Em Oslo, a filha de María Corina, Ana Sosa, recebeu o Nobel da Paz no lugar da mãe, no mesmo dia em que a líder opositora desembarcou na capital norueguesa para participar de agendas oficiais. Longe dali, a realidade venezuelana continua marcada por perseguições, prisões políticas e exílios. Entre os que foram obrigados a deixar o país está Pedro Urruchurtu, um dos coordenadores políticos mais próximos de María Corina, que passou mais de um ano refugiado na embaixada da Argentina em Caracas antes de conseguir escapar com outros aliados.
Nos últimos meses, Urruchurtu tornou-se uma das vozes mais ativas do movimento que contesta a permanência do ditador Nicolás Maduro no poder. Exilado, ele acompanha a escalada internacional que envolve alertas dos Estados Unidos, sanções ampliadas e a reconfiguração do apoio regional ao regime venezuelano. Foi também ele quem participou diretamente da estratégia eleitoral que colocou María Corina e seu grupo no centro da disputa política que o chavismo tentou sufocar.
O dirigente relata que passou 465 dias isolado, sob interrupções de água, luz e alimentação, e que o regime preparava uma operação clandestina para capturá-lo. Sua fuga, mantida em sigilo até depois de sua chegada ao exterior, revelou a deterioração interna das forças de segurança e expôs fissuras dentro do próprio chavismo. Hoje, com o Nobel dado à líder opositora e com a pressão internacional crescente, Urruchurtu acredita que o regime atravessa seu momento mais frágil em décadas.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que significa o Nobel da Paz para María Corina Machado?
Uma reivindicação moral para o nosso país e um ato de justiça depois de tanto sofrimento. A reação foi de alegria contida, porque além de não esperarmos essa honraria, muitos têm medo de se manifestar publicamente. Vejo o prêmio como um estímulo para a última etapa da luta pela liberdade. O Nobel reafirma nossa capacidade e responsabilidade. Sem liberdade e justiça, não há paz. Trata-se de um reconhecimento e um compromisso, o mesmo que tivemos ao escapar da embaixada da Argentina, que fica em Caracas. Um dos nossos lemas é: continuar e não se render.

Durante a operação de saída da representação diplomática, você passou mais de 400 dias refugiado. Como foi esse período?
Quando alguém pede asilo numa embaixada, o faz por entender que seja segura. Mas, a partir de agosto de 2024, isso mudou, em virtude de a ditadura de Maduro estar disposta a qualquer coisa. Foram 14 meses extremamente difíceis para nós. Apesar de tudo, sabíamos que tínhamos de resistir, seguir adiante e continuar trabalhando. Paradoxalmente, mesmo sob ameaça, conseguimos atuar na campanha eleitoral de Edmundo González e María Corina. Os últimos cinco meses foram os mais drásticos: sem eletricidade, água e comida restrita. A ditadura buscava nos desgastar de todas as formas para justificar uma rendição. Estávamos dispostos a morrer antes de nos entregar. Não podíamos trair um mandato nem uma causa. Depois soubemos que planejaram cavar um túnel para nos sequestrar, sumir conosco e alegar ao mundo que fugimos. Isso mostra a natureza criminosa do que nós enfrentávamos.
Como foi essa operação?
Tivemos de escolher entre o risco real de morrer dentro da embaixada e o risco menor de tentar escapar. Optamos pela fuga. O regime jamais imaginou que conseguiríamos sair diante de seus olhos. Não posso dar muitos detalhes, mas afirmo que a ditadura não percebeu que há pessoas dentro de sua própria estrutura dispostas a colaborar com a causa democrática. Em setembro, quando pressionaram o presidente eleito a se exilar em Madri, o regime cercou a embaixada para transmitir a mensagem de que nenhum lugar seria seguro. A casa ao lado foi transformada em um comando policial, o que tornava praticamente impossível sair sem ser detectado. Ainda assim, conseguimos executar a operação. Eles só descobriram nossa saída dias depois e não entenderam.
“É uma ameaça hemisférica, porque não é apenas política — envolve atores ligados ao crime.”
O regime deseja uma transição? Como a ditadura está reagindo ao cerco diplomático e às medidas dos EUA?
Depende deles. Restam poucas chances e o tempo está se esgotando. Chegamos a essa situação extrema porque o regime quis. Teve inúmeras oportunidades de entregar o poder e começar uma transição, mas recusou todas. O que vivemos hoje é consequência direta das decisões do regime. A ditadura é uma estrutura mafiosa que se mantém através de equilíbrios internos entre grupos criminosos. O que vimos nas últimas horas é um regime fortemente pressionado. A obtenção das atas de votação em 28 de julho, do Conselho Nacional Eleitoral, revelou fragilidades profundas. Maduro sabe disso.
Há alguns dias, o Departamento de Estado dos EUA ordenou que cidadãos americanos deixem a Venezuela imediatamente. Esse movimento pode evoluir para algum tipo de intervenção militar?
Os alertas não são novidade. Nos últimos anos, os EUA têm emitido avisos constantes porque o regime pratica uma diplomacia de reféns, sequestra estrangeiros e representa um risco permanente. Além disso, há uma decisão de segurança nacional norte-americana: desmantelar os cartéis do narcotráfico no Caribe. Vemos designações de organizações terroristas, sanções financeiras e outras medidas. O tema deixou de ser político. É criminal. O cerco militar é apenas parte de uma combinação de pressões que inclui ações financeiras e o corte dos fluxos ilícitos que sustentam o regime. Isso o enfraquece, o fragmenta e reduz sua capacidade de repressão. Há uma escalada que pode levar a uma transição. Os venezuelanos já escolheram a mudança em 28 de julho de 2024. Não vamos nos conformar com menos que liberdade para o nosso povo e nossa nação.
Qual é hoje o maior obstáculo para manter a coordenação política dentro da Venezuela, sob vigilância e repressão constantes?
O terrorismo de Estado. O regime implantou um sistema extremo de medo. Ainda assim, a organização continua, de forma clandestina, discreta, mas muito viva. Os venezuelanos aprenderam a resistir e estão determinados a ser livres. Estão prontos para responder quando as condições estiverem dadas.
Como o senhor avalia a postura do governo Lula diante do regime? A posição brasileira isola Maduro ou, na prática, o protege?
Houve momentos distintos. O veto à entrada da Venezuela nos Brics foi significativo. Também houve tentativas de viabilizar salvo-condutos, embora nada tenha sido concluído. Mas depois Brasil, Colômbia e México reduziram a pressão num momento decisivo. Quando surgiram as atas incontestáveis das eleições, o Brasil deu mais peso à dúvida do que à evidência. A presença da embaixadora brasileira na posse ilegítima de Maduro, em 10 de janeiro, mostra essa ambiguidade. Há desconforto com Maduro, mas não há ruptura. Isso põe o Brasil numa linha cinzenta perigosa. Mesmo se quisesse oferecer uma saída ao regime, deveria ser, justamente, a saída, não sua estabilização. Estamos falando de violações graves de direitos humanos na Venezuela. Não se pode relativizar isso.

O Foro de São Paulo abandonou Maduro? Ou continua apoiando-o de forma menos explícita?
O Foro continua existindo e articulando-se, agora com a ajuda do Grupo de Puebla e pela Internacional Progressista. É uma ameaça hemisférica, porque não é apenas política — envolve atores ligados ao crime. A esquerda sensata, sim, se afastou. Maduro ficou tóxico. Não se pode apoiar um governo que tem mil presos políticos, cem estrangeiros sequestrados e pratica tortura sistemática. Mas ainda há muitos que, infelizmente, seguem o apoiando.
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