias fazendas de um tio rico. O enriquecimento é um acúmulo cujo caminho correto é um só: o trabalho árduo. Muito trabalho. Trabalho com inteligência. Isso requer mérito pessoal. Infelizmente temos um governo que montou a mais voraz máquina estatal criando uma das mais altas cargas tributárias do mundo, sem o retorno correspondente. Pior ainda, uma gastança em ritmo progressivo abrindo um dos maiores rombos fiscais do mundo. Coitado do homem que assumir a presidência em 2027. Se corte de gastos e sem o trabalho corresponde não há superavit.

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Melhor artigo desta edição da Revista Oeste. Sensacional,o trabalho honesto e mérito na sua profissão é o que define sua renda.Se você controi um prédio que cai na primeira chuva forte,não vai ser chamado na empresa para construir outro.A vida é feita de conhecimento, assim como sua profissão, isso exige trabalho duro,esforço e competência.

  4. Mary Rodrigues De Oliveira Rios
    Mary Rodrigues De Oliveira Rios

    Independente de politica, sempre que o mundo foi mundo existiram e existirão patrões e empregados, pobres e ricos, é assim que funciona e nunca isso vai mudar…

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