Há uma pergunta que precisa ser feita a essas quatro nações que se retiraram ostensivamente do Eurovision por causa da inclusão de Israel: por que estavam felizes em participar em 2003? O festejo extravagante daquele ano ocorreu em 24 de maio, dois meses depois de a Grã-Bretanha invadir o Iraque. Apenas nove semanas depois de o Reino Unido ter alinhado o seu poderio militar ao dos EUA e travado uma guerra ilegal e injustificada contra um Estado soberano, o que causaria a morte de dezenas de milhares de inocentes. No entanto, lá estavam vocês, Irlanda, Espanha, Eslovênia e Países Baixos, todos alegremente dançando ao som da apresentação medíocre da Grã-Bretanha — com Cry Baby, da banda pop Jemini.
Vamos subir a aposta. Por que estavam felizes em participar em 2006? As forças britânicas ainda estavam no Iraque, como parte do que a ONU havia condenado como uma guerra ilegal. Em 2006, o verdadeiro horror da empreitada no Iraque já era amplamente conhecido. Cem mil mortes. Islamistas assassinos haviam ocupado o vácuo deixado pela derrubada do regime baathista pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos. Em 2006, quase 100 pessoas morriam de violência extrema no Iraque todos os dias. No entanto, lá estavam vocês, Irlanda, Espanha, Eslovênia e Países Baixos, todos cantando com a apresentação horrenda do Reino Unido — com Teenage Life, do rapper Daz Sampson.
Essa pergunta precisa ser feita a cada pessoa que está gritando por um boicote ao Eurovision do próximo ano. Não apenas aos donos da cultura da Irlanda, da Espanha, da Eslovênia e dos Países Baixos — que anunciaram ontem que estão se retirando — mas também aos israelófobos de apartamento que os aplaudem. E aos membros vaidosos da comunidade LGBTQ+ que dizem que não assistirão ao seu amado Eurovision se o abominável Estado Judeu estiver lá. Também aos inúmeros idiotas de keffiyeh tagarelando sobre como a presença tóxica de Israel manchará o Eurovision para sempre.

Perguntem a cada um deles — por que uma guerra israelense os enfurece mais do que uma guerra britânica? Por que a perseguição de Israel ao exército de antissemitas que o atacou tão barbaramente em 7 de outubro de 2023 os enoja mais do que a destruição de um Estado soberano pela Grã-Bretanha, na qual ele nunca encostou um dedo? Por que continuaram a dançar alegremente durante uma guerra que devastou muito mais vidas árabes do que a guerra atual em Gaza? Chega de hipocrisia. Todos sabemos que pergunta deve ser feita: Por que a sua “consciência moral” só se manifesta quando são judeus lutando uma guerra?
Essa é a questão sobre o grande boicote ao Eurovision — seus agentes estão estufando o peito e posando como arautos inquestionáveis da virtude humana; no entanto, a sua hipocrisia abjeta e asquerosa é nítida. Todo mortal conectado à internet sabe que esses Estados autoexaltados e seus bajuladores nas redes sociais não boicotaram o Eurovision quando um desses países estava travando uma guerra que, por todas as métricas, era pior do que a guerra em Gaza. Todos sabemos que não é a morte e a destruição que esses hipócritas vaidosos odeiam — é um pequeno e insolente Estado no Mediterrâneo Oriental. Eu me pergunto por quê.
É isso que a campanha para expulsar Israel do Eurovision realmente representa — o mais recente esforço fanático para limpar nosso continente da doença da nação judaica.
A desonestidade e a empáfia estarrecedoras dos que fogem do Eurovision se resumem melhor na República da Irlanda. Sua emissora nacional, a RTÉ, emitiu um dos comunicados mais arrogantes que já li em anos. Não competiremos nem transmitiremos o Eurovision do próximo ano, disseram os queridinhos da Dublin 4. É “inconcebível”, esbravejaram eles, que Israel participe, apesar de sua guerra ter causado uma “terrível perda de vidas”. É uma baboseira egoísta que levanta questões simples de responder: Por que vocês competiram e transmitiram o Eurovision quando a Grã-Bretanha estava no Iraque? Por que as vidas iraquianas significam menos para vocês do que as vidas palestinas, ou por que o Estado Judeu ofende o âmago de sua moral mais do que qualquer outro Estado? É difícil decidir qual resposta é a pior. Mas diga-nos, por favor, RTÉ: qual é?

