A História do Mundo pode ser em parte medida por corridas entre grandes potências. O Império Romano disputou com Cartago no século 3 a.C. o controle do mar Mediterrâneo. No século 9 d.C., europeus e islâmicos brigaram pelo domínio da chamada Terra Santa nas Cruzadas.
Nos séculos 15 e 16, potências europeias disputaram a conquista de novos territórios no continente americano. A partir de 1947, a corrida foi pela capacidade de destruição mútua com armas nucleares, na Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Neste século 21, há uma nova corrida, que não envolve caravelas, cavaleiros em armaduras ou mísseis. É o que a revista TechLife News chamou de “a Guerra Fria das IAs”.

A briga, quase invisível, acontece especialmente entre os EUA e a China. Segundo a revista, “essa rivalidade concentra-se no controle da infraestrutura computacional, recursos de dados, desenvolvimento de modelos de IA e implantação de robótica. Relatórios recentes indicam que uma vantagem decisiva poderá surgir dentro de cinco anos, com potencial para alterar os equilíbrios econômicos e militares globais”.
Os movimentos dessa nova guerra são discretos. Os americanos regulam a exportação de semicondutores aos chineses, que gastam o equivalente a US$ 100 bilhões por ano em fundos estatais para financiamento de chips e bancos de dados que deverão integrar aplicações comerciais e militares em 2030. Os EUA respondem com US$ 52 bilhões para a fabricação de semicondutores.
Como em uma guerra fria convencional, as alianças valem muito. Os EUA contam com a alta tecnologia do Japão e de Taiwan. A China expande sua influência por meio da chamada Belt and Road Initiative e fornece infraestrutura de IA a mais de 100 países.
A corrida pelo avanço da tecnologia de IA ocorre em campos semelhantes: semicondutores cada vez mais microscópicos, processamento em altíssima velocidade, segurança na proteção de dados e eficiência energética. Esse último fator é crucial — os data centers, que mantêm os modelos de inteligência artificial se expandindo, já consomem 1% da eletricidade global.
14 viagens ao Sol
Nessa corrida pela supremacia tecnológica, novas barreiras são quebradas. A capacidade de armazenamento não se mede mais por terabyte (o equivalente a um milhão de megabytes). A nova medida é o zettabyte — o equivalente a um bilhão de terabytes. Como medir essa capacidade de armazenamento?

Os mais antigos lembram do disquete de 1,44 megabytes que guardava nossos dados mais importantes durante a popularização dos computadores nos anos 1990. Pois bem. Um único zettabyte equivale a 694 trilhões daqueles disquetezinhos. Se empilhados, cobririam 14 vezes a distância entre a Terra e o Sol.
Como esse dilúvio de informações precisa viajar de um ponto a outro do sistema, já não se fala mais no modelo 5G, que usamos hoje no celular. As potências da IA agora medem a transmissão de dados em 6G. Satélites serão usados como pontos de armazenamento girando no espaço.
Mudanças na área de robótica vão provocar um terremoto no mercado de trabalho.
Essa imensa capacidade de guardar informações precisa de data centers, e os EUA possuem 5 mil deles. Para evitar disrupções, as redes de alimentação de energia precisam atuar de forma redundante — se uma falhar, outra a substitui automaticamente. A China opera com sistemas mais baratos, como o hidráulico, que atende a metade de suas capacidades de energia. Mas dependem mais de componentes importados. E seus backups ainda estão literalmente na era do carvão. Os EUA funcionam mais à base de energia nuclear. Resumindo: os americanos estão mais adiantados em uso da IA em defesa, e a China, em aplicações financeiras.
A grande colheita de dados
Outro aspecto dessa corrida envolve questões éticas e políticas. O crescimento dos modelos de inteligência artificial depende em boa parte do volume de dados coletados. Os Estados Unidos recolhem essas informações de fontes abertas e públicas, e são limitados por mecanismos como o General Data Protection Regulation (GDPR), ou “Regulação Geral de Proteção de Dados”.
O regime chinês não está preso a esse tipo de regulamento. A ditadura comunista colhe os dados de nada menos que 1,4 bilhão de chineses que usam o super aplicativo WeChat para inúmeras funções — como sistema financeiro e comunicação. Isso gera uma “colheita” equivalente a nada menos que 50 zettabytes de aplicativos usados pelos cidadãos comuns. Com as limitações legais, os EUA processam cinco vezes menos dados que os chineses.

Mas quantidade não é qualidade. Os EUA estão na vanguarda das pesquisas e, segundo o AI Index, produzem 40% mais modelos de vanguarda do que os chineses, em áreas como pesquisa farmacêutica. A paridade entre os dois países, no entanto, pode não demorar. Por enquanto, as vantagens refletem o modelo econômico e cultural de cada país. Os EUA são melhores que os chineses em modelos de IA que envolvem as indústrias mais criativas. Os chineses são mais avançados em manufatura.
290 mil robôs
Um dos mais importantes campos de batalha nessa guerra fria é o terreno da robótica. E a China está muito à frente nessa corrida em especial. Os chineses instalaram 290 mil robôs para uso industrial no ano que está começando. É mais do que a soma de todos os robôs instalados pelos EUA, União Europeia e Japão.
A utilização desses robôs está voltada especialmente para a montagem de componentes eletrônicos e a indústria automobilística. Os chineses também miram o uso militar. Os EUA ainda estão na marca dos 50 mil robôs, mais voltados para aplicações em saúde, assim como uso militar de precisão.

Segundo a matéria da TechLife News, essas mudanças na área de robótica vão provocar um terremoto no mercado de trabalho. O PIB global poderá crescer nada menos que US$ 15,7 trilhões. O que, de certa forma, confirma o conceito levantado pelo empresário Elon Musk de que essa revolução de alta tecnologia gera riqueza em si.
Levantamento em dez fontes especializadas (feito pela IA Perplexity) mostra que os EUA, fundamentados em empresas como OpenAI, Anthropic e Google, “dominam pesquisas de ponta em IA generativa e aprendizado profundo. O país atrai 68% dos principais pesquisadores de IA globalmente e mantém superioridade em benchmarks, como 84,2% no MMLU contra 79,6% da China”. MMLU (Entendimento Massivo de Linguagem Multitarefa) é o critério que se usa para avaliar os grandes modelos de linguagem. Mas os números mostram claramente que a corrida é apertada.
A combinação de IA com robótica deverá desempregar 85 milhões de trabalhadores, segundo cálculos da consultoria PricewaterhouseCoopers. Por outro lado, a necessidade de lidar com a nova tecnologia pode ficar no lucro, criando 97 milhões de novos empregos.
Para isso, é essencial preparar as populações para essa nova era. São necessárias políticas públicas e privadas de foco nessa revolução. O Brasil? Permanece fora de foco.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
Leia também “Uma vida sem trabalho”




Excelente artigo Dagomir, a guerra fria da IA. Mas quero te parabenizar principalmente pelo programa Oeste Cultura, sensacional.Amo Cultura e cinema. Oeste acertando novamente.
Material sucinto e de caráter informacional mediano, mas adequado ao público.
Vou dar algo mais elaborado, mas não “mastigado “ para os mais sagazes pensarem….
Monocultura X Policultura
Quem foi as que mais “venceram “ no mundo!?!
A MONOcultural saia na frente…mas…morria por esgotamento do modelo em 5 anos.
1 bilhão de chineses/asiáticos….não é e nunca serão a mesma coisa que 400 milhões de norte americanos e suas variantes riquíssimas populacionais para TREINAR modelos de IA .
Entenderam agora do porquê da batalha do TikTok!?!?
É por isso que eu simplesmente ADORO a sagacidade inglesas/holandesa/ judaica.
Terras Raras foi um golpe de mestre do DeepState dos EUA, dada a fragilidade político econômica que o BOSTIL se coloca por insistir num esquerdismo falido e nojento desde 1924. E mantido por um exército, nojento também, desde 1989….
Poderíamos ter negociado esse trunfo Terras Raras/Itaipu minas de ouro…por uma parceria mais amplas visando nos inserir nesse bonde que transformar TODO o mundo nos próximos 10 anos….começando pela indústria 4.0.
Mas resolvemos salvar golpistas, fraudadores de processos eleitorais e corruptos. Entregando de mão beijado e quase de graça..poder de negociação…recursos naturais estratégicos.
Perdemos o bonde da civilização novamente…obrigado Lula…obrigado stf faccionados…por deixarem nossas vidas piores.
Aaahhhhh…ia esquecendo!
O urânio é fundamental para a IA viu…..não existe energia mais limpa, barata e segura do que pequenas centrais nucleares…viu!?
Podem espernearem, dar xiliques, botes com o bumbum…mas energia nuclear geradas por pequenos e otimizados reatores, para atender grandes polos consumidores de eletricidade …É o Futuro da IA e da economia.
Liberando hidreléctricas e redes de distribuição para outros e dispersos fins.
Excelente matéria. Grato.
Eu que agradeço sua atenção, Eldo!