O que é realmente “inconcebível” são os flagrantes dois pesos e duas medidas pelos quais a única nação judaica do mundo é julgada e condenada de maneira tão impiedosa e bárbara. Podemos ignorar convictos o que os analfabetos históricos da esquerda burguesa estão dizendo: “A Rússia foi impedida de participar do Eurovision em 2022, então por que Israel ainda está nele?!” A Rússia invadiu seu vizinho. Israel foi invadido por seu vizinho — por um exército de seis mil islamistas que chegou por ar, mar e terra para massacrar mais judeus em um único dia do que se fez desde os nazistas. Se vocês não conseguem distinguir a diferença entre essas duas coisas, então tenho más notícias: ou vocês são estúpidos ou são antissemitas.
Não, o que o boicote ao Eurovision realmente revela é o poço profundo de fanatismo de onde o veneno da israelofobia espuma e flui. Vez após outra, a nação judaica é julgada por um padrão diferente de qualquer outra nação na Terra. Seus acadêmicos são boicotados, enquanto os da América não, apesar de suas guerras terem sido muito mais destrutivas. Seus artistas são objetos da ira e banidos, enquanto os da China e do Irã não. Suas guerras são alvo de protestos a cada semana, enquanto as do Sudão não. Sua futura destruição é abertamente sonhada — do rio ao mar — onde a de nenhuma outra nação é. E seus cantores do Eurovision são difamados, atacados aos gritos e caçados como bruxas, enquanto nem os da Grã-Bretanha, nem os da França, nem os da Turquia o são. Na verdade, a Turquia venceu o Eurovision em 2003, e ninguém deu a mínima que apenas dois meses antes ela havia invadido o Curdistão iraquiano.
Se você chamar isso de antissemitismo, eles vão te atacar. Tudo bem. O que é, então? Como explicamos a fúria sem precedentes e desproporcional contra o Estado Judeu? Por que é mais boicotado, odiado, demonizado e amaldiçoado do que qualquer outra nação? Por que é o único Estado cuja derrocada violenta é abertamente defendida nas ruas do Ocidente? Por que tantos procuram isolar suas vidas de seus produtos, seus artistas, seus livros, seu povo? Estou farto de fingir que isso é “política”. Não é — é racismo. Esforços passados para tornar a Europa “Judenfrei” (livre de judeus) foram substituídos por uma nova cruzada para torná-la “Israelfrei” (livre de Israel). É isso que a campanha para expulsar Israel do Eurovision realmente representa — o mais recente esforço fanático para limpar nosso continente da doença da nação judaica. Plus ça change… (“Quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais…”)

A representante de Israel no Eurovision deste ano foi Yuval Raphael, uma cantora de 24 anos que sobreviveu ao massacre fascista do Hamas no festival de música Nova, fingindo-se de morta sob uma pilha de corpos. No entanto, quando ela chegou à Suíça para o Eurovision, foi confrontada por multidões que a vaiaram. Um homem fez um gesto de degola. Ela precisou de segurança 24 horas por dia, sete dias por semana. Uma sobrevivente de barbárie ao estilo nazista sendo zombada e ameaçada? Isso sim é inconcebível. E foi um produto direto do ódio racial do mais alto ao mais baixo escalão que tem a audácia de fantasiá-lo de “oposição a Israel”. Que vergonha para cada agente desprezível do boicote ao Eurovision.
Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy
Leia também “A verdade por trás da fúria racista”




Ótimo artigo Brendan !
Mais claro, impossível.
Sensacional descrição da hipocrisia dos que se rebelam contra Israel.
Brilhante artigo